Solano Benítez conta como funciona o Taller E, estúdio de práticas em arquitetura da Universidade Nacional de Assunção (FDAUNA) | aU - Arquitetura e Urbanismo

Entrevista

Solano Benítez

Solano Benítez conta como funciona o Taller E, estúdio de práticas em arquitetura da Universidade Nacional de Assunção (FDAUNA)

Por: Marcos de Sousa Foto: Lauro Rocha
Edição 247 - Outubro/2014
 

Foto: Lauro Rocha

A ascensão recente da arquitetura paraguaia ao cenário internacional, com prêmios, exposições e publicações em livros e revistas especializadas, carrega a marca de um experimento de educação e pesquisa desenvolvido na Faculdade de Arquitetura, Design e Arte da Universidade Nacional de Assunção (FDAUNA). Trata-se do Taller E, o mais recente estúdio de projetos e o quinto na grade horária da faculdade. A proposta - inédita pela abordagem multidisciplinar - congrega alunos, professores e jovens arquitetos recém-formados, além de artistas, historiadores, antropólogos e outros especialistas. O Taller E nasceu há cinco anos pelas mãos de um grupo de arquitetos-professores, entre eles Javier Corvalán, Luis Alberto Elgue e Solano Benítez, um dos mais conhecidos arquitetos paraguaios (AU 185 trouxe um especial com suas obras).

Em agosto de 2014, Benítez recebeu a equipe de AU em seu escritório-estúdio-laboratório, que fica no subsolo da residência de sua família, em um espaço transformado em local de trabalho com a marca do arquiteto: muitas invenções com tijolos cerâmicos. A entrevista foi completada em setembro, em uma conversa via Skype: a equipe de AU de volta à São Paulo e o arquiteto em Bangalore, na Índia, onde estava para proferir uma palestra. Nesta conversa, Solano Benítez fala um pouco sobre sua formação na mesma universidade em que hoje é realizado o estúdio e explica porque e como foi criado o Taller E: um espaço para criar um conhecimento novo, capaz de dar conta dos desafios do habitat construído.

O que é exatamente o Taller E?
É um dos estúdios que integra o curso de arquitetura da faculdade. Foi uma oportunidade de reunir pessoas de distintos lugares, com formações diferentes para fazer algo novo. Conseguimos atrair competências de mestres, como o nosso diretor Juan Jose Giangrecco, uma das principais autoridades paraguaias no ensino da arquitetura, e um grande profissional. Reunimos colegas como o Javier Corvalán, que fez sua formação na Universidade Católica de Assunção, uma das escolas de grande estatura no país. Corvalán estudou restauro em Veneza e depois trabalhou com o arquiteto Pablo Capeletti, que o considerava seu herdeiro. Contamos, ainda, com a participação de Sergio Ruggeri, que fez o doutorado na Universidade IUAV, de Veneza. Destaque também para José Cubilla e Luis Elgue, dois arquitetos e professores formados na FDAUNA. Elgue, ainda quando estudante, era considerado "um fotógrafo do futuro", por conta dos desenhos incríveis que fazia. Além disso, estudou arquitetura social na Espanha e trouxe essa experiência para nosso grupo. Da nova geração, temos o arquiteto Sergio Fannego, um profissional incrível, que traz a experiência do mestrado na Universidade de Barcelona.

Todos os alunos podem participar?
Sim, é um espaço aberto a estudantes de todos os semestres, porque nunca sabemos de antemão quem poderá ou não ter maior capacidade de trabalho. Com o passar do tempo, vamos identificando talentos e então cuidamos daqueles que têm maior capacidade de comunicar e de se construir. Nosso objetivo é estimular a pesquisa, a invenção. Hoje os conhecimentos podem ser adquiridos por qualquer pessoa que consulte a internet. Assim, a arquitetura é um território de conhecimento ao alcance de todos, e isso pode ser reproduzido com relativa facilidade. Mas, em nossa visão, o mundo ainda tem que ser completado, e essa é a função do profissional: fazer as coisas de maneira inaugural. Procuramos passar aos estudantes a ideia de que a nossa função não é simplesmente reproduzir conhecimento, mas renovar a arquitetura e estendê-la a mais gente. É isso que exigimos no trabalho pedagógico e que isso siga para toda a vida. Também buscamos formar os formadores, aumentar sua autoestima, e tentar fazer com que sejam capazes de enfrentar dificuldades, aprender fazendo. Esse trabalho permite que jovens dos últimos anos e recém-formados assumam a direção de algumas atividades, o que implica que estudem mais, preparem aulas, proponham exercícios e se formem como profissionais e professores.

A iniciativa de criá-lo foi sua? E por que você o fez?
Eu me formei na Universidade Nacional de Assunção em 1986, quando ainda vivíamos sob ditadura. Lembro-me que naquele tempo ninguém era reprovado porque o governo queria mostrar resultados e, em certo momento, o curso de arquitetura chegou a ter três vezes mais alunos do que permitia a estrutura da faculdade. Se estávamos mal em alguma matéria, o coordenador do curso nos chamava em particular, perguntava o que estava acontecendo e oferecia ajuda para "resolver o problema com o professor". Quando alguém questionava essa negociação, como eu fiz, era logo acusado de comunista, subversivo. Os profissionais que terminavam o curso nesse período se beneficiaram dos "eletrodólares" gerados pela hidrelétrica de Itaipu e que fizeram muita gente enriquecer. As construções geradas, salvo raras exceções, eram marcadas por um certo exibicionismo pós-moderno, coisa de novo rico. E a universidade, em certa medida, refletia essa cultura. Até hoje, a estrutura da universidade ainda é muito marcada por esse passado. Eles são preparados para custodiar e transmitir o conhecimento, mas não para criar. E não porque não tenham capacidade, mas porque aceitaram e se acostumaram a essa limitação. A nossa geração conseguiu romper parcialmente essa inércia, mas ainda sofremos pressões.

 

Foto: Lauro Rocha
Estudantes em prática no Taller E, estúdio da Universidade Nacional de Assunção aberto a alunos de todos os semestres, com o objetivo de pensar a arquitetura a partir da invenção e do estimulo à pesquisa

 

Que tipo de pressões?
Como não há uma hierarquia e por ser um trabalho criativo, aberto, o Taller E ainda incomoda a estrutura da faculdade. Eu mesmo, porque já havia conquistado certo prestígio internacional, fui convidado para trabalhar na universidade por três vezes. E fui expulso nas três vezes, e da última vez, em 2006, de uma forma muito grosseira. Em uma universidade profissionalista, há professores cujo único mérito é permanecer e permanecer. E, infelizmente, a hierarquia universitária se constrói em cima dessa repetição. A pior coisa que pode acontecer numa estrutura desse tipo é colocar aí pessoas que estejam trabalhando em pesquisa. No trabalho de pesquisa, a estatura da pessoa é dada pelas descobertas que faz e não pelos anos passados dentro da universidade. A hierarquia desaparece.

 

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