Confluência de períodos | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Confluência de períodos

Em apenas quatro meses, o antigo edifício dos bancos Nacional do Comércio, Sulbrasileiro e Meridional foi transformado em um moderno centro cultural da capital gaúcha. Inaugurado em agosto deste ano, o Santander Cultural é resultado de um projeto de intervenção do arquiteto Roberto Loeb, que preserva a memória arquitetônica e cria um diálogo de contraste entre o velho e o novo

Valentina Figuerola
Edição 98 - Setembro/2001
Santander Cultural
Localizado na Praça da Alfândega, centro de Porto Alegre, o Santander Cultural é um dos exemplares do ecletismo histórico praticado no início do século

O edifício do antigo Banco Nacional do Comércio, no centro histórico de Porto Alegre, foi transformado em um moderno centro cultural. Manter as características originais do prédio, concebido pelo arquiteto e escultor Fernando Corona por volta de 1920 (não há consenso sobre essa data), foi uma das metas de Roberto Loeb, autor do projeto de intervenção, que incorpora na sólida e monumental construção eclética, inaugurada em 1932, elementos arquitetônicos contemporâneos. No Santander Cultural, a arquitetura do passado foi valorizada pelo projeto, que agrega modernidade e novas tecnologias ao edifício histórico.

O contraste entre o antigo e o novo foi materializado pela construção de um átrio central no antigo poço de ventilação e iluminação do prédio. Com piso estrutural de vidro, o elemento revela os três grandes vitrais do hall central como um tapete colorido e luminoso aos pés de quem caminha sobre o novo espaço. Para Loeb, conceber o átrio significou mais do que criar uma área adicional de 700 m², onde serão realizadas atividades como exposições, palestras, peças teatrais e apresentações musicais. "O piso de vidro mostra os vitrais como se fossem uma lâmina de passagem do tempo, dividindo o passado do presente", explica Loeb.

A escolha de materiais e cores privilegiou a luminosidade do espaço, revestido lateralmente com chapas brancas de tela perfurada. "Como um véu, o revestimento mostra as janelas do antigo poço de ventilação, que foram mantidas", explica Loeb. Durante o dia, a cobertura em arcos metálicos e vidro permite que a luz natural penetre no espaço, atravessando o piso de vidro e os vitrais, atingindo o imponente hall central do edifício, no térreo. À noite, projetores enviam luz a espelhos planos e convexos que distribuem uma iluminação difusa e uniforme no espaço. "Dependendo da intensidade de luz no hall central, os vitrais ficam iluminados para o átrio."

Recuperar a feição original do hall central foi uma das metas do projeto. Os vitrais, assim como os ornamentos concebidos dentro da influência da École Nationale de Beaux Arts, foram restaurados e preservados. O espaço é praticamente o mesmo de 70 anos atrás, com exceção das instalações técnicas das galerias, localizadas em uma área adjacente. Sem rasgar a alvenaria, calhas, bandejas e dutos percorrem o ambiente, contrastando com os ornamentos inspirados no estilo neoclássico francês, como as colunas coríntias e o piso em ladrilho hidráulico de grês belga. "Não quis maquiar o equipamento", diz Loeb, que optou pela diferenciação entre a antiga e a nova arquitetura.



Danificados, os revestimentos de granito das fachadas externas foram recompostos por meio de próteses de pedra e obturações de resina acrílica. As janelas originais foram retiradas, restauradas e pintadas na cor original. "Para detectar as cores originais das esquadrias internas e externas, foram feitas prospecções pictóricas com bisturi cirúrgico", explica Ismael Solé, engenheiro responsável pelo projeto de restauro do edifício.

A sede administrativa do Santander ocupou o primeiro e segundo pavimentos do edifício. Escritórios abertos foram instalados no local, que recebeu sistema de ar-condicionado central, rede elétrica, lógica e hidráulica. Para revelar as terças e toda a estrutura da cobertura original, o antigo forro horizontal de madeira foi retirado e substituído por outro que acompanha a declividade do telhado. Em ambientes como a Sala de Conselho, móveis antigos foram recuperados, assim como molduras de quadros.

O acesso de idosos e deficientes ao edifício foi privilegiado pelo projeto, que adotou elevadores novos e renovou antigos. Ao todo há cinco elevadores, dentre eles um panorâmico, inserido em uma caixa de vidro. Em um outro foram conservadas as grades originais. A criação de uma rampa que parte da Praça da Alfândega, endereço do edifício, facilitou o acesso ao subsolo da construção, um pavimento semi-enterrado que abriga ambientes como bar e restaurante. No térreo, áreas como loja e livraria especializadas em arte, fotografia, arquitetura e difusão da cultura gaúcha, têm acesso direto pela Praça da Alfândega.

Em caixas-fortes
O subsolo da antiga construção foi absorvido e reciclado pelo projeto, que converteu os antigos espaços em ambientes de alimentação, cultura e lazer para o público. Ao penetrar no subsolo, o visitante se depara com sólidas e imponentes caixas-fortes, hoje incorporadas ao centro cultural. Um cenário nostálgico que contrasta com a moderna iluminação, com o mobiliário e com as placas de tela metálica perfurada, utilizadas como revestimento dos ambientes.


"O restauro revelava surpresas da arquitetura original que nortearam as decisões de projeto", explica Loeb, que concebeu o projeto simultaneamente à execução da obra, num processo que durou 110 dias. Uma das descobertas foi o piso em ladrilho hidráulico belga na área onde hoje se encontra o restaurante, que durante anos ficou escondido sob uma laje. A manutenção de elementos da arquitetura original, como paredes de concreto com marcações de giz feitas há 70 anos e um antigo pilar de concreto com marcas da fôrma feita de tijolos, testemunham a técnica construtiva da época.

A configuração original do subsolo foi mantida, como as duas caixas-fortes com paredes de concreto armado de 50 cm de espessura. Para remodelar os espaços internos, a espessa alvenaria foi cortada com uma serra circular diamantada especial. Além disso, cofres e suas portas com motivos industriais foram integrados ao ambiente. Os corredores de segurança passaram a funcionar como a circulação horizontal do pavimento, além de abrigar um museu de numismática.

A caixa-forte maior, localizada no centro da planta, foi adaptada para se tornar um cinema de cem lugares. Um restaurante e um bar e café se apropriaram de cofres menores, adjacentes à caixa-forte maior. Para conseguir maior permeabilidade visual, o arquiteto optou por fazer recortes circulares na sólida e robusta alvenaria de concreto, valorizada pela iluminação colorida das lâmpadas halógenas com filtros coloridos. Além disso, o subsolo contará com uma biblioteca histórico-legal, oficinas de arte e sanitários para o público.

O arquiteto
Roberto Loeb formou-se em 1965 pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, sendo mais tarde professor de projetos nessa mesma escola. Em 1995 inaugurou o World Trade Center (Hotel Melià e Centro de Convenções), tendo sido responsável pelo detalhamento do projeto de arquitetura desse complexo, em São Paulo.

Realizou ainda o projeto padrão para a vídeo locadora Blockbuster e projetos para as novas sedes das empresas Brahma, Gessy Lever, Casas Pernambucanas, Alpargatas Santista, Camargo Corrêa, Mckinsey e Multibrás. Autor do projeto da nova sede da Natura, no município de Cajamar, SP. Atualmente, é responsável pelo projeto arquitetônico da Casa de Cultura de Israel, centro cultural da comunidade judaica do Estado de São Paulo, edifício que será concluído até o fim de 2001.


Ficha técnica
Arquitetura e interiores: Roberto Loeb
Colaboradores: Luis Capote, André Kuhl, Francisco Cassimiro, Nicola Pugliese, Maria Fernanda Nogueira, Damiano Leite, Fernanda Pinha, Lilian Martins
Levantamento cadastral, acompanhamento e fiscalização do restauro: Ismael Solé Projetos Especiais
Engenheiro: Ismael Solé
Colaboradores: João Postiga, Andréa Manera Miranda, Maria Isabel Locatelli, Luis Carlos Felizardo
Gerenciamento das obras: Engineering
Execução de obras: Consórcio Método Engenharia/Concrejato
Coordenação geral de projetos e obras: Banco Santander - departamento de engenharia
Coordenadores: Leandro Mainente, Lia Raquel Salomão
Colaboradores: Vânia Hirata
Fornecedores
Caixilhos e consultoria de vidros: AEC; estruturas: Cia. de Projetos; termoacústica: Daltrini Granado Conforto Ambiental; audiovisual: EAV Eletrônica; ar-condicionado: Engetherm; elétrica, hidráulica e incêndio: LTP Engenharia; iluminação: Radix Studio de Design; orçamentos: Straub Engenharia; segurança: Jugend Engenharia; gerenciamento e fiscalização: Engeneering; obras civis e instalações: Método; serviços especiais de engenharia de restauro: Concrejato; estrutura metálica: AEB; restauro das fachadas: Cia. de Restauro; restauro dos vitrais: Conrado Vitrais; reforma do telhado e proteções: Construtora Estilos; reforma do telhado: Multimanta Impressol; estruturas de alumínio e vidros: Inmecol; esquadrias de madeira: N. Hasse & Cia.; esquadrias de madeira: PH Brasil Restaurações; ar-condicionado e exaustão: Planiduto; piso de granilite: Tecnopiso; elevadores: Thyssen Sûr; serviços civis e demolições: Raefe Engenharia; instalações elétricas e hidráulicas: Vigor Engenharia


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