Debate: painéis de vedação | aU - Arquitetura e Urbanismo

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Debate: painéis de vedação

POR TATIANE MOURADIAN
Edição 258 - Setembro/2015

DEBATE

Caminho sem volta

Uso está cada vez mais disseminado, mas ainda carece de conhecimento de base

Foto: Marcelo Scandaroli Foto: Marcelo Scandaroli Foto: Marcelo Scandaroli
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Foto: Marcelo Scandaroli Foto: Marcelo Scandaroli Foto: Marcelo Scandaroli
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1 ANDERSON ORTIZ, coordenador de produtos da Isoeste
2 ANDRE ROSSI, gerente de vendas da Gypsum
3 BRUNO WILSON PEREIRA DA SILVA, arquiteto da Oficina Coletiva Arquitetos
4 TADEU GONSALEZ, diretor comercial da região sudeste da DânicaZipco
5 THAÍS HELENA MARTINETTI, engenheira de novos produtos da Infibra
6 THIAGO DORLHAC KASCHNY, coordenador de mercado e produto da Brasilit

A utilização de vedações internas e externas com painéis pré-fabricados é uma tendência com potencial de crescimento?
TADEU GONSALEZ O advento da construção modular no Brasil é algo que não tem volta. Hoje o setor busca algo que seja mais econômico, rápido e limpo. Nesse conceito você efetivamente não depende tanto da mão de obra, que está cara e improdutiva.
ANDERSON ORTIZ Acho que a construção a seco tem um potencial muito grande para se desenvolver, principalmente com os materiais que imitam a natureza, sem contar que é um mercado que está em franca ebulição. A questão do retorno mais rápido do capital investido também é beneficiada.

Os segmentos industrial e comercial, nesse caso, largam na frente? Qual mais adota essas soluções e qual menos as utiliza, e por quê?
BRUNO WILSON PEREIRA DA SILVA Sim. Eu vejo que temos muitas e boas opções no segmento industrial, mas no residencial é algo só para quem pode investir em larga escala mesmo, como no programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
THAÍS HELENA MARTINETTI No segmento residencial o pessoal se prende muito a técnicas de décadas, então a barreira é mais difícil de romper. A indústria já tem uma visão melhor dessas novas tecnologias. Quebrar esses preconceitos seria um dos primeiros passos para conseguirmos difundir o conceito. Isso já melhorou muito. Se falássemos de construção industrializada há dez anos, quase ninguém conhecia o assunto no mercado habitacional. Hoje já temos casas do MCMV utilizando placas cimentícias, painéis de gesso acartonado e outras tecnologias prontas.

Por que o sistema ainda não é tão difundido no Brasil quanto em outros países?
BRUNO Um dos fatores é o preconceito que as pessoas têm de que construção tem de ser de concreto, tijolo. Por exemplo, elas ainda têm medo de colocar um quadro em uma placa de gesso acartonado, ficam receosas com a questão acústica, porque acham que ela vai deixar vazar o som. Acredito que por experiências feitas de forma errada no passado. A adoção dos fechamentos prontos na nossa arquitetura veio com certo atraso. No Chile, por exemplo, que está aqui ao lado, eles já trabalham com uma gama de materiais muito maior do que a gente. É importante o arquiteto reforçar o uso do pré-fabricado, seu papel nessa questão é fundamental.
TADEU Fora do Brasil o painel é usado como elemento estrutural, enquanto aqui ainda é só um elemento de vedação, mas isso é algo que está começando a mudar. Nos Estados Unidos, o uso é difundido mesmo na construção residencial. Existem painéis de madeira que já compõem a estrutura da casa, em substituição ao tijolo que aqui ainda é bem tradicional. A questão do painel estrutural tem muito que ser aprendida aqui. Não existe nenhuma norma brasileira para a utilização do painel externo como elemento estrutural. É algo que ainda tem de que ser criado e cada player está fazendo um trabalho individual para poder levar isso ao mercado.
THIAGO DORLHAC KASCHNY Acredito que seja um problema que começa na base. As universidades não têm muitas matérias que incentivem e ensinem aos arquitetos como projetar com sistemas industrializados. São faculdades que ainda focam muito no concreto, no aço, na construção tradicional. Existe então uma falta de firmeza de saber projetar com esses sistemas. Os profissionais passam a ter de contratar consultoria, profissionais especializados e isso, muitas vezes, acaba se tornando um impeditivo.

Como é suprida essa falta de conhecimento na base?
BRUNO Por não ter tido esse suporte na faculdade, contamos muito com experiência dos fornecedores no auxílio ao projeto. Precisamos constantemente dessa ajuda. O especificador vai até a obra e praticamente dá uma aula.
THAÍS E os engenheiros e arquitetos estão muito abertos a essas novas tecnologias. Eles têm interesse, querem conhecer os produtos, buscam informações. Às vezes, os profissionais abrem o projeto e não conseguem enxergar as soluções. E quando levamos as alternativas e discutimos em conjunto a troca costuma ser bastante rica.

E com relação aos painéis em oriented stand board (OSB)? Como está a adoção e por que não se disseminam tanto quanto os outros?
THAÍS Já temos edificações construídas com esses painéis no mercado. São usados no light steel frame em conjunto com fechamentos com placas cimentícias. Até acredito que a tecnologia está bem evoluída. No Sul é um sistema mais disseminado, mas subindo acredito que os consumidores ainda têm medo de utilizar porque têm a sensação de que o material dá cupim, pega fogo com facilidade e por infinitas questões que acabam dificultando um pouco o uso. Mas já existem tratamentos para impedir que as placas se deteriorem.

O Brasil tem avançado em termos de tecnologia ou estamos atrasados?
TADEU Eu acho que não falta tecnologia, estamos bem atendidos. Os fabricantes estão com equipamentos muito modernos e avançados na produção deste tipo de material. O que falta realmente é uma maior divulgação, um trabalho mais forte dos arquitetos na especificação dessas alternativas.
ANDRE ROSSI Uma grande preocupação do grupo hoje é oferecer para o mercado uma solução construtiva inteira pronta, não somente alguns componentes, e o cliente já está comprando isso. O problema é que as obras precisam estar preparadas para receber toda essa tecnologia embarcada.
BRUNO Acredito que a questão não é criar novos materiais, mas melhorar os já existentes. Criar soluções mais eficientes e sustentáveis.
ANDERSON Aí caímos naquele dilema que é burocrático. Se eu lançar um produto inovador, que é novidade para todos, vou ter de comprovar seu desempenho. E esse é um processo que demanda muito tempo.

Por quê?
THAÍS Perde-se muito tempo com documentações e ensaios. Há muitos entraves para entrar no mercado com um sistema industrializado. A construção convencional não demanda produtos certificados, ao contrário da industrializada. Temos de comprovar que nossa tecnologia tem um bom desempenho, mas esse processo é moroso. Até conseguirmos todos os ensaios para certificar o produto, ele não é mais novidade no mercado. Sem contar com as dificuldades para criar normas técnicas, que chega a demorar anos. É uma tecnologia com potencial para resolver o déficit habitacional no Brasil, como acontece em vários países no mundo, mas enfrentamos muitos entraves.

Há algum ponto que precisa ser melhorado em relação às normas técnicas e que acaba sendo um entrave para uma adoção maior do sistema?
TADEU Não existe nenhuma norma no Brasil sobre a utilização de painéis leves de vedação externa como elementos estruturais. É algo que tem de ser proposto à ABNT. Mas cada fabricante está fazendo um trabalho individual para poder levar isso ao mercado.

Quais são os principais cuidados a serem tomados em projetos com painéis de vedação?
THIAGO Toda aplicação deve ser feita da melhor forma possível para que não ocorra como no passado, quando usavam o gesso acartonado sem lãs absorventes no núcleo e se ouvia o barulho entre as divisórias. Todos os sistemas têm suas particularidades, mas a correta especificação e instalação é que vai garantir a aceitação e disseminação no mercado. Outro cuidado é que o pré-fabricado exige uma exatidão em milímetros, enquanto na alvenaria, quando as paredes estão fora do prumo, é possível acertá-las depois, na massa. Então qualquer erro na medida compromete o uso do sistema, que é muito mais sensível e não tem muita tolerância pra arremates.


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