Edifício residencial de pequeno porte assinado por José Cubilla & Associados insere-se delicadamente na paisagem horizontal de Assunção | aU - Arquitetura e Urbanismo

Residencial

José Cubilla&Associados.Assunção,Paraguai. 2012/14

Edifício residencial de pequeno porte assinado por José Cubilla & Associados insere-se delicadamente na paisagem horizontal de Assunção

Por: Marcos de Sousa Fotos: Lauro Rocha
Edição 247 - Outubro/2014

A calle San Francisco, em Assunção, Paraguai, é uma rua residencial, calma, ocupada por generosas casas em meio a grandes pátios. A paisagem é marcada pela densa arborização, especialmente ipês rosa, roxo e amarelo. Ali, alguns poucos edifícios mais altos começam a marcar presença e quebrar a horizontalidade, sinal inequívoco das pressões do mercado imobiliário. A cidade ainda está muito longe da cacofonia de torres que caracteriza as capitais brasileiras. E talvez possa ficar assim, a julgar pelo cuidado com que os arquitetos locais inserem suas obras na paisagem.

Foi ali que o arquiteto José Cubilla implantou o Edifício São Francisco, obra realizada conforme as demandas estritas de um cliente, mas repleta de inovações de desenho e construção. A mais evidente é a enorme grelha que recobre parcialmente a fachada principal, voltada para o oeste. "Originalmente, pretendia concentrar os ambientes de serviço para a rua e voltar a fachada para os fundos do lote, onde há um belo jardim; mas naquele momento não tínhamos como prever o que poderia acontecer nos terrenos vizinhos e, por isso, preferimos deixar a fachada aberta para a rua", explica José Cubilla.

A solução foi proteger a fachada principal com essa grelha-brise construída com alvenaria de tijolos cerâmicos maciços. "Foi feita como uma simples parede vazada, diretamente apoiada no solo e presa à estrutura principal com amarrações metálicas. Antes de desenhá-la fiz algumas experiências e consultei o mestre de obras, que aconselhou alguns ajustes, até chegarmos ao desenho final", explica. Vista da rua, parece feita de elementos pré-fabricados, tal é a qualidade do processo construtivo. Essa pele cerâmica protege as áreas íntimas dos apartamentos contra o excesso de radiação solar, mas permite a passagem de luz filtrada e também das generosas golfadas de ar fresco que sopram sobre a cidade todas as tardes.

São apenas quatro apartamentos, com 200 m² cada, todos dotados de varandas construídas em concreto aparente. Elas conectam a ampla sala de estar ao ambiente externo e funcionam como elemento compositivo da fachada, em contraponto à cor vermelha dos elementos cerâmicos. Nas varandas também estão as infalíveis churrasqueiras, presença obrigatória nos lares paraguaios.

Os tons avermelhados da cerâmica e o cinza do cimento são predominantes na construção, que buscou uma fórmula minimalista no uso dos materiais: pisos, tetos e revestimentos de áreas úmidas foram feitos com técnicas simples, à base de cimento.

"Austeridade é uma palavra que vai bem para nossos tempos e por isso a opção por soluções econômicas, com materiais e mão de obra locais, que reduzem os tempos de transporte e alimentam a economia local", explica Cubilla. Portas são de madeira nativa do Paraguai, ou construídas com uma técnica singular: alvenaria montada sobre caixilhos de aço. Resultam daí portas secretas, que funcionam como saídas de emergência ou barreiras contra o fogo, aprovadas pelo corpo de bombeiros local.

O acesso a partir do térreo é feito por um elevador, exigência do cliente para permitir o ingresso de pessoas com limitações de mobilidade. O equipamento foi instalado em um vazio central na edificação, espaço que permite a comunicação e a ventilação internas. Em cada pavimento, o elevador se abre para uma ponte de concreto que permite a travessia do vazio e o ingresso nos apartamentos. Um atalho para a saída são as tais portas secretas, que se abrem das áreas de serviço diretamente ao hall dos elevadores.

José Cubilla lembra que a legislação municipal também exigia um reservatório de pelo menos 30 mil litros de água de incêndio. O problema foi resolvido com a invenção de uma piscina-tanque, que comporta 33 mil litros, disposta no topo do prédio, em balanço, ao lado do reservatório de água potável.

Lá do alto pode-se avistar a paisagem da cidade até o rio Paraguai. Alguns metros abaixo, com acesso por uma pequena rampa, encontra-se a área de lazer, com jardins, deques e a indispensável instalação para o churrasco comunitário, com vista para os belos terrenos arborizados da vizinhança. Um deles, explica José Cubilla, foi adquirido pelo proprietário do edifício e será transformado em um parque com caráter público-privado para desfrute dos moradores e vizinhos.

Um terceiro sistema de águas recolhe as águas pluviais a dois reservatórios no topo e no subsolo do prédio, para atender às necessidades de descarga dos vasos sanitários e também para a rega dos jardins.

Reciclagem de materiais
O terreno da obra estava ocupado por duas casas, que foram demolidas e tiveram seus materiais (madeiras, tijolos e telhas) reaproveitados em outras obras. Os tijolos foram utilizados no próprio edifício, para a construção de uma parede de contenção curva, como uma parábola, ao fundo das garagens. Os outros materiais foram destinados à construção de galpões, numa propriedade do cliente.

Para obter o espaço necessário às seis garagens solicitadas foi necessário escavar o subsolo da área ao fundo do lote. A terra, conta Cubilla, foi aproveitada no terreno em frente, onde um vizinho mantém uma horta. Nada se perde, tudo se recria.

Lá, no térreo, o edifício se abre para a rua em portas de vidro. À noite, por segurança, fecha-se toda a frente com um elegante portão corrediço de madeira. Mesmo assim, a relação do prédio com a vizinhança se mantém aberta, graças aos focos de luz que escapam pela fachada vazada de tijolos. É uma gentileza urbana.

TO SEE THE RIVER
The calle San Francisco, in Assunção, Paraguay, is a calm residential street, lined by magnanimous houses amidst large patios and densely wooded areas. This was where architect José Cubilla implemented the San Francisco Building, a job carried out in compliance with the strict client demands,yet full of innovative design and construction. The most apparent structure is a huge lattice facing, which partially covers the main facade, facing west and is built with solid, ceramic brick masonry. "It was made as a simple hollow wall, set directly on the ground and attached to the main structure with metal fixtures ", explains Cubilla. This ceramic skin protects the private areas of the apartments from excess sunshine, but allows for the passage of filtered light and the gusts of fresh air that breeze about the city every afternoon. There are only four apartments, each with 200 m², all adorned with verandas built in exposed concrete. On each floor, the elevator opens to a concrete bridge that allows the span to be crossed and entryway to the apartments. The grounds for the project were formerly occupied by two houses, which were demolished, and salvage material (wood, bricks and roofing materials) has been reused in other projects. The bricks were used in this building construction to build a curved retaining wall behind the garages. On the ground floor, the building is accessed from the street by glass doors. At night, for security, the entryway is closed off with a sliding wooden gate. Nevertheless, contact with the neighborhood is kept open thanks to the shards of light that slip through the hollow brick façade, as an urban courtesy.

 



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