Volta a luz | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Volta a luz

José Odilon Homem de Mello
Edição 89 - Abril/2000
Patrimônio
Restauração
Secretaria
Palco da fundação da cidade de São Paulo, o Pátio do Colégio passou por várias transformações: a primeira capela foi demolida para dar lugar à construção de um complexo de prédios que, mais tarde, também iria ao chão, cedendo espaço a uma nova igreja. De todas as construções originais restaram apenas os dois edifícios que abrigam hoje a Secretaria da Defesa da Cidadania. Símbolos do início da carreira do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo em São Paulo, que abriu escritório em São Paulo em 1886, os prédios se encontravam deteriorados e passaram, em 1999, por uma reforma. O trabalho, no entanto, só estará completo com a restauração, que deverá acontecer tão logo haja verba.
A escolha dos responsáveis pelo projeto de recuperação foi feita por meio de concorrência pública, ganha pelo escritório Borelli & Merigo. A proposta de tornar os imóveis mais funcionais "foi feita como uma adequação para se utilizar o prédio com toda a tecnologia que se tem disponível hoje. O prédio estava num processo de deterioração muito profundo e possuía problemas com instalações", comenta Hercules Merigo.
O primeiro edifício, inaugurado em 9 de março de 1891, foi construído para ser a Tesouraria da Fazenda que, com a República, passou a chamar-se Delegacia Fiscal do Tesouro Federal. Na época, Ramos contou com a ajuda do amigo e arquiteto alemão, Maximiliano Hehl para executar o projeto. O segundo, erguido cerca de cinco anos depois, seria a sede da Secretaria da Agricultura. O terceiro pavimento que se avista hoje em cada um dos imóveis só foi construído depois, o que explica os frontões incorporados à edificação.
Segundo Marcos de Oliveira Costa, arquiteto que integra a equipe do escritório Borelli & Merigo, uma das preocupações foi liberar espaços. "Mexemos no layout e no mobiliário. Havia muitas divisórias atrapalhando", diz. O tamanho dos cômodos mostra que o prédio tem uma conceituação bastante avançada para a época mas que estava subaproveitada. "Os grandes salões estavam ilhados. Hoje o prédio tem uma leitura muito mais simples." Costa explica ainda que a iluminação foi modificada, mantendo apenas os lustres e as luminárias que eram originais. Os banheiros passaram por reformas e a pintura só foi mexida onde não existiam desenhos. O forro foi refeito com os devidos cuidados, assim como a cobertura, que teve a parte de apoio revista.
Um dos destaques da reforma está na estrutura metálica que fazia o fechamento dos pátios internos. Na forma original, montada com vidro aramado, acabava isolando os andares superiores. Existia ainda uma grade para proteger o vidro dos objetos que eram atirados de outros prédios. O local acabou se transformando num depósito de lixo. Com a mudança, a estrutura foi mantida sem vidros e, no lugar da antiga grade, colocou-se uma estrutura com vidro laminado, que permite a entrada de luz e impede a passagem de calor. Além do resultado estético e da iluminação, os andares passaram a se integrar. "O prédio voltou a ter luz depois da reforma. Ficou mais alegre, mais vistoso", diz o arquiteto Costa.
Outra mudança importante foi a desobstrução das fachadas. "Existiam mais de oitenta aparelhos de ar-condicionado nas paredes e os respiros ficavam aparentes na parte externa do prédio. Tudo foi removido, deixando a fachada sem obstáculos", conta o diretor do centro de engenharia da Secretaria da Defesa da Cidadania, Eduardo Lebrão. O auditório, com capacidade para cento e cinqüenta pessoas, foi remodelado com modernas instalações para promover espetáculos e palestras. O piso de taco recebeu verniz e, devido à necessidade acústica, o forro foi renovado. Para isolar o barulho que vinha de cima foi usada fibra mineral.
A prospecção e toda a avaliação necessária para iniciar o restauro foram executadas e se sabe, por exemplo, que os caixilhos são de pinho-de-riga. Essa madeira barata e fácil de encontrar no final do século passado, hoje, vale uma fortuna. Elementos, como pisos e portas, não foram arrancados e lava
dos como acontece em um restauro. A opção foi fazer uma pintura para proteger. No futuro, se for o caso, as peças serão substituídas de acordo com o projeto original. Há ainda um fato que dificultará recuperar todos os elementos com fidelidade. Naquela época, era muito comum o autor, ou mesmo o mestre-de-obras, modificar o projeto inicial durante a obra. O acabamento era todo definido durante a execução com a ajuda de um pintor-decorador e os materiais não vinham especificados nos projetos. No entanto, esses detalhes serão solucionados com prazer quando houver dinheiro para efetuar o restauro.
Prédio da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo
passa por reforma e está pronto para o restauro
LUCIANA BENVENGO
ficha técnica:
centro de engenharia da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo: Eduardo Lebrão Pires Ferreira, Daniel Mello Fernandes de Castro e Carmen Emiko Shotoko Fonseca; Arquitetura: Borelli & Merigo: José Borelli Neto, Hercules Merigo, Marcos de Oliveira Costa, Marisa Harumi Yamaguchi, Fábio Helfstein Vieira da Costa, Guilherme Rodrigues Vianna, Tiago Simões Borelli; execução: L. Annunziata; prospecções pictóricas: Júlio Moraes; acústica e sonorização:


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