Universidade de Cornell: rigor e técnica na melhor escola de graduação em arquitetura dos Estados Unidos | aU - Arquitetura e Urbanismo

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Universidade de Cornell: rigor e técnica na melhor escola de graduação em arquitetura dos Estados Unidos

Por Gabriel Kogan
Edição 247 - Outubro/2014

A fama da Universidade de Cornell, no Estado de Nova York, Estados Unidos, é paradoxal. Por um lado, integra o seleto grupo Ivy League, que reúne as oito melhores universidades norte-americanas da Costa Oeste, ao lado de instituições como Harvard, Princeton e Yale. Por outro, ficou conhecida na última década pelos suicídios entre alunos, amplamente noticiados pela mídia.

Mesmo que as estatísticas desmintam a posição de liderança da Cornell nesse triste ranking, os meios dos suicídios foram tão espetaculares no começo do século 21 que a universidade não conseguiu abafar os casos. Estudantes despencavam de pontes sobre desfiladeiros que circundam a bela paisagem do campus, aos olhos de todos.

Estudar em Cornell ou em qualquer outra da Ivy League é um privilégio hoje conferido a menos de 0,3% da população norte-americana entre 20 e 29 anos. Estar por lá significa ter o melhor da educação no mundo, e assim obter os melhores resultados. A busca por resultados é incansável e a pressão sobre os jovens recém-saídos da adolescência, imensa. O nome Cornell pesa.

Essa obstinação pela perfeição faz também do campus um dos lugares mais fascinantes para estudos no mundo. A mesma busca pela excelência construiu a fama da Cornell como sede da "melhor escola de graduação em arquitetura dos Estados Unidos".

Professores costumam se queixar que alunos pedem incansavelmente por mais trabalhos e rigor, não importa quantos projetos e pesquisas sejam requisitados. Do outro lado, os estudantes dizem não dormir, pensando nos projetos ou fazendo suas atividades. "Convencionou-se dessa forma. É assim que as coisas funcionam aqui, não dormimos", explicam duas jovens estudantes do primeiro ano da faculdade, sem nenhum tipo de lamentação, enquanto caminham pela rua do campus.

Compenetração
Em oposição às faculdades de arquitetura que buscam oferecer uma vivência urbana intensa para seus alunos - ver, por exemplo, a Escola da Cidade (AU 239) -, a Cornell é um lugar isolado, propício para total compenetração. O campus, ao lado de um minúsculo vilarejo de 30 mil habitantes, oferece distrações mínimas para os estudos.

E que não haja qualquer ilusão sobre a localização de Cornell dentro do estado de Nova York: Manhattan está a mais de 4 horas de ônibus e os estudantes têm pouca relação com a metrópole, indo para lá, geralmente, menos de uma vez por semestre.

"Estamos centralmente isolados", gosta de brincar o diretor da faculdade e professor de estruturas, Mark Cruvellier. As cidades de Toronto, Montreal, Boston e Washington ficam também na mesma distância de Ithaca do que Nova York.

A universidade foi fundada em 1865 em um sítio conhecido pelas belezas naturais, a poucos quilômetros de um dos Finger Lakes - conjunto de 11 lagos formado pelo desgelo de água que esculpe a macia rocha local. O campus se desenvolveu entre dois vales profundos por onde correm pequenos rios; os famosos desfiladeiros nos quais os alunos fazem suas peregrinações suicidas.

Pontes permitem a conexão do campus com a cidade, do outro lado das gargantas. Para evitar espetaculares suicídios nesse lugar, a faculdade revestiu todas as pontes com grades, que acabam por mediar a bela vista para a paisagem, enquanto se percorre o breve trajeto entre a cidade e o campus. As temperaturas no inverno chegam a -30ºC, transformando o pacato lugar em um ambiente inóspito para qualquer convívio externo.

Para vencer o isolamento imposto pela localização do campus e como esperança no inverno, a faculdade de arquitetura tem postos avançados em cidades como Roma ou na própria metrópole de Nova York. Alunos fazem semestres inteiros nesses lugares. Em Roma, ficam hospedados em um palazzo do século 16, em um dos melhores lugares da capital italiana, e viajam para quase 30 cidades do país, conhecendo a arquitetura barroca e renascentista. Os temas são amplos e divertidos, como projetar uma biblioteca inspirada na obra de Dante Alighieri. Há também aulas de fotografia, teoria e história, que usam Roma como tema.

Além disso, viagens de estudos de aproximadamente um mês são programadas com cuidado, incluindo destinos como São Paulo, onde, em 2012, alunos fizeram o projeto de um cemitério vertical na rua da Consolação, supervisionado por Jim Williamson.

Longa história
As origens do curso de arquitetura em Cornell datam de 1871 e importantes arquitetos passaram seu tempo por lá. Peter Eisenman se formou na turma de 1955; Richard Meier saiu no ano seguinte; e Nathaniel Owings (do escritório Skidmore, Owings, & Merrill, SOM, autor de edifícios como o Lever House) graduou-se em 1927.

A excelência e a tradição têm seu custo: 45 mil dólares por ano, além das despesas básicas de vida. Nos Estados Unidos, as caras universidades são geralmente financiadas por empréstimos - a juros baixíssimos - a serem pagos ao longo da vida profissional dos graduados. Como o salário do arquiteto é baixo mesmo por lá, se comparado com outras profissões sobretudo ligadas às ciências exatas, amortizar essa dívida é um processo mais difícil e incerto. Estudantes intercambistas brasileiros do Ciência Sem Fronteiras estão por todas as partes no campus, mas ainda não marcaram sua presença na faculdade de arquitetura.

Não apenas a excelência das aulas justifica o alto custo do curso, mas também a infraestrutura impecável. Não há desculpas para trabalhos mal feitos. Todos os computadores são de último tipo e um novo edifício projetado pelo OMA de Rem Koolhaas e inaugurado em final de 2011 ofereceu espaços inigualáveis para os pouco mais de 400 estudantes.

 

Os trabalhos prezam mais por conceitos inovadores e bem justificados do que propriamente estratégias exequíveis na prática

 

A marca de Koolhaas
O novo prédio, batizado de Milstein Hall, tem 4,4 mil m², sendo 2,3 mil m² para novos estúdios de projeto, e custou nada menos do que 36,7 milhões de dólares. A estrutura metálica suporta grandes balanços de 15 m, que se projetam sobre espaços adjacentes e, por dentro, oferece espaços abertos e versáteis, sem significativas interferências de pilares para disposição das mesas de trabalho.

No térreo, o prédio passa por cima de uma rua, onde se configurou um ponto de ônibus coberto, "o maior do mundo", como ironizam professores e estudantes. Além disso, há por lá janelas que se abrem para o novo auditório, todo de vidro e protegido por cortinas desenhadas pelo Inside Outside de Petra Blaisse, parceira frequente do OMA e representante da Holanda na Bienal de Veneza de 2012.

A estratégia de fazer um auditório que abre e fecha remete a outros projetos de Koolhaas como Kunsthal em Rotterdam. Esse espaço para palestras tem projetores de última geração e cadeiras especialmente desenhadas pelo OMA. Trata-se de um grande hall para receber as palestras de arquitetos do mundo inteiro, que animam o semestre letivo.

Já o andar dos estúdios é acolhedor para os estudantes. O espaço é completamente aberto e a separação das diferentes atividades acontece por divisórias baixas, de aproximadamente 1,3 m de altura, que não interrompem visualmente o lugar, nem bloqueiam a luz vinda das janelas piso-teto. Essas fachadas de vidro expõem a enorme treliça metálica, revelando certo desejo pela verdade estrutural na obra de Koolhaas.

 

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