Entre o pastiche e o moderno | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Entre o pastiche e o moderno

Texto extraído da pesquisa a ser publicada sobre Elisário Bahiana.

Catharina Gati
Edição 91 - Agosto/2000
O carioca Elisiário da Cunha Bahiana pertence àquela geração de arquitetos da virada do século XIX, pouco conhecidos ou estudados que, com suas obras art-nouveau, expressionistas ou art déco, calçaram o caminho sobre o qual puderam apoiar-se os arquitetos modernistas que os seguiram. Bahiana e seus contemporâneos realizaram uma arquitetura de transição ao abandonar os preceitos da Academia, buscando formas e linguagens que melhor refletissem a contemporaneidade. E impulsionaram o fazer arquitetônico em direção ao modernismo, seja pelo emprego das novas tecnologias - em particular o concreto armado para as estruturas - seja pela adoção de linguagens mais despojadas, com poucos ornatos, num retorno à verdade na arquitetura.
Elisiário da Cunha Bahiana está indissoluvelmente ligado a pelo menos três obras que tiveram participação importantíssima na construção da paisagem paulistana. São obras identificadas com a cidade e que mantêm até hoje, em linhas gerais, o aspecto original. Concebidas com estrutura racional em concreto armado, com elementos geometrizados e estilizados da moderna arquitetura art déco, elas foram executadas pela Sociedade Comercial e Construtora Ltda. O edifício Saldanha Marinho (projeto 1929 - sobre estrutura de Christiano Stockler das Neves, conclusão 1933), futura sede do Automóvel Club Paulista que, ao invés, abrigou a Cia. Paulista de Estradas de Ferro, foi tombado pelo Condephaat, em 1986. É um dos primeiros arranha-céus de São Paulo e exemplar dos mais destacados do estilo art déco. O Novo Viaduto do Chá (projeto 1934, conclusão 1938), um dos cartões postais da cidade, foi o vencedor de concurso público. A terceira obra é o edifício João Brícola/Mappin - (projeto 1936, conclusão 1939). Na categoria pode ser lembrado também o projeto original para o Hipódromo Paulistano, em Cidade Jardim (projeto 1937, conclusão 1941), conjunto que igualmente identifica um lugar da cidade. Embora a sede social, de início em personalíssima arquitetura art déco, tenha sofrido alterações, a implantação geral do Jockey Club, bem como o projeto das Arquibancadas com a cobertura em extraordinário balanço de 25 metros, estão de acordo com a concepção inicial de Bahiana, em projeto feito para a Sociedade Comercial e Construtora Ltda.

O art déco/Perret
Embora fosse natural do Rio de Janeiro, onde nasceu aos 4 de dezembro de
1891, e onde se formou engenheiro-arquiteto pela antiga Escola Nacional de
Belas Artes, em 1920, foi em São Paulo que Elisiário Bahiana realizou a parte maior e a mais significativa de sua extensa produção. Entre 1929 e 1941, foram sucessivamente erguidos os edifícios-marco mencionados, aos quais ele acrescentou outros projetos e obras até 1974, ano do último trabalho do qual se tem notícia (ele contava, então, com 83 anos).

A contribuição principal de Elisiário Bahiana foi difundir o uso racional da nova tecnologia do concreto armado para as estruturas, juntamente com o emprego de elementos formais do repertório art déco, que ele traz a São Paulo e ajuda a divulgar. Surgido ao lado de outros movimentos artísticos do período entre-guerras na Europa, de onde irradiou-se para outros continentes, o art déco intencionava desvincular-se dos ditames da Academia e expressar a nova modernidade caracterizada por grandes mudanças na tecnologia, na economia e na área social. Na arquitetura, sua característica principal foi a idéia de movimento, traduzida geralmente em decomposições prismáticas e escalonadas, ou terminações curvas à moda da arquitetura naval, que conferem ao edifício - visto agora como volume, em oposição ao fachadismo dominante até então - um caráter dinâmico.Também caracterizam o art déco os elementos decorativos, de inspiração fundamentalmente geométrica ou exótica.


No Brasil, a arquitetura art déco representou uma idéia de moderno dentro de
uma visão ingênua de modernidade. Ela teve boa aceitação em São Paulo nos
anos 30, época da verticalização da cidade, segundo Carlos Lemos, em entrevista de 1999. Em particular, para os edifícios institucionais e para os recém-implantados de habitação coletiva; possivelmente por dotar os primeiros de características de monumentalidade, e por representar, nos últimos, a modernidade. Já os projetos de residências para as classes mais altas conservaram-se dentro do ecletismo, ou em estilos históricos ou românticos. A produção de Elisiário Bahiana ilustra essas diferenças de opção em função da clientela, e resulta bem variada quanto às linguagens eleitas para cada caso. Apesar de ter concebido seus projetos mais notáveis em arquitetura genericamente denominada art déco, Bahiana não declarava formalmente sua filiação àquela manifestação, dizendo mesmo desconhecer o termo (Hugo Segawa, 1984). De fato, a designação art déco não era empregada então; toda obra que não fosse eclética, historicista ou neocolonial, e que se contrapusesse a estas, era alcunhada de "futurista". Por outro lado, ele deixava bem clara a intenção de conceber projetos "modernos, gênero Perret" - conforme suas próprias palavras quando do concurso de 1925 para o Estádio do Clube de Regatas do Flamengo, na Gávea, em que foi o 2º classificado (Segawa, 1984).

Na esteira de Perret, de quem também admirava as idéias - deve ter se inpirado nelas quando escreveu o artigo "As épocas e a arquitetura" em 1937 em que defende a modernidade sem rupturas com a tradição -, ao projetar edifícios com estruturas racionais em concreto armado e envoltório em moderno art déco, Bahiana atuou como um propulsor de mudanças. Discreto e sem fazer alarde de sua produção, foi um dentre aqueles que promoveram a transição do academicismo ao modernismo. Sua arquitetura representa para a época uma inovação "capaz de animar os espíritos mais progressistas a saírem da pasmaceira acadêmica dominante" (Nestor Goulart Reis em entrevista em março de 1999) , dotando a cidade de obras que contribuíram para dignificar e embelezar a cidade. Se, na França, Perret esteve no ponto de inflexão da "arquitetura pastiche para a arquitetura moderna" (Champigneulle, 1959), pode-se considerar que, entre nós, Elisiário Bahiana ocupou posição análoga.


Percurso
Elisiário Antonio da Cunha Bahiana tinha duas opções de carreira: ser oficial da Marinha, seguindo uma tradição familiar materna, ou dedicar-se ao projeto e construção de edificações, como parte da família paterna. Seu pai, Henrique Oscar da Cunha Bahiana, formou-se arquiteto pela Escola de Belas Artes de Paris, foi professor da Escola Nacional de Belas Artes, RJ, e teve quatro filhos, sendo Elisiário Antonio o primogênito. Pelo lado materno, era neto de almirante e ministro da Marinha. Ao optar pela Arquitetura, deu continuidade à atividade do lado paterno.

Bahiana - como ficou conhecido em São Paulo - ingressou no curso de engenheiro-arquiteto da Escola Nacional de Belas Artes aos dezessete anos. Em 1911, interrompe o curso e trabalha inicialmente para o primo de sua mãe, o oficial de marinha Elisiário Pereira Pinto, para quem projeta as 24 casas e o parque central - a Vila Montevidéu, no Flamengo. No ano seguinte, é contratado como desenhista da Diretoria de Obras Hidráulicas e Construções Civis do Arsenal da Marinha na Ilha das Cobras, onde permanece até 1916, quando é nomeado desenhista da Estrada de Ferro Itapura-Corumbá. No mesmo ano, casa-se com Aída de Castro, com quem viria a ter os filhos Vera Maria e Carlos Henrique, este também arquiteto. Volta aos estudos em 1918 (teve como colega de turma Lúcio Costa), e destaca-se nos três últimos anos do curso obtendo seguidamente a primeira classificação. Em 1920, forma-se engenheiro-arquiteto e recebe a Grande Medalha de Prata da Escola.

Entre 1920 e 1927, trabalha com Enoch da Rocha Lima, e com Mário dos Santos
Maia. Com este último, participa de concurso para a Exposição do Centenário
e realiza projetos, alguns publicados em revistas de arquitetura, mas o grande destaque de sua produção no período é o projeto, com Joseph Gire, para o edifício do jornal A Noite. Localizado na Praça Mauá, no Centro do Rio de Janeiro, o prédio constituiu-se no primeiro arranha-céu carioca em estrutura de concreto armado, disputando, com o Martinelli de São Paulo, o título de maior estrutura em concreto na América do Sul. O cálculo foi do engenheiro Emílio Baumgarten, o mesmo que viria a projetar, anos depois, a estrutura do Ministério da Educação e Saúde para Lúcio Costa e equipe. De 1927 a 1928, com Joseph Gire, realiza outros projetos e participa de concursos onde obtém, em quase todos, a segunda classificação.

Quando a empresa paulista Sociedade Comercial e Construtora Ltda. é contratada pela Administração Municipal do Rio de Janeiro para construir sua Escola Normal e abre uma filial naquela cidade, ela chama Bahiana para participar do projeto e da fiscalização da construção. Concluído o trabalho, Bahiana aceita o convite da Sociedade e, em 1930, transfere-se para São Paulo em caráter definitivo. Nessa cidade, participou inicialmente da reforma do Palácio dos Campos Elíseos, mas foi o projeto para o Edifício Saldanha Marinho que tornou seu nome conhecido. Concebido para sediar o Automóvel Club Paulista, o edifício teve as obras paralisadas, quando então se cogitou em transformá-lo em sede da Prefeitura de São Paulo. O assunto suscitou polêmicas e, graças às notícias veiculadas pelos jornais, divulgou o nome de Elisiário Bahiana. Fugindo ao estigma das segundas colocações nas competições de arquitetura Bahiana vence em 1934 o concurso promovido pela Prefeitura Municipal de São Paulo para o projeto do novo Viaduto do Chá. A obra, concluída em 1938, tornou-se referência/símbolo da cidade, assim como o Edifício João Brícola/Mappin (1937), situado na Praça Ramos de Azevedo, na cabeceira do Viaduto, também de sua autoria.


Em 1942, desfaz-se o vínculo com a Sociedade Comercial e Construtora. Após
tentativas frustradas de trabalhar por conta própria, Bahiana é convidado a juntar-se à Construtora Francisco W. de A. Santoro, depois Santoro & Alves Arquitetura e Engenharia, onde permanece até o fim de sua atividade profissional. Na empresa, voltada para obras pequenas, projetos ligados a amigos dos proprietários - casas para venda e indústrias - Bahiana não era empregado nem sócio. Ele orientava todas as obras e recebia uma porcentagem, mas nem todos os projetos eram seus.

O ano de 1942 marca também o início da atividade didática de Elisiário
Bahiana. Por 27 anos, de 1943 a 1970, quando se aposentou, foi professor do curso de Arquitetura da Escola de Engenharia, depois Faculdade de Arquitetura Mackenzie, nas disciplinas de Prática Profissional e Paisagismo.

Suas aulas de paisagismo versavam sobre jardins clássicos ingleses e franceses, cujo traçado ele pedia aos estudantes que examinassem e reproduzissem em desenhos a bico de pena. Nem todos os ex-alunos lembram do conteúdo de suas aulas. Todos lembram, porém, da figura elegante e miúda do professor; dos ternos de linho, camisa de seda e chapéu geralmente colocado torto na cabeça calva. E da incrível perícia de manter aceso entre os lábios um cigarro Cairo, muito forte, em fina piteira de bambu durante horas, enquanto falava. Sua maneira de lecionar era totalmente anticonvencional; nas aulas de paisagismo, rodeado por pequenos grupos de alunos, punha-se a pintar aquarelas com grande perícia mostrando os truques da técnica enquanto a cinza do cigarro caía e misturava-se à aquarela dando-lhe consistência de têmpera. Além do reconhecimento como exímio desenhista e aquarelista, muitos assinalam o grande conhecimento de Bahiana das técnicas de construção. Também teve uma rápida passagem pela FAU/USP no início dos anos 50.

Verdadeiro boêmio carioca, Bahiana conservou esses hábitos em São Paulo. O traço mais distinto de sua personalidade foi, sem sombra de dúvida, a irreverência. Bahiana utilizou a irreverência para criar ao redor de si um espaço de autonomia, de liberdade em relação aos convencionalismos. É lembrado como contador de casos picantes, galhofeiro, provocador. Outra faceta de sua personalidade: era numismata e filatelista fanático. Ele também foi um artista sensível, que deixou pinturas a óleo, aquarelas e inúmeros desenhos para os projetos - particularmente as perspectivas à mão livre - como testemunhos de seu talento.

Embora tenha sido conselheiro do CREA, 6a Região (São Paulo) entre 1946-49,
e novamente entre 1952-54, Bahiana viveu bastante isolado do ambiente profissional. Ele desenvolveu seu trabalho vinculado a grandes firmas construtoras - uma maneira de garantir independência, ainda que em condições econômicas modestas - sem se preocupar em colocar seu nome, ou sua obra, em evidência. Chegou a referir-se a si próprio como "desenhista de construtora".

Bahiana residiu até falecer, em 1980, à Praça Marechal Deodoro, no Edifício Carmen Lopes, prédio de 1928 com elementos art déco de sua autoria. Foi lembrado pelo jornal O Estado de S. Paulo por ocasião de sua morte.


Outros projetos
A lista dos projetos e obras de Elisiário Bahiana é extensa. Sua produção inicia em 1911, e o último projeto conhecido data de 1974. Ele fez projetos para residências, edifícios de apartamentos, túmulos, agências bancárias (Caixa Econômica, Banco Comind), clubes, estúdios radiofônicos. No Rio de Janeiro, além do Edifício A Noite, pode ser lembrado o projeto da Biblioteca Municipal, à Avenida Presidente Vargas, destruída por um incêndio nos anos 1980. Em São Paulo, além das grandes obras já citadas, devem ser mencionados os estúdios da Rádio Cultura, na Avenida São João (demolidos); o Edifício Pirapitanguy, no centro da cidade (demolido); o Edifício Carmen Lopes, à Praça Marechal Deodoro; o edifício do IPASE, hoje INSS, na rua Xavier de Toledo; ou ainda o edifício de apartamentos A. Prado, hoje Hotel Senador, à Rua Senador Feijó. Participou também de concursos na década de 1920: porta monumental e fonte luminosa para a Exposição do Centenário (1921); estádio do Clube de Regatas do Flamengo (1925); Pavilhão do Brasil na Exposição de Filadélfia (1926); arquivos, biblioteca e mapoteca do Itamaraty (1927); embaixada da Argentina (1928) - em todos eles, obteve o 2º lugar ; e Palácio do Governo do Estado de São Paulo (1928).


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