Um mestreainda aprendiz | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Um mestre ainda aprendiz

TEXTO: JOSÉ WOLF
Edição 84 - Junho/1999
ACÁCIO GIL BORSOI
Carioca de Engenho Velho, neto de imigrantes italianos de Treviso, na região dos Alpes, é filho caçula de Inayá Pinheiro e Antonio Borsoi, arquiteto-desenhista e decorador formado no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. A convivência com o pai, autor de projetos de reformas e interiores, como a Confeitaria Colombo, Palácio da Guanabara e Cinema Íris, no Rio, desperta no adolescente, em longo aprendizado, a paixão pelo ofício, a experimentação e o detalhamento. O "fazer, fazendo" associado ao conhecimento vai apurando o domínio sobre a obra e a construção, a aplicação de novos mate-riais e sistemas construtivos tão caros ao arquiteto. "Para realizar alguma coisa, deve-se ter domínio do que se propõe a fazer e de que forma fazer. Michelangelo, quando fez a cúpula da Basílica de São Pedro, estava lá para executá-la, sabia como colocar cada pedra. Isso é ofício, fruto do conhecimento. Ser um bom arquiteto implica conhecimento da composição e da construção."
Ex-aluno do colégio dos Irmãos Maristas, no Rio, hesita entre a arquitetura e a avia-ção, uma paixão da adolescência. Diploma-se em 49 pela Faculdade Nacional de Arquitetura, que funcionava no mesmo prédio da Escola de Belas Artes, no Rio. "Foi durante a minha turma que a Belas Artes se transformou em Faculdade de Arquitetura. E, por incrível que pareça, fui o único a ser contra, pois não me identificava tanto com a linha, formalista. O que me fascina, não é a forma, mas a escala." Borsoi relembra que o primeiro exercício na escola foi projetar um restaurante à beira da estrada, com colunas em estilo dórico. "O professor, no entanto, não gostou do lustre que desenhei, alegando ser em estilo império! Fiz uma miscelânea, pois estava naquela fase de querer mudar tudo."
Antes de se formar, já mantinha um pequeno escritório com Almir Gadelha e Artur Coelho e chegou a trabalhar com Alcides da Rocha Miranda e Afonso Reidy. "Na verdade, sou de uma geração de transição, do pós-guerra, que se seguiu à era dos grandes pioneiros." Adquire o primeiro carro: um Citroën. "Foi quando comecei a ficar independente; era minha irmã mais velha, Bela, quem pagava meus estudos. "A princípio, pretendia viajar e estudar na Europa. Mas incentivado pelo professor de Arquitetura Analítica, Lucas Mayerhofer, que voltava do Recife, onde havia participado de uma banca examinadora, acaba aceitando o convite para lecionar "Pequenas e Grandes Composições de Arquitetura", na Escola das Belas Artes de Pernambuco. "Todo mundo foi contra, até Niemeyer, a quem consultei, reagiu: 'Borsoi, o que você vai fazer em Pernambuco?' Mas, decidi vir."

CABEÇAS FEITAS
Chega em 51. Chega para ficar, criando raízes. Em 59, assume, como catedrático, a cadeira de "Composições de Arquitetura", na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco e, em Recife, casa-se (pela segunda vez) com a arquiteta e artista plástica Janete Costa, com quem convive até hoje e a quem atribui a mudança em seu modo de viver e pensar.
A partir da Universidade e da atividade profissional, influencia várias gerações de arquitetos do Nordeste, para uma arquitetura vinculada à problemática regional, legitimada pela consciência crítica. Entre tantos alunos, Armando de Holanda, Vital Pessoa de Melo, Arthur Lício Pontual, Vera Pires e Alexandre Castro e Silva. "As cabeças feitas por Borsoi e a sua obra construída, tanto em Pernambuco, como em outros Estados do Nordeste, são uma contribuição cuja dimensão é dificilmente mensurável", registra o crítico Geraldo Gomes da Silva.
Um professor sensível, segundo relatam ex-alunos, retraído e com dificuldade de se expressar em público, mas com sensibilidade, paciência, possuidor de um "talento transformador", habilidade e domínio sobre o desenho e a composição incomuns, capaz de ficar horas a fio no ateliê detalhando algum projeto. Alguém avesso ao dogmatismo, aberto às mudanças. "O compromisso do arquiteto é com o futuro. E o mundo se abriu. Quem estacio-na, acaba vendo tudo menor. Afinal, a
vida é dinâmica."
"Muito bem informado sobre tudo o que se passa no mundo da arquitetura, Borsoi - observa ainda Geraldo Gomes - tem a extraordinária capacidade de verter, para as condições locais, o que assimila das mais diversas expressões arquitetô-nicas, com um carinho especial para os detalhes construtivos, tudo a serviço de uma expressão individual ímpar."

ALQUIMIA DA CRIAÇÃO
Apaixonado pela arquitetura e o ofício, não se limita às atividades docentes, que considerava circunstanciais, mas que se prolongam por 28 anos. "Não sou professor, sou um arquiteto brasileiro, do 3o Mundo, que vive do dia-a-dia. Portanto, a minha sobrevivência depende de meu trabalho", explica. Faz de cada projeto um laboratório, um desafio experimental. Com perfeição de alquimista, consegue transformar o container num abrigo ou a bandeira de uma porta antiga em janela ou vitral, como o fez em sua casa de Olinda-PE, antigo casarão reformado por ele e Janete. "A arquitetura, em sua essência, desde os tempos remotos até nossos dias, é a mesma. O que muda são as necessidades, as técnicas", comenta.
O projeto Cajueiro Seco, protótipo de habitação básica com pré-moldados de taipa, que desenvolve em 62 para o governo Miguel Arraes, exemplifica a linha investigativa que o norteia. "Como observa Sérgio Bernardes, quando a gente se envolve num trabalho, não sabe como vai terminar. O projeto é um ato contínuo, em ebulição. Mas, não basta a obra. Conforme ensinava Lucio Costa, arquitetura é construção com intenção, capaz de emocionar. Sem isso, temos simplesmente construção."
A pedido de Rodrigo Melo Franco, o engenheiro Ayrton Carvalho, representante do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no Nordeste, convida Borsoi para ajudá-lo e providencia uma sala nas dependências do próprio Sphan, onde o arquiteto monta o primeiro escritório. Aos poucos surgem as demandas. Primeiro, as residências de amigos, depois, as obras públicas, como o Pronto-Socorro de Recife, e edifícios que vão pontuando a paisagem urbana do Recife, incluindo o Califórnia, o Santo Antônio e o Mirage. "Os primeiros projetos estavam muito ligados à arquitetura de Niemeyer, os pilotis, a leveza das formas. Contudo, minha preocupação principal não era com os pilotis em V, mas com a proporção entre as partes e o todo. A questão da harmonia, do princípio, meio e fim."

ASCENSÃO
A trajetória profissional se desenha em três fases ascendentes e complementares. A primeira cobre sua formação na ex-capital federal até o início dos anos 60, quando inicia o momento marcado por um "processo de aculturação", o da releitura ou "revisão" dos princípios oficiais. Segue-se a fase da instalação de seu escritório e, finalmente, o período que coincide com a volta ao Rio, onde constrói sua nova casa.
A atuação inicial no Recife reflete o ajuste gradual dos princípios modernistas e do sonho, à realidade de um Nordeste marcado por contrastes violentos, num quadro de vitalidade, carências sociais e econômicas, agravado por turbulências políticas. A tradição moderna e racionalista passa, então, por um "processo de revisão" por intermédio do regional e do artesanal. O repertório "formalista" e ortodoxo cede lugar a uma proposta arquitetônica mais livre, menos dogmática e acadêmica, em que sobressai a intervenção construtiva do autor no contato direto com o canteiro, monitorando cada etapa da obra, emergindo daí um discurso arquitetônico em comunicação aberta com o usuário, a cidade, a memória, a mão-de-obra e a cultura local. Alguns construtores e engenheiros, como Lourival Sales Parente e Ariel Valmaggia, vão se tornando parceiros das principais obras.
Borsoi participa ativamente da luta dos arquitetos pela conquista do desenho urbano. Em lugar dos edifícios alinhados na "rua corredor" de tradição européia, com fachadas bidimensionais, quer o prédio solto, isolado, ventilado, como volume integral, personalizado. As reivindicações são incorporadas na legislação urbana local.
À sem
elhança de tantos intelectuais, acaba preso, em 64. Havia participado de uma missão de arquitetos do IAB em visita a Cuba e foi taxado de marxista. "Na verdade, minha geração viveu dois momentos de exceção - o Estado Novo e 64. Apesar de viver momentos difíceis de transição, como a passagem de uma formação clássica para uma visão de cunho racionalista, acredito que os momentos de liberdade são justamente os mais fecundos para a criação", defende. Sensível à condição humana, não esconde as dúvidas que cercam o homem contemporâneo. "Vejo o futuro com esperança, depende de meu estado de angústia. Mas, não abro mão da fantasia. Para alguns, pode ser Deus, para outros, a esperança", confessa.
Em 68, abre o escritório Borsoi Arquitetos Associados, que chega a contar com uma equipe de 30 profissionais. A produção se desenvolve, basicamente, em três frentes: edifícios comerciais, residenciais e administrativos. Sobressaem nos projetos a bem dosada luz, volumes e superfícies, a presença de varandas salientes e janelas em relevo como recurso de proteção à insolação e ventos fortes, a composição hierarquizada - o embasamento, o corpo e o coroamento - , a volumetria dinâmica marcada por recortes, silhuetas e cavidades, que funcionam como elementos de conforto climático, beleza plástica e ornamentação. A trilogia de edifícios - Debret, Rembrand e Maria Juliana - é a tradução mais que perfeita dessa filosofia.
Destaque especial merecem as obras públicas, segmento em que Borsoi se revela mestre. Edifícios, como o da Secretaria da Fazenda, em Fortaleza, Ceará, a Assembléia Legislativa e o Fórum de Teresina, no Piauí, o Centro Administrativo de Uberlândia, MG, assumem nitidamente um caráter celebrativo, monumental. Monumental não no sentido de poder, mas de inserção num contexto, presença ou imagem de uma composição na paisagem urbana e natural, em que elementos construtivos, estéticos e funcionais se completam, na busca do sentido da permanência, da beleza e emoção. No Fórum de Teresina, a presença de pórticos sombrea-dos, imprimindo ritmo e harmonia ao conjunto, garante a força da composição.
Aos poucos, novos valores se incorporam à produção, como design, arquitetura de interiores e paisagismo. Quem visita Recife e outras capitais do Nordeste, pode perceber a seqüência de edifícios de autoria do escritório; ela mantém um padrão estético e construtivo de expressiva identificação.
Os projetos de residências abrem outro filão rico para a pesquisa de tipologias e soluções diferenciadas. Com sensibilidade, Borsoi procura a resposta mais adequada para cada caso, por meio de uma solução pontual, individualizada, que melhor traduza "o sonho" e as necessidades do cliente. Conforme dizia a seus alunos, uma casa mal projetada pode destruir uma família. A residência Cassiano Ribeiro Coutinho, em João Pessoa, PB, com espaços generosos, fluentes, rampas de circulação, elementos vazados para garantir transparência, iluminação e ventilação naturais, além do paisagismo de Burle Marx, constitui exemplo clássico. A lamentar a alteração, com o tempo, do projeto original.

Presença no mundo
De volta ao Rio, nos anos 80, constrói a própria casa, síntese de sua trajetória, em que assume o papel de cliente. Ao comentar o projeto, um amigo se espanta: "Que coragem, construir uma casa nessa idade?" Com humor, Borsoi replica: "Enquanto estiver vivo, hei de construir outras". E continua a construir...
Capa do livro "Casas latino-americanas", editado pela GG, em 94, a residência do Rio - um patamar para o olhar - está implantada num dos penedos de Dois Irmãos, no Rio, de frente para o mar, "surgindo no solo inclinado da encosta como uma árvore". Na construção, basicamente em concreto, utilizou sistema de fôrmas racionalizadas e chapas de compensado resinado de 12 mm, como se fosse um jogo de armar. "Mas, o projeto que mais me emociona, ainda, é o Fórum de Teresina, no Piauí, ele foi todo desenhado à mão, cada peça, cada detalhe, feito uma montagem, com siste
mas de ventilação e iluminação naturais. É, sem dúvida, um belo exemplo de arquitetura bioclimática."
As produções mais recentes - o ateliê Burle Marx, a Casa de Pernambuco, no Porto, Portugal, ou a capela da Universidade Santa Úrsula, no Rio -, confirmam a vocação do arquiteto mutante que, ao lado de um Lucio, Niemeyer, Reidy, Paulo Mendes ou Severiano Porto, entre tantos arautos, constrói um momento da história da arquitetura brasileira do século XX. "Amanhã? Vejo uma mudança de direção. Ao contrário de outras épocas em que a cidade era o ponto convergente, atualmente, há um processo inverso. Com a Internet, não é necessário mais viver numa grande cidade para se comunicar e sentir a presença do mundo."
Acácio Gil Borsoi constitui um capítulo à parte na história da arquitetura moderna brasileira desta segunda metade do século. As circunstâncias, a militância profissional, o exercício de cidadania e seu "espírito inovador e humanista" acabaram assegurando-lhe o papel de condotiere de um processo gerador de uma identidade arquitetônica peculiar, embora afinada com os princípios modernos.
Ao chegar ao Recife, nos anos 50, ele abre uma trilha, com ressonâncias e ramificações por todo o Nordeste. Yves Bruand afirma, em "Arquitetura Contemporânea no Brasil" que a "renovação da arquitetura em Recife é relativamente recente se for deixada de lado a atuação de Luis Nunes (nos anos 30). De fato, ela ocorre apenas depois de 1950 e deve-se ao estabelecimento, na capital pernambucana, de dois jovens arquitetos, um vindo do Rio, outro de Portugal: Acácio Gil Borsoi e Delfim Amorim". Cada um, seguindo a própria sensibilidade, experiência e bagagem culturais, projeta residências, edifícios unifamiliares ou administrativos, que são referenciais do habitat nordestino.
No caso de Borsoi, a escala se amplia, adquirindo contornos pessoais, históricos e culturais específicos. Aos poucos, tece sua linguagem fortemente atrelada ao legado moderno brasileiro, via "escola carioca", mas re-interpretada a partir das condições climáticas e da tradição cultural do lugar, em que a luz e a sombra fazem parte essencial da composição. Uma linguagem intimamente vinculada à pesquisa e à construção.
Referências:
1. "Arquitetura Contemporânea no Brasil", Yves Bruand, 1981
2. "Marcos da Arquitetura Moderna em Pernambuco", Geraldo Gomes da Silva, "Arquiteturas no Brasil/Anos 80", Projeto, 1988
3. "A continuidade do moderno em Per-nambuco", M. A. Borsoi, revista Projeto, nº 114, 1988
4. Depoimentos à AU
LEGENDAS: MARCO ANTONIO BORSOI


Destaques da Loja Pini
Aplicativos