Nas arenas da profissão | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Nas arenas da profissão

Arquiteto e professor universitário. Formado em 1961 pela Faculdade de Arquitetura da UFRGS, é autor dos livros Depoimento de uma Geração, Arquitetura Moderna Paulistana, Arquitetura Moderna do Rio de Janeiro, Arquitetura Moderna de Porto Alegre e Arquitetura Moderna de Curitiba, publicados pela Editora Pini.

Alberto Xavier
Edição 98 - Setembro/2001
Edição: Haifa Y. Sabbag
Ícaro, diz a mitologia grega, criou asas voando para fugir do labirinto em que fora aprisionado pelo rei de Creta. Se fizera acompanhar por Dédalo, seu pai, que, exilado na Sicília, transformou-se no principal arquiteto do rei, construindo inúmeros templos. Um outro Ícaro também criou asas antes de criar edifícios. Atleta de fama internacional, recordista de salto com vara, representou o Brasil nas Olimpíadas de Berlim, em 1936. Foi também, por meio século, grande construtor de templos - incontáveis templos para o esporte.
Ícaro e Dédalo numa só figura - Ícaro de Castro Mello. Sim.
Na história da arquitetura brasileira, raros são os registros de arquitetos com produção centrada numa temática específica. Ícaro de Castro Mello foi um deles. Nascido em 1913 em São Vicente, SP, muito cedo comprometeu-se com a concepção de prédios esportivos e, até sua morte, ocorrida em 1986, nunca interrompeu as incursões neste território, sendo seguramente o arquiteto brasileiro que criou o maior número de edifícios desta natureza

A familiaridade de Ícaro de Castro Mello com estádios e ginásios não se estabeleceu ao longo de sua carreira, nem o interesse surgiu na vida acadêmica, mas pelo viés da prática esportiva, bem antes de ingressar, em 1931, na Escola de Engenharia Mackenzie, que trocou dois anos depois pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Ao diplomar-se em 1935 como engenheiro-arquiteto, Castro Mello já era atleta nacionalmente consagrado, campeão paulista, brasileiro e sul-americano de salto em altura, salto com vara e decatlo, detentor de recordes nestas modalidades, tendo se dedicado também à natação, tênis e vôlei. Em 1936, ao participar das Olimpíadas de Berlim integrando a equipe brasileira de atletismo, aproveitou a oportunidade para estagiar por uma semana no escritório do arquiteto Werner March, autor do projeto do Estádio Olímpico da capital alemã.


Uma década de transformações
Enquanto no início da década de 30 a Politécnica submetia a geração de Castro Mello a um ensino retrógrado, sopravam numa São Paulo acanhada alguns ventos renovadores, produto das ações exemplares de Gregori Warchavchik, Rino Levi, Flávio de Carvalho e Oswaldo Bratke, patrocinadas pela iniciativa privada, ainda relutante e desconfiada. Já formado, outras influências aportam na cidade, como os resultados bem-sucedidos da arquitetura carioca, inspirada no ideário de Le Corbusier e apoiada pelo governo Vargas. Vivia-se, sem dúvida, um período singular, em que "... quase tudo onde aparece o arquiteto, tem uma ponta de pioneirismo", conforme reconhece Luís Saia.

Seus primeiros anos de trabalho em nada divergem do destino reservado ao pequeno número de colegas diplomados na Politécnica ou no Mackenzie. Não constituindo a prática de projeto atividade autônoma e, mais do que isto, sendo o arquiteto considerado um profissional prescindível, volta-se Castro Mello para o único caminho então possível: o trabalho numa empresa construtora, dedicada a obras residenciais de pequeno porte, expressas na linguagem então corrente do neocolonial. Sua convocação para servir o exército na 2a Guerra, no entanto, só permitiu a retomada das atividades em 1943. E o fez em outras circunstâncias: deixou de ser mero espectador daqueles esforços de renovação para se transformar num ator importante, engajando-se num grupo de vanguarda com história comum. Compunham esse grupo nomes como os de Oswaldo Corrêa Gonçalves, Zenon Lotufo, Miguel Forte, Vilanova Artigas e Jacob Ruchti, aos quais se agregaram Franz Heep, Lina Bo Bardi, Giancarlo Palanti e Lucjan Korngold, vindos de uma Europa destruída pela Guerra. Foi nessa época e no seio da maioria desses arquitetos que questões candentes como a forma de exercício da profissão, o ensino autônomo da arquitetura e a criação de um órgão que defendesse os interesses da categoria ganharam a ordem do dia.

O perfil pretendido para o profissional era aquele exclusivamente voltado para as atividades de projeto, bandeira já deflagrada em meados da década de 30 por Rino Levi. Mas havia uma questão crucial: como cobrar por um serviço considerado supérfluo e indissociável dos custos da construção? A solução dependia de um novo fórum, daí a fundação, em fins de 1943, do Departamento de São Paulo do Instituto de Arquitetos do Brasil, com a participação ativa de Castro Mello, Kneese de Mello e Oswaldo Corrêa Gonçalves. No bojo da luta pela redefinição do perfil do arquiteto engaja-se a do ensino autônomo de arquitetura - já então um imperativo legal. Em 1947 é fundada a Faculdade de Arquitetura do Instituto Mackenzie e, no ano seguinte, a congênere da USP. Castro Mello não só participou da luta por esse novo ensino, tendo o IAB como órgão catalisador das reivindicações, como colaborou ativamente pelo período de oito anos (1950-1957), lecionando na FAUUSP.


Guinada decisiva
Um convite formulado em 1943 por Silvio de Magalhães Padilha, diretor do Departamento de Educação Física e Esportes do Estado de São Paulo, possibilitou ao arquiteto a concretização do desejo de dedicar-se exclusivamente às atividades de projeto. Tratava-se da elaboração de um conjunto de normas de dimensionamento, detalhes construtivos e especificações técnicas relacionados às mais diversas práticas desportivas, para atender à solicitação sempre crescente das delegacias do interior do Estado. Tal oportunidade proporcionou-lhe uma íntima relação com clubes e prefeituras que, mais tarde, viriam a constituir a clientela dos sucessivos trabalhos que realizou para edifícios desportivos.

Estas instalações viriam impor ao arquiteto exigências funcionais e construtivas distintas, uma vez que diziam respeito a grandes espaços livres, viabilizados pelos novos materiais e cálculos prévios. Libertava-se, assim, dos programas então correntes, caracterizados por espaços compartimentados, emprego de técnicas e materiais obsoletos e a manutenção de uma mão-de-obra artesanal, traduzidos numa visão historicista. Procurando conhecer as obras mais significativas nas inúmeras viagens que empreendeu ao exterior, Castro Mello desbravava um rico campo de experimentação. Isto conduziu à criação de uma tipologia própria, capaz de transcender o utilitário e ganhar sentido representativo, sendo fundamentais as contribuições pioneiras de Nervi e Torroja.

Dentre seus primeiros trabalhos destaca-se a piscina coberta do Parque da Água Branca (São Paulo, 1948). Com capacidade para 4.500 espectadores, foi uma das maiores construções do mundo no gênero quando inaugurada. Em que pese ter sido idealizada na fase inicial da produção do arquiteto, deparamo-nos, sem dúvida, com uma obra madura, das mais importantes que realizou, dada à originalidade da concepção. Trata-se de um parabolóide hiperbólico de acentuada força dinâmica e clara coerência com as funções que abriga, indicando sua deflexão o arranjo dado às arquibancadas, longitudinalmente à piscina. Presença obrigatória em publicações internacionais, Henry-Russell Hitchcock viu em suas "... curvas oblíquas... como na igreja da Pampulha de Oscar Niemeyer, justificativa estrutural e esplêndida escala".

Com essa obra exemplar, tem início uma sucessão ininterrupta de projetos para edifícios e complexos desportivos, solicitados por prefeituras e clubes. Destacam-se o Clube Sírio (São Paulo, 1950), Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (Bauru, SP, 1952), Jockey Clube de Uberaba (MG, 1953), Federação Universitária Paulista de Esportes (São Paulo, 1955) e o Setor Esportivo da USP (São Paulo, 1952, reformulado em 1961), além dos clubes Las Peñas (1965) e Titicaca (1966), ambos no Peru. Como de hábito, constituíram-se em iniciativas ambiciosas, envolvendo custos elevados e normalmente construção por etapas, segundo prioridades de sucessivas gestões. Enfrentaram, portanto, descontinuidade, redefinição de prioridades, inclusão de novos programas e até mesmo revisão do plano piloto ou dos projetos dos edifícios. Em conseqüência, a maioria desses conjuntos não saiu do papel ou foi apenas parcialmente construída.


Cúpulas e abóbadas - soluções dominantes
Ginásios e estádios predominam na produção do arquiteto, como edificações isoladas ou integrando conjuntos desportivos. Foram mais de três dezenas, de variados tamanhos e distintos desafios. No caso dos ginásios prevalecem no repertório as soluções de cobertura - abóbadas ou cúpulas - associadas aos componentes com função estrutural, expressivamente tratados. Coberturas em abóbada, executadas com arcos de madeira contraplacada, foram empregadas em ginásios com planta retangular. Além de atenderem a conveniências construtivas e econômicas, são apropriadas para edificações de porte mediano. Nos exemplos de Santos (SP, 1948), Sorocaba (SP, 1950), Porto Alegre (RS, 1954) e Campinas (SP, 1964), as arquibancadas podem estar arranjadas sob os arranques dos arcos ou configurando corpos autônomos, com bordas internas atirantadas nos arcos periféricos.

Soluções com planta retangular que, no entanto, fogem à cobertura em abóbada, encontram-se nos ginásios da AABB (Associação Atlética Banco do Brasil), em Itapecerica da Serra (SP, 1959), do Sesc em Bertioga (SP, 1960) e da prefeitura de São Bernardo do Campo (SP, 1961). No caso do Sesc em Bertioga, a singeleza do programa sugeriu um telhado de duas águas com grandes vigas de madeira, enquanto os outros, com quadra sobrelevada, apelam para recursos construtivos mais ousados, sendo a cobertura plana sustentada por treliças metálicas que repousam sobre empenas cegas de concreto.

Nos ginásios de pequeno porte para São Paulo (Clube Sírio e FUPE), Ribeirão Preto, Uberaba e Bauru, da década de 50, empregou-se solução de planta circular e cúpula dotada de lanternim. Com diâmetro da ordem de 50 m e altura de 20 m, as cúpulas compreendem arcos de madeira contraplacada e fechamento de fibrocimento e se apóiam em pórticos radiocêntricos de concreto, inclinados segundo a tangente à curva, no plano da imposta. Um gesto pioneiro foi identificado por Yves Bruand no ginásio do Jockey Clube de Uberaba, onde "... a calota elipsoidal, vazada por um lanternim e sustentada por pilares em forma de V invertido... oferecia uma antecipação das propostas mais audaciosas que Nervi e Vitellozzi iriam desenvolver com sucesso, três anos depois, no pequeno ginásio de Roma".

Para os recintos de grande porte, com diâmetros de 90 m, a estrutura da cúpula passa a ser metálica, solução inaugurada com o ginásio do Ibirapuera (SP, 1952). Construído para sediar as grandes competições previstas para o IV Centenário da capital paulista, em 1954, não manifesta o dinamismo estrutural, tão enfaticamente explorado pelo arquiteto em outras realizações. Já nos ginásios de Fortaleza (1964), Recife (1969) e Brasília (1970), os recursos formais e construtivos se fazem presentes de modo mais claro e vigoroso, graças ao aproveitamento da estrutura como veículo de expressão. No primeiro caso, a fisionomia dinâmica resulta do perfil ogival definido pela cobertura e as arquibancadas, enquanto nos dois outros, este predicado decorre do modo como são tratados os pórticos de sustentação do conjunto.


Cenários para grandes espetáculos
Os estádios de futebol comportam alguns desafios: visibilidade plena, acessibilidade clara e rápida, segurança, proteção do sol e da chuva e, pelo seu gigantismo, complexos problemas estruturais. Também acarretam graves questões relacionadas aos processos urbano e viário de nossas cidades. Os inúmeros projetos realizados por Castro Mello tanto abrigam público restrito, quanto alcançam dimensões gigantescas. Neles predomina a solução clássica do anel elíptico, mas outros partidos foram também contemplados. Estádios de capacidade modesta, como o previsto para o conjunto desportivo da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (Bauru, SP, 1952), ou o construído no Campus da USP (SP, 1961), para 30 mil espectadores, apresentam partido de anfiteatro. Trata-se de solução eficiente, tanto sob o ponto de vista da insolação - ao restringir as arquibancadas ao trecho que olha para o nascente -, quanto de visibilidade, ao acentuar sua largura, na parte mais próxima do centro do campo.

O partido bastante original de arquibancadas setorizadas tem por propósito limitar os efeitos de conflitos e pânico, além de viabilizar a construção por etapas, situação freqüente, em razão do vulto dos recursos que envolve. Aparece no estádio para Rio Claro (SP, 1967) e, mais tarde, no Mané Garrincha, em Brasília (1972). Ambos são compostos por 14 módulos para 45 mil e 100 mil espectadores, respectivamente.

A tradicional solução anelar já comparece no final dos anos 40 em dois projetos realizados em parceria com Oswaldo Corrêa Gonçalves. O do Guarani Futebol Clube de Campinas (SP, 1948), para 30 mil espectadores e o pretendido estádio do Clube Atlético Mineiro (BH, 1949), com capacidade para 45 mil pessoas. Em 1954, é esta também a solução proposta para o estádio do Campus da USP, em sua primeira e elegante versão, também com 45 mil lugares. Em 1980, o partido ganha contornos monumentais no estádio do Corinthians, situado no distrito de Itaquera, com capacidade para 200 mil pessoas. A complexa solução estrutural compreende 64 pórticos de concreto protendido, que sustentam o anel externo de circulação do público e as arquibancadas, distribuídas em três níveis, além das vigas-calha de cobertura, com balanço de 50 m.

Uma liderança permanente
Castro Mello envolveu-se com a entidade de classe dos arquitetos desde a criação do Departamento de São Paulo do IAB, em 1943, pela qual foi um dos responsáveis. Está à sua frente nos anos 50, como vice-presidente (1953-54) e presidente em três gestões (1956-61). Na década seguinte, confere ao órgão dimensão nacional - restrito até então a São Paulo e Rio de Janeiro -, na condição de tesoureiro (1958-1961) e presidente, em duas gestões (1961-65). Nos anos 70, assegura ao IAB visibilidade internacional, representando-o em congressos da UIA e ocupando, no período 1975-78, a vice-presidência da Federação Pan-Americana de Arquitetos.

Em 11 de dezembro de 1986, Dia Nacional do Arquiteto, Castro Mello, falecido dois meses antes, recebia o prêmio Vilanova Artigas de Arquiteto do Ano, conferido pelo Sindicato dos Arquitetos do Estado de São Paulo, entidade que ajudou a fundar e da qual foi seu primeiro presidente. Na galeria dos que contribuíram significativamente com o patrimônio da arquitetura brasileira, Castro Mello tem posição destacada. Entretanto, no restrito território dos que dedicaram uma vida à luta pela melhoria das condições de trabalho dos arquitetos, seu nome soa uníssono, daí o reconhecimento que esta premiação representa. Na cruzada de quatro décadas, Ícaro de Castro Mello deu cara, cor e coragem aos órgãos que ajudou a fundar.



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