Memórias das Alagoas | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Memórias das Alagoas

José Wolf
Edição 97 - Agosto/2001

Marcada por aventuras, lendas, lutas e invasões, Alagoas tem muita história para recordar. Entre outras, a dos quilombos de Palmares, o naufrágio do bispo Pero Fernandes Sardinha, que teria sido devorado pelos índios caetés, a adesão de Calabar aos holandeses, enforcado mais tarde pelos portugueses, as incursões de Lampião pelo sertão ou as andanças de D. Pedro II pelo interior alagoano, além de contar com figuras legendárias de políticos e intelectuais, como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Teotônio Vilela, sem contar o músico Djavan e o compositor Mácleim.
Um patrimônio histórico e cultural dessas proporções precisava ser preservado e foi com o objetivo de resgatar o passado que surgiu, em sistema de parceria entre a prefeitura e o governo do Estado, o Museu de Imagem e Som de Alagoas, instalado na capital Maceió. Todo informatizado e higienizado, o Misa deverá guardar o acervo de documentos, fitas, discos, recortes de jornais e fotografias que vão contar para as gerações futuras a história da antiga província do Império, cujo litoral foi explorado, pela primeira vez, pelo navegador italiano Américo Vespúcio. "O prédio precisava ter uma ocupação coerente com o momento atual para ser valorizado pela população", enfatiza Júlia Tavares, arquiteta responsável pela execução do projeto de restauração.

Instalado num antigo edifício neoclássico da praça Dois Leões, antiga praça Nossa Senhora Mãe do Povo, em plena zona portuária da capital de Alagoas, o projeto foi objeto de um verdadeiro trabalho de "arqueologia" que possibilitou o diagnóstico de cada detalhe da edificação, das várias camadas de tinta às fundações. Os serviços foram conduzidos pela equipe de arquitetos, técnicos e engenheiros da alagoana Cipesa, empresa vencedora da licitação pública que a tornou responsável pelas obras de restauro do edifício, além do projeto de recuperação de todo o entorno de Jaraguá, bairro tradicional da cidade e classificado por Lêdo Ivo, em um de seus poemas, como "porta e porto de Alagoas".

O casarão de pedra e alvenaria, construído em 1869 pelo engenheiro Carlos Mornay, sediou o Consulado Provincial, que servia para a arrecadação de impostos e ali permaneceu até o início da República. O edifício, nessa época, apresentava um traçado horizontal, formas simétricas e era composto por um corpo central com um frontão triangular, mais dois corpos laterais com telhados de duas águas. Em 1918, sob a orientação do arquiteto José Diniz da Silva, ganhou um segundo pavimento central.

Ao longo do tempo, o edifício passou por várias transformações, adaptando-se ao desenvolvimento da cidade e às novas funções. Com isso, acabou adquirindo uma expressão eclética. Em 1997, o imóvel foi fechado por questão de segurança devido às precárias condições de conservação. Até que, mobilizando a opinião pública local, um grupo de intelectuais encabeçou uma campanha para a recuperação do imóvel histórico, o que resultou na decisão governamental de transformá-lo no Museu de Imagem e Som de Alagoas.

O projeto de restauro, sob a coordenação da arquiteta Lausanne Leão, seguiu um cronograma estratégico, que dividiu o museu em três setores complementares: memória, pesquisa e produção. Ao ingressar no prédio, o visitante atinge o salão principal ou hall para exposições. Na lateral esquerda estão os setores de serviços de áudio e imagem e o de pesquisa. À direita fica a ala de produção e catalogação, toda informatizada. No pavimento superior há um auditório com capacidade para 80 pessoas, destinado a conferências, seminários e cursos. Apenas uma parte do edifício, que serviu como cadeia pública, foi removida, para se resgatar arcos e esquadrias da arquitetura do início do século XX.


A equipe responsável definiu como parâmetro para as intervenções a edificação de 1920 e seguiu a teoria do arquiteto italiano Cesario Brandi, segundo a qual deve-se manter os elementos existentes e, quando necessário, recriar, mas sem copiar, os elementos deteriorados, mantendo as características originais do prédio. "O projeto é fiel à espacialidade, à simetria e às formas da construção de 1920, mas sem qualquer compromisso com a reprodução, pois não se trata de uma simples cópia e, sim, de uma releitura contemporânea de um marco simbólico da cidade", diz Júlia Tavares, confirmando o pensamento de Lausanne Leão.

A partir de levantamento técnico para detectar as condições físicas da edificação, possíveis fissuras, rachaduras e materiais deteriorados, a equipe descobriu que não havia grandes problemas estruturais, mas muitos problemas técnicos. Em função do novo programa, por exemplo, não bastava restaurar as quatro colunas do pavimento onde se encontra o auditório. "O teste de carga revelou que a antiga estrutura não teria condições de suportar a sobrecarga de 500 kg/m² do novo auditório", explica o engenheiro Fernando Regis Viana, responsável pela obra. Em conseqüência disso, os pilares originais, construídos com barras de ferro (trilhos de trem) e argamassa armada, foram substituídos por tubos metálicos e concreto, apoiados numa base de alvenaria. Além disso, foram feitas algumas reformulações estéticas. Na parte externa, algumas paredes foram demolidas para se reconstituir a simetria da volumetria original. O desenho das esquadrias ganhou linhas menos rebuscadas que as originais.

O engenheiro Viana conta que o principal desafio enfrentado durante a execução das obras estava relacionado a problemas de umidade ascendente e descendente, sem contar a infestação de pragas urbanas, como bactérias e cupins. Assim, foi necessário um trabalho específico de proteção que incluiu a execução de uma barreira química, feita a partir da aplicação de inseticida no solo e também nas extremidades de todo barroteamento, e de outra mecânica, constituída de um manta impermeável disposta no porão. Essa manta de plástico tem a função de impedir a infiltração da água. O madeiramento do piso foi recuperado, passando, também, por um tratamento químico de descupinização.

A pintura das paredes seguiu as tonalidades aplicadas na reforma de 1918. Quanto ao revestimento e impermeabilização, foram utilizadas tintas sílico-minerais, além de argamassa e cal, que possibilitam às paredes melhor "respiração" e proteção contra umidade. O trabalho de restauro incorporou, ainda, o projeto de iluminação embutida, para futuras exposições, além de um elevador panorâmico.

Hoje, quem passa pela praça Dois Leões, em Maceió, pode observar o edifício totalmente restaurado, com sua tonalidade salmão, destacando-se no cenário de galpões, armazéns antigos e mastros de navios.
Ficha técnica:
Execução: Cipesa Engenharia
Coordenação geral: UEM-Unidade Executora Municipal
Projetos complementares: TPC
Projeto de restauro, ambientação e arquitetura: Lausanne Leão Ferreira
Consultor de restauro: Eideval Bolanho
Consultora de execução: Júlia Tavares
Arquiteta restauradora: Marta Maria Ribeiro
Museologia: Carmem Lúcia Tavares
Historiador: Douglas A. Tenório
Técnico da obra: Fernando Regis Viana
Mestre geral: Roberto Simplício
Técnico de segurança: Laudemir Batista dos Santos
Instalações: José Calheiros da Silva

Fornecedores:
concreto: Betonbrás e Redimix; revestimento cerâmico: Portobello; metais sanitários: Deca; condicionadores de ar: Springer Carrier; tomadas e interruptores: Siemens; tintas: Ibratin; louças sanitárias: Celite; luminárias: Lustres Projeto e Interpan; elevadores: Thyssen Sûr; aço: Gerdau; ferragens: mab; granitos: Pedra Polida; argamassa pré-moldada: Supermix


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