CAD na cabeça | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

CAD na cabeça

Edição 90 - Junho/2000
Regina Ruschel
é engenheira civil, doutora em engenharia elétrica e professora dos cursos de engenharia civil, arquitetura e urbanismo da faculdade de engenharia civil da Unicamp

Marcia de Freitas
é engenheira civil e mestranda da área de concentração de edificações no programa de pós-graduação da faculdade de engenharia civil da Unicamp

Pesquisa aponta perfil do estúdio digital
Com o intuito de caracterizar o estúdio digital de arquitetos, foi realizada entre junho e julho do ano passado, uma pesquisa entre arquitetos da região de Campinas-SP, levantando dados como equipamentos e softwares utilizados, forma de intercâmbio, arquivamento e entrega de projetos, utilização da internet e formas de aquisição de conhecimentos de informática. A pesquisa foi inspirada em levantamento semelhante realizado pela revista americana Cadence entre os membros do AIA (The American Institute of Architects). O contato com os profissionais ocorreu por meio de questionários enviados pelo correio tradicional e eletrônico. A pesquisa brasileira foi complementada por entrevistas pessoais nos escritórios dos arquitetos que se destacaram nas respostas aos questionários por diferenciais como o uso de softwares pouco utilizados, pensamentos antagônicos ao assunto tratado e a definição do processo de projeto.

A amostra - A pesquisa local revela o perfil do estúdio digital de escritórios de arquitetura de pequeno a médio porte, compostos por um a cinco arquitetos (97%) e por seis a dez arquitetos (3%). Do total dos escritórios pesquisados, 95% utilizam CAD (computer aided design) para desenho e projeto de arquitetura. Um resultado bem diferente daquele apresentado entre os membros do AIA em 1998, quando apenas 49% eram usuários de algum tipo de CAD. Aqui, entretanto, 58% dos escritórios participantes terceirizam, em parte, o desenvolvimento de desenhos em CAD. Entrevistas posteriores revelaram que essa terceirização, na maioria dos casos, se dá na etapa de desenvolvimento de projetos executivos estrutural, hidráulico e elétrico ou na elaboração da maquete virtual renderizada, na etapa de anteprojeto.

Equipamentos utilizados - Os equipamentos de informática que compõem o estúdio digital desses profissionais são: microcomputador PC (88%), impressora A4-A3 (90%), CD-ROM (67%), fax (60%), scanner (45%), câmera digital (15%), plotter (13%), mesa digitalizadora (8%) e outros equipamentos (8%, incluem zip drive, câmera comum e filmadora).

Quanto às ferramentas, 59% usam o AutoCAD da Autodesk. Outras ferramentas, como o 3D Studio, Corel Draw, Accurender e Corel PhotoPaint, servem mais para a renderização de fachadas e apresentações. Os fatores que afetam a escolha de um determinado pacote de CAD são: ampla aceitação (46%) e facilidade de uso (23%) que se dá, segundo alguns pesquisados, quando o produto torna-se uma linguagem comum entre profissionais envolvidos no processo de projeto e obra ou o uso do produto torna-se um "vício".

A experimentação de diferentes produtos de CAD não se mostrou muito usual dentro da amostra de profissionais pesquisados, pois apenas 24% dos pesquisados experimentaram pacotes de CAD diferentes daqueles que utilizam hoje. Poucos aventuram-se a trocar de ferramentas de CAD e, quando mudam (46%), optam pela influência da ampla aceitação do pacote substituto. Fatores menos fortes que motivam uma mudança de ferramenta são a curiosidade por experimentar um novo produto ou um produto mais completo.

O cliente - A proporção entre os clientes que exigem e não exigem o projeto em formato digital é de 54% e 46%, mostrando que o cliente tem expresso um desejo ou até uma necessidade de obter uma versão digital do projeto. Aqui, mais uma vez, as entrevistas individuais nos escritórios complementaram essa questão, demonstrando que os projetos em formato digital fornecidos a empresas, órgãos públicos (se executados em AutoCAD, no formato DWG) e a clientes pessoas físicas são fornecidos em papel e no formato LPT (formato digital específico para impressão).


Aquisição do conhecimento - Entre os profissionais pesquisados, usuários de informática, 53% adquiriram esse conhecimento por meio de cursos especializados. Uma pequena porcentagem (5%) de profissionais adquiriu o conhecimento em informática na formação universitária. Isso revela que a formação acadêmica em computação dada a arquitetos é recente. Trinta e sete por cento dos profissionais indicaram ter aprendido informática por intermédio de assessoria particular ou de colegas, em estudos individuais por autodidatismo, em livros técnicos e manuais dos softwares.

O arquivamento - O papel deixou de ser a principal forma de arquivamento de projetos, passando a ser utilizado em menor escala. Mais da metade dos escritórios pesquisados (67%) adota a forma mista de arquivamento, mesclando arquivos digitais e desenhos em papel. Apenas 24% dos escritórios aboliram o arquivo em forma de papel e partiram para arquivamento no formato digital exclusivo. Apesar desses dados indicarem o crescente uso de arquivos digitais, 59% dos profissionais pesquisados não desejam fazer uma transição para arquivos digitais como única forma de arquivamento de projetos, comprovando que a adoção do sistema misto parece a solução que mais transmite segurança.

O intercâmbio de projeto - Apesar do grande número de usuários da rede mundial de informações, as entrevistas individuais nos escritórios de arquitetura mostraram que o uso de internet visa ao marketing ou à visibilidade da empresa, além da pesquisa de especificação de produtos. Apenas 11% dos pesquisados dizem utilizar a internet para divulgar etapas de projeto para acesso de clientes ou contratantes.

O meio de intercâmbio de projetos entre membros da equipe ou clientes é, na maioria, realizado por meio de disquetes de três polegadas e meia, de zip drives ou CD-ROMs (47%) ou por e-mail (39%), existindo ainda uma parcela que utiliza formas tradicionais como o papel comum ou vegetal, heliográficas e maquetes.

O futuro - Quando indagados sobre o futuro da computação na arquitetura, 89% dos pesquisados responderam que a computação será imprescindível para as atividades de projeto. Vários fatores foram apontados como motivadores dessa visão: rapidez, eficiência, precisão e maior domínio sobre o desenho proporcionam melhor visualização para o cliente, permitem conexões mais eficientes entre os diversos profissionais e agregam um ganho de produtividade.


Por outro lado, alguns profissionais esperam se adaptar, sem perder a liberdade de traçar idéias à mão livre na velocidade do pensamento, além de usar o computador para auxiliar na visualização e geração de volumetrias. Outros acham que a computação ajuda a diminuir a estrutura dos escritórios, enxugando espaço e pessoal.

Trocando informações - Para colocar à disposição os dados obtidos pela pesquisa e divulgar temas relacionados ao assunto, criou-se o site ARQ@Net na rede. Nesse site, encontram-se links para outros sites dessa área (instituições de ensino, associações, publicações etc.), uma classificação de produtos existentes no mercado, descrições de equipamentos usados e links para educação à distância.

Está vinculada também ao ARQ@Net uma lista de discussão eletrônica, onde os profissionais cadastrados conversam sobre temas como maquete eletrônica versus maquete digital e vantagens e desvantagens de ferramentas computacionais. O objetivo do ARQ@Net é aproximar os profissionais de arquitetura, usuários de ferramentas computacionais, e possibilitar acesso aos recursos para suprir necessidades diárias.

Considerações finais - O uso do AutoCAD puro (i.é, sem um add-on específico para arquitetura) é dominante, o que pode estar impedindo uma completa satisfação ou gerando expectativas de mudança nos produtos utilizados entre os profissionais pesquisados, uma vez que o AutoCAD é uma ferramenta básica, na origem desenvolvida para engenheiros mecânicos. O grau de satisfação poderia melhorar. A expectativa de melhora do produto poderia, em parte, ser atendida de imediato, se os profissionais utilizassem ferramentas existentes no mercado, específicas para arquitetos. Falta ao escritório expandir a utilização da internet, por exemplo, derrubando paredes físicas e se transformando em escritório virtual, desenvolvendo projetos de forma colaborativa utilizando recursos da rede.


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