Um século de construção | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Um século de construção

ANA LUIZA NOBRE
Edição 88 - Fevereiro/2000
Carmen Velasco Portinho nasceu em Corumbá, Mato Grosso, em 1903. No final daquela década, quando desembarcou com a família no Rio de Janeiro, a Avenida Central reluzia e o sonho coletivo era transformar a cidade numa Paris dos Trópicos. E aquilo deve ter atraído os olhos muito vivos da menina Carmen, a dinâmica da capital à beira-mar onde se vivenciavam as transformações técnicas e sociais introduzidas pela vida moderna. Toda a ação de Carmen Portinho em território carioca constituiu uma resposta a esse apelo, pela implantação do moderno entre nós, que ela tomou para si como uma empreitada. Com a firme determinação dos construtores, Carmen se dispôs a concretizar um projeto de amplitude nacional que se delineava em várias frentes, não sem dilemas e contradições.
Carmen Portinho foi a terceira mulher a graduar-se em engenharia no Brasil. Ao concluir o curso de Engenharia na Escola Politécnica, em 1926, as profissões de engenheiro e arquiteto sequer eram regulamentadas no país e, claro, nenhuma atividade intelectual ou política era fácil às mulheres. Mas, nem por isso, ela arrefeceu. Embora as ofertas de trabalho fossem limitadas, o reconhecimento por tamanha dedicação e ousadia não tardou. No dia seguinte à formatura, por iniciativa do próprio prefeito Alaor Prata, Carmen Portinho tornava-se a primeira engenheira do corpo técnico da prefeitura do Distrito Federal.

Pedregulho
E foi na prefeitura, à frente do DHP, Departamento de Habitação Popular (cuja direção exerceu durante treze anos, a partir de 1947), que Carmen desenvolveu o conjunto habitacional Prefeito Mendes de Moraes, o Pedregulho, traçado por Affonso Eduardo Reidy, companheiro e parceiro dela por três décadas.
O Pedregulho foi idealizado por Carmen Portinho no sentido de realizar a integração da moradia aos serviços e espaços destinados à vida comunitária, considerando todos os fatores que, na primeira metade do século, implicaram em mudanças substanciais nas relações entre a família, a sociedade e o papel da mulher. Escolas, creches, ambulatório, mercado, lavanderia e conjunto esportivo foram concebidos como componentes indissociáveis de um conjunto habitacional balizado por pressupostos da arquitetura moderna, condizentes com o movimento internacional de emancipação feminina, desencadeado antes da década de dez. O interesse por essa obra advém do fato de representar aqueles ideais, conjugados em termos que não negam a correspondência com as Unidades de Habitação projetadas por Le Corbusier em algumas cidades da França e Alemanha mas não encontram paralelo nem precedentes em nenhuma outra obra edificada no Brasil.
Na visão reformista da diretora do DHP, a habitação era "um serviço de utilidade pública, com a principal função de reeducar o operário brasileiro, que deveria estar incluído entre os serviços obrigatórios que o governo deve oferecer, como água, luz, gás, esgoto etc". Tal atitude se inseria num projeto mais amplo de construção de uma nova sociedade para a qual, entre outras coisas, se previa um novo modo de morar, condicionado à revisão de um conjunto de valores considerados ultrapassados, entre esses o culto secular à dita "vocação natural" da mulher para a maternidade e as tarefas domésticas. Redefinir a posição da mulher na sociedade e romper a clausura do lar, esses eram os ideais feministas por trás do conceito de habitação defendida por Carmen Portinho.
Em 1942, Carmen escreveu um artigo que saiu na Revista Municipal de Engenharia, também editada sob coordenação dela. "O homem civilizado do século vinte perdeu o contato com o problema da habitação, enquanto o homem primitivo sempre procurou construir um abrigo com toda a simplicidade, sem pretensão, sem ênfase e sem falsidade. O Homo sapiens do século vinte vive em habitações mal projetadas, do ponto de vista técnico e econômico, construídas em desacordo com a escala humana, de nível sanitário inferior, sem ar, sem luz, sem vista e, quase sempre, atulhadas de móveis incômodos, imensos e i
núteis. Habitações que fizeram da mulher uma escrava doméstica, sempre preocupada com a limpeza e conservação, onde o luxo, num desperdício chocante, substitui o conforto. Parece-nos que já é tempo de oferecer a esse homem da era maquinista uma habitação digna, uma máquina de habitar, bem equipada e organizada, que possa restituir essa coisa inestimável, hoje quase perdida, que é a liberdade individual. Vamos construir o abrigo do homem como se constrói um automóvel ou um vagão da estrada de ferro em que ele viaja. Vamos adaptar a habitação à economia moderna".

Outra Brasília
A experiência da construção dos conjuntos do DHP (Pedregulho, Marquês de São Vicente, Paquetá e Vila Isabel, os dois últimos projetados por Francisco Bologna) se deve ao interesse pessoal de Carmen por uma matéria recém-introduzida nos currículos brasileiros - o urbanismo. Com a tese intitulada Anteprojeto para a Futura Capital do Brasil no Planalto Central, defendida na Universidade do Distrito Federal, Carmen se transforma na primeira mulher a receber o título de urbanista no Brasil, ainda nos anos trinta. Se a idéia da transferência da capital não era nova, ainda faltavam dois decênios para a implantação efetiva no Planalto Central e Carmen Portinho já se debruçava sobre a proposta, tratando de fazer as conexões às novas teses urbanísticas de Le Corbusier e às concepções preconizadas, a partir de 1928, nos CIAMs ou os congressos internacionais de arquitetura moderna: organização da área residencial em unidades de habitação; separação de funções (no caso, com a prevalência do centro de negócios sobre o centro administrativo) e ênfase no equacionamento do sistema viário.
Segundo Carmen, tratava-se de desenhar a capital "de um país novo e de grandes possibilidades", a qual, a fim de satisfazer as necessidades do homem moderno, não poderia tomar como exemplo as cidades construídas nos séculos anteriores. Nenhuma dessas cidades correspondia, segundo ela, às quatro funções do urbanismo - habitação, transporte, trabalho e recreio. Posto isso, escreveu, "nada mais nos restava a fazer senão abandonar todos os padrões antigos de traçados de cidades - que só servem para ilustrar os clássicos livros de urbanismo - todas as tentativas fracassadas de remodelação desses traçados e procurar a solução do nosso problema na aplicação de estudos feitos para a cidade dos tempos modernos".
A engenheira-urbanista assumiu a direção do MAM carioca em 1951, quando o museu acumulava alguns anos de luta pela sobrevivência. A nova diretoria - que incluía Raymundo de Castro Maya como presidente, Niomar Moniz Sodré, Salazar Ribeiro, San Thiago Dantas e Walter Moreira Salles - conquistou novo fôlego para o museu que, depois de ocupar os edifícios do Banco Boavista e do Ministério da Educação, ganharia sede própria em área ainda por ser aterrada ao longo da Avenida Beira-Mar.
O projeto de Reidy - de início concebido em estrutura metálica - começou a sair do papel em 1954. Única mulher no imenso canteiro por onde circulavam, todos os dias, 450 operários, Carmen controlava todas as decisões relativas à obra - da administração de interesses políticos e pressões de todos os lados, à coordenação dos trabalhos; do projeto à execução; das fundações à compra dos materiais. Isso exigia uma dedicação total. Carmen Portinho tinha a noção exata da missão que encampara na empreitada do museu, o qual, embora fosse particular, integrava o quadro das transformações urbanas idealizadas pela prefeitura do Rio. Na incorporação desse sentido cívico, onde outros se faziam notar como representantes de empresas particulares ou pelas ambições políticas, Carmen não era mais - nem menos - do que uma funcionária pública.
Figura ágil e segura de si, Carmen soube reunir a nata da engenharia carioca - Odair Grillo, Carlos Nelson de Oliveira Góes e Jorge Mendes de Oliveira Castro - que acabou por oferecer amparo no controle da obra; Arthur Jermann respondeu pelo cálculo estrutural; Fernando Lobo Carneiro
assinou os ensaios de dosagem do concreto; Fuad Kanan Matta responsabilizou-se pela Companhia Construtora Nacional. O desafio era enorme. Havia o ineditismo da estrutura em pórticos do bloco de exposições, cujas dimensões possibilitaram o atirantamento da laje intermediária na viga-mestra. Até então não se conhecia, no Brasil, concreto assim tão seco (onze sacos de cimento por metro cúbico, quando o usual eram sete). E não havia experiência, tanto por parte dos operários quanto dos engenheiros, em obras arquitetônicas desse porte, em concreto aparente.
Além de supervisionar a obra, Carmen Portinho avançava pelo terreno ainda quase intocado das artes plásticas, consciente do papel que representava no alargamento do circuito da arte local. No conjunto de espaços e personagens que constituem o campo artístico, ela representava, na virada dos anos cinqüenta, o olhar da própria instituição legitimadora da arte moderna na capital. Carmen realizou inúmeras exposições de arte e arquitetura brasileiras, contribuindo para a divulgação, aqui e no exterior, da obra de artistas, como Ivan Serpa, Fayga Ostrower, Arthur Luiz Piza - todos jovens ligados à arte abstrata - e arquitetos, como Oscar Niemeyer, Alcides Rocha Miranda, Jorge Moreira e, claro, Affonso Eduardo Reidy.

Do MAM à Esdi
Foi no MAM que começou a germinar a semente do primeiro curso de graduação em design no Brasil, a ser conduzido por Carmen Portinho por mais de duas décadas: a Esdi, Escola Superior de Desenho Industrial, espécie de unidade de excelência autônoma instalada no coração da boêmia carioca. A questão da relação entre a arte e a sociedade industrial havia sido alardeada, nos anos vinte e trinta, por Walter Gropius na Bauhaus mas tomava novo fôlego com a criação da chamada Escola de Ulm, na Alemanha, no início dos anos cinqüenta. E foi essa a matriz da escola carioca, cujo currículo básico seguiu o padrão da escola alemã.
Para o jornalista Zuenir Ventura, que integrou o corpo docente da Esdi nos anos sessenta, "a escola foi para o desenho industrial o que a bossa nova foi para a música; o Arena para o teatro; o Cinema Novo para o cinema e Brasília para a arquitetura. Foi matriz - se reproduziu e fez cabeças" (Jornal do Brasil, 15 de maio de 1994). Tanto que, por mais que as estruturas tenham sido abaladas, a escola dirigida por Carmen Portinho de fato se afirmou como um território de experimentação, onde não faltaram conflitos.
Carmen Portinho ingressou na Esdi em 1967, como sucessora de Maurício Roberto e Flávio de Aquino na direção da escola. A gestão dela, que se estendeu até o final dos anos oitenta, foi atingida por inúmeros problemas e impasses, a começar pelo confronto de forças de 1968, o qual culminou com uma assembléia geral que reuniu todo o corpo docente e discente num longo e penoso processo de autoquestionamento que substituiu as atividades didáticas por catorze meses. Depois vieram as manobras pelo reconhecimento do curso, o recrudescimento das discussões sobre a delimitação do campo profissional, a própria conceituação de design e a terminologia relacionada ao exercício da profissão. E, pouco depois, a ameaça de despejo e a incorporação da escola pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que pôs em xeque a autonomia do curso e a permanência na vizinhança dos Arcos da Lapa.
Em nenhum momento, a aparente fragilidade de Carmen deixou de contrastar com um vigor incomum ante as dificuldades inerentes a toda a construção. Ainda que sob fogo cruzado, Carmen soube manter a Esdi na agenda cultural da cidade - além de movimentar a escola com palestrantes, como Umberto Eco, Pierre Cardin, além do arquiteto italiano autor de projetos para várias lojas da cadeia La Rinascente, Vittorio Gregotti. E foi na gestão dela que se realizou o polêmico "banquete do consumo" na Primeira Bienal Internacional de Desenho Industrial no MAM, que colocava em discussão a relação entre produção e consumo e o seminário O Artista e a Iconografia de Massa, organizado po
r Frederico Moraes. Vibrante e incansável, Carmen Portinho alicerçou o design no Brasil com a mesma disposição que não lhe faltou na consolidação da arquitetura moderna em nosso meio. E é com igual energia que hoje, aos 97 anos, segue recebendo sorridente tantas homenagens.
Aos 97 anos, a engenheira e urbanista Carmen Portinho ganha uma biografia que relembra os tempos heróicos de quem lutou pelo MAM carioca, pelo design e por causas feministas
AU leituras
Casas para o Povo, dissertação de mestrado de Lauro Cavalcanti, Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, 1987
Design no Brasil: Origens e Instalação, Lucia Niemeyer, Rio de Janeiro, 2AB, 1998
Esdi: Biografia de uma Idéia, Pedro Luiz Pereira, Rio de Janeiro, Eduerj, 1996
Revista Municipal de Engenharia, índice completo e os artigos mais recentes no site: www.rj.gov.br/smo


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