Capela de Santana do Pé-do-morro, de Éolo Maia e Jô Vasconcellos | aU - Arquitetura e Urbanismo

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Capela de Santana do Pé-do-morro, de Éolo Maia e Jô Vasconcellos

por Bruno Santa Cecília
Edição 247 - Outubro/2014

ESTRUTURA METÁLICA NA CAPELA RURAL
Perto da cidade mineira de Ouro Branco há diversas fazendas do período colonial, a maioria do século 18. Ali, às margens da histórica Estrada Real, que ligava Diamantina ao litoral carioca, a Fazenda Pé do Morro servia de estalagem aos viajantes. A Capela de Santana está implantada junto à antiga sede da fazenda e às ruínas remanescentes de uma antiga construção de pedra.

Embora a autoria da Capela tenha sido historicamente atribuída apenas a Éolo Maia, a participação de Jô Vasconcellos nas discussões do projeto autorizam a inclusão de seu nome. À habilidade projetual de Éolo, Jô agregou a matriz conceitual que pressupunha a clara diferenciação entre elementos novos e antigos - na Capela, isso aparece na manutenção da integridade do elemento histórico, do uso de materiais contemporâneos e da autonomia formal dos novos elementos.

A Capela reedita a tipologia miesiana do pavilhão de aço e vidro, adaptando-a ao uso religioso. A estratégia parte da criação de um invólucro construtivamente simples, a permitir que as ruínas se mantenham como o elemento mais importante do espaço, passando a compor o altar-mor. Formadas por três espessas paredes que preservam a técnica edilícia da construção de barro e pedra, as ruínas foram envolvidas por uma estrutura de aço, vidro e madeira.

Ao tornar visíveis os procedimentos construtivos, o edifício adquire caráter didático e autorreferencial, com um desenho que reconhece as qualidades plásticas e os aspectos tectônicos da estrutura de aço. O aço utilizado, o corten, possui cobre em sua composição e pode prescindir de acabamento superficial quando aplicado em atmosferas pouco severas, como o ambiente rural. A formação de uma camada de pátina (derivada do processo inicial de oxidação e inibidora do processo corrosivo) confere a textura e a cor terrosa, o que aproxima cromaticamente os elementos de fechamento e estrutura.

Compõem o esqueleto estrutural elementos portantes metálicos verticais e horizontais; pilares, vigas e vergas. Os pilares transmitem as cargas verticais às fundações e auxiliam na marcação do ritmo compositivo. As vigas comparecem no sentido transversal, sustentando os elementos da cobertura e, no sentido longitudinal, realizam o arremate superior do edifício. As vergas metálicas inferiores auxiliam na fixação dos elementos de vedação e na definição do embasamento, além de concorrerem para combater as deformações da estrutura no plano horizontal.

Os perfis metálicos são enrijecidos a partir da conformação a frio de chapas planas, procedimento corrente para a confecção de estruturas metálicas leves. As peças foram unidas no processo de soldadura por eletrofusão. Ainda que a utilização desse sistema enfraqueça as qualidades tectônicas do edifício, sua escolha é justificada: o peso próprio e dimensões reduzidas das peças estruturais dispensam a necessidade de ligações aparafusadas, e a própria forma fechada dos perfis-caixa dificulta essas conexões.

Salvo as fundações, piso e embasamento, o edifício foi concebido para ser montado seco. Nas vedações externas foram utilizados vidro, madeira e pedra. Os planos de vidro são montados com ferragens metálicas de padrão comercial, fixadas nas vergas metálicas inferiores ou encaixilhados nos painéis de madeira. O espaço vertical entre as vigas-baldrame periféricas e as vergas metálicas inferiores é revestido com pedras de minério de ferro assentadas com barro. Os painéis de madeira são fixados com um quadro do mesmo material que, aparafusado nos elementos metálicos, percorre todo o perímetro interno do vão estrutural.

A leveza visual da Capela vem da solução que preserva a ossatura metálica aparente conjugada com a transparência das vedações. Apenas o embasamento possui aspecto mais sólido a cumprir função de assentar visualmente o edifício no terreno.

Éolo Maia ainda é bastante associado à arquitetura pós-moderna, da qual foi um dos principais representantes no Brasil. A Capela é um ponto de inflexão na sua obra e um de seus projetos mais inventivos. Seu reconhecimento definitivo veio com o tombamento do edifício (2002) pelo Instituto Estadual do patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG).

Bruno Santa Cecília é arquiteto e urbanista, mestre e doutorando pela EA-UFMG. Sócio titular do escritório Arquitetos Associados e professor nos cursos de arquitetura e urbanismo da UFMG e da Universidade Fumec. Autor dos livros Architectural guide Brazil (DOM Publishers, 2013) e Éolo Maia: complexidade e contradição na arquitetura brasiliera (Editora UFMG, 2006


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