Agência de cultura | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Agência de cultura

Carine Portela
Edição 96 - Junho/2001

Ao completar um século, o edifício que abrigou a primeira sede própria do Banco do Brasil em São Paulo ganha vida nova e a responsabilidade de promover uma renovação urbanística de seu entorno, o Centro antigo da cidade
Inaugurado dia 21 de abril, o Centro Cultural do Banco do Brasil-SP promete produzir os mesmos efeitos que a filial do Rio de Janeiro. Aberto em 1989 no então deteriorado centro carioca, o CCBB-Rio atraiu novos freqüentadores, estimulou a vida noturna e as preocupações com limpeza, conservação e segurança do local, além de tornar-se um dos principais pólos de manifestação artística da cidade. A idéia é que a versão paulista popularize a arte em uma área ainda carente de atividades culturais, apesar de todas as iniciativas que surgiram desde a criação da associação Viva o Centro, como a Sala São Paulo de concertos, no Complexo Cultural Júlio Prestes.

Construído em 1901, o prédio localizado na esquina da rua Álvares Penteado com a rua da Quitanda foi adquirido pelo Banco do Brasil em 1923. Coube ao engenheiro-arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol Junior transformá-lo em agência bancária, que funcionou de 1927 até 1996. Quando o arquiteto Luiz Telles e sua equipe iniciaram o projeto do centro cultural, existiam dúvidas quanto à fachada do edifício: havia sido criada para o Banco do Brasil ou pertencia à obra original. De acordo com os documentos da época da reforma, o projeto de Pujol deveria conservar o aspecto das paredes externas. Entretanto, estudos sobre o conjunto da obra do engenheiro-arquiteto mostraram que a fachada possui elementos presentes também em outros trabalhos, como no estádio do Fluminense Football Club, no Rio de Janeiro, e no Teatro Pedro II, em Ribeirão Preto. "O brasão do Banco do Brasil está em perfeita sintonia e coerência com os demais elementos e não deve ter sido anexado décadas depois", diz Luiz Telles, "portanto, chegamos à conclusão que a fachada só pode ter sido criação de Pujol", completa. Telles acrescenta ainda que "as janelas de grandes vãos e o mesmo tipo de ornamentos e reentrâncias aparecem em várias obras do arquiteto".

Influenciado pela arquitetura francesa, Pujol escolheu a esquina para instalar a porta de entrada da agência, aproveitando ao máximo o espaço interno. O edifício de cinco andares tem um grande vão central e uma torre baixa, integrada ao corpo principal. O estilo é eclético, com elementos do neoclassicismo, da renascença italiana e do segundo reinado francês.

O Banco do Brasil ocupava apenas o subsolo, o térreo e o primeiro andar do prédio e alugava as salas dos outros pavimentos. Por se tratar da agência de um banco, elementos que remetem à economia da época aparecem representados por toda a construção, como as folhagens de café em ferro forjado que decoram a fachada, os guarda-corpos internos e externos e a clarabóia central. Segundo a arquiteta Silvana Nigro, da Concrejato, empresa responsável pela execução do restauro, as imagens dos deuses gregos Mercúrio e Vulcano, dispostas logo no hall de entrada da agência, representam o poder do trabalho e da realização material.

Colunas com capitéis trabalhados, adornos com douração e luminárias de dois braços foram reservados apenas para os andares em que funcionava o banco. A partir do segundo piso, os capitéis são retos, as lajes simples e as luminárias têm um braço só. Além disso, uma clarabóia de vitral colorido marcava a separação entre os dois espaços.

No projeto da LT Arquitetura para o CCBB, a clarabóia foi elevada para o quarto piso e passou a integrar os pavimentos. Uma estrutura de perfis metálicos revestida com gesso foi executada para apoiar a clarabóia, que era menor do que o vazio central do quarto andar.


Se içar a clarabóia significou democratizar o espaço, a disparidade em relação ao tratamento dado aos interiores de cada piso foi mantida como um registro da história do edifício. A partir dessa decisão, ficou definido o caminho a ser seguido pelo projeto: adaptar para o novo uso sem aviltar, deixando as marcas do passado ao alcance dos visitantes. A arquiteta Miriam Macul, da equipe de Luiz Telles, conta que mesmo portas que não têm utilidade para o centro cultural continuam expostas "para preservar as características originais do edifício".

Os cofres da agência, localizados no subsolo, tiveram as portas de aço e bronze restauradas e foram convertidos em salas de exposição de numismática. No térreo, os balcões de atendimento, que rodeavam todo o saguão central, foram cortados para facilitar a circulação do que agora é o hall de entrada. Os trechos que foram mantidos serão utilizados como bilheteria, recepção e guarda-volumes, e as partes retiradas foram aproveitadas na bomboniére do terceiro andar. No mezanino foi instalado o restaurante. O primeiro andar abriga cinema, sala de vídeo e sala para workshops. O segundo, espaço para exposições e cibercafé. Mais salas de exposição dividem o terceiro andar com o teatro, que tem a platéia disposta em dois pavimentos para atingir a capacidade de 135 pessoas. Tantos espaços culturais, mais as áreas de administração, loja de souveniers, casa de máquinas e instalações de ar-condicionado foram encaixados nas apertadas dimensões do prédio: apenas 4,1 mil m² .

Um dos motivos para que Luiz Telles fosse escolhido para assumir os trabalhos do CCBB-SP foi o projeto do Centro Cultural São Paulo, localizado na rua Vergueiro (zona Sul da cidade), que Telles desenhou em parceria com Eurico Prado Lopes, em 1982. Contudo, é impossível comparar os dois trabalhos: o CCBB exigia a conversão de uma agência bancária de quase cem anos, cuja fachada e outros elementos já foram tombados pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) e pelo DPR/Conpresp (Departamento do Patrimônio Histório/Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), em um espaço eficiente para a realização de múltiplas atividades culturais. Conciliar o restauro com a modernização foi o grande desafio vencido pela equipe da LT Arquitetura.

O novo centro cultural pode ser definido como um registro high-tech do passado. Os espaços são climatizados, têm segurança, cenografia, áudio, vídeo e comunicação de dados com padrão tecnológico de última geração. As salas de exposição possuem controle de temperatura e umidade para conservar as obras de arte. Mesmo as peças originais do projeto de Pujol, como o elevador principal e o relógio do hall de entrada, são controladas por sistemas digitais. Os caixilhos das grandes janelas não foram trocados, mas receberem esquadrias internas com vidro acústico. Outro símbolo desse casamento inusitado é o cibercafé, uma central de internet com ornamentação e glamour do início do século.


Ficha técnica:
Arquitetura e interiores: LT Arquitetura - Luiz Telles,
Miriam Macul, Paulo Gambini, Silvana Simões e
Renato Riani
Acústica: Daltrini Granado
Análise e verificação de projeto: Addor
Ar-condicionado: Thermoplan
Consultoria de elétrica, áudio e vídeo: Ricardo Itabashi
Automação e segurança: Bettoni
Elétrica, hidráulica, telefonia e lógica: Sermon
Espaço cênico: JC Serroni
Estrutura: França & Associados e Engebrat
Restauração dos vitrais da clarabóia: Conrado Vitrais
Impermeabilização: Proassp
Cozinha: Meal
Investigação estrutural: Falcão Bauer
Luminotecnia: Espaço Luz
Paisagismo: Toni
Restauro: Companhia de Restauro e Restarq
Execução do restauro: Concrejato

Equipe técnica do Banco do Brasil
Gerência: engenheiro João Anselmo da Silva
Arquitetura: Suely Katsue Sato
Estrutura: Ricardo Montanari Leme
Instalações elétricas: Samir Navarro Chimelli
Instalações mecânicas: Heleno Vianna Junior
Acompanhamento da obra: Carlos Alberto Prado de Oliveira
Arquitetos colaboradores: Fusao Takito e Olinda Sumika Kakeshita

Fornecedores
carpetes: Santa Mônica; cobertura: Telhas Perkron; cortinas: Hunter Douglas; elevadores: Thyssen Sûr; esquadrias: Teck Haus; luminárias: Ômega; mobiliário: Forma; piso vinílico: JNTradin'; mosaico de vidro: Vidrotil
"Todas as peças originais que estavam em estado razoável foram mantidas, passaram apenas por restauro. Em casos de vidros quebrados e pisos deteriorados a ordem foi substituir com peças iguais ou muito similares", explica a arquiteta Silvana Nigro, da Concrejato. A solução encontrada para reconstituir o piso de mosaico que cobria o andar térreo inteiro, mas com muitas partes quebradas ou desgastadas, foi mantê-lo apenas no átrio central. Por meio de um trabalho manual, todas as peças foram restauradas e depois sofreram um processo de rejunte integral. Algumas imperfeições foram mantidas como registro do desgaste do tempo. "A proposta de um restauro nunca foi deixar o objeto com cara de novo, mas resgatar as características originais e garantir a sua integridade física, protegendo o material empregado contra danos futuros", completa Silvana.

Além da responsabilidade de trabalhar com o paradoxo de reconstruir o passado construindo um futuro, Luiz Telles considera a integração do prédio com o entorno a característica mais marcante do projeto. "Um exemplar da arquitetura eclética que guarda muito da história da economia e dos costumes de São Paulo agora pertence à população. Com a criação do CCBB-SP, as portas de um edifício que sempre teve uso comercial estão sendo abertas para a cidade, e a intenção é que suas grandes entradas e janelas dialoguem com o Centro e colaborem para a renovação da área", declara.

S.O.S. São Paulo

Com o impulso da associação Viva o Centro, criada em 1991, a requalificação da área central de São Paulo entrou em pauta e, desde então, surgiram inúmeras iniciativas para reafirmar o local como pólo de desenvolvimento da metrópole. Algumas ainda estão no papel, mas muitas já foram realizadas e o cenário começa a mudar.

























































Projeto O que é Onde Quando
Complexo Cultural Júlio Prestes A reforma da antiga estação de trem e a construção da Sala São Paulo, idealizada pelo arquiteto Nelson Dupré, marcaram o início do renascimento cultural da área Praça Júlio Prestes, s/n Desde julho de 1999
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Antigo prédio
do DOPS
Em processo de restauração, o prédio passará a funcionar como Escola Superior de Música. A idéia da Secretaria da Cultura é seguir os moldes da escola Juillard, de Nova Iorque. Apenas as celas dos presos políticos da ditadura serão mantidas, como registro histórico Largo General Osório, entre as estações Luz e Júlio PrestesSem data definida
Memorial
da Língua Portuguesa
Parceria do governo do estado com a Fundação Roberto Marinho pretende instalar um espaço de preservação da língua portuguesa na parte superior da Estação da Luz. O acesso aos usuários do trem será feito por passagens subterrâneas Estação da Luz Sem data definida
Pólo cultural do Pátio do Colégio Com investimento da Petrobrás, a cripta do Pátio do Colégio e a Igreja Anchieta agora recebem espetáculos teatrais e musicais, sem prejuízo das atividades religiosas. O espaço também contará com biblioteca e museu Pátio do Colégio, com acesso do estacionamento pela rua Roberto Simonsen Desde março de 2001
Shopping Light O edifício Alexandre Mackenzie, antiga sede da Light and Power Company, agora abriga um shopping center. As instalações são modernas, mas a fachada e alguns aspectos do interior foram mantidos Rua Coronel Xavier de Toledo, 23 (ao lado do Viaduto do Chá) Desde novembro de 1999
Bar Brahma Tradicional reduto dos boêmios nas décadas de 40 e 50 o Bar Brahma reabriu suas portas. Agora tem café e boulervard que funcionam 24 horas, charutaria e música ao vivo todos os dias Esquina da Ipiranga com a São João Desde janeiro de 2001


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