Elemental desenha um Centro de Inovação contido entre expressivas empenas de concreto em Santiago, Chile | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Elemental . Santiago, Chile . 2011/2014

Elemental desenha um Centro de Inovação contido entre expressivas empenas de concreto em Santiago, Chile

Por: Rafael Urano Frajndlich Fotos: Cristobal Palma
Edição 247 - Outubro/2014

"Não é um prédio que se apreende com os olhos, mas com os ombros." Assim Alejandro Aravena, diretor do Elemental, explica o novo projeto do grupo, um arranha-céu em uma zona comercial de Santiago do Chile, feito como um grande invólucro de concreto armado aparente. Basta ver as fotos e sentir a expressividade do peso que o Elemental alcançou na experiência: não apenas pelo uso do concreto, mas por um detalhamento cuidadoso, que impõe o edifício na paisagem como se fosse apenas feito de concreto. Recuaram-se os vidros e a cobertura metálica da fachada, criando a impressão de um monolito sólido, em meio à capital chilena.

Trata-se de um Centro de Inovação, resultado de uma parceria entre empresas privadas no país e a Pontifícia Universidade Católica. Suas lajes foram projetadas para conter iniciativas que pudessem resultar em novos produtos para a indústria chilena, atuando como incubadora de talentos. Uma proposta nesses termos permitiu o Elemental ponderar acerca de diversos temas, como a relação entre criatividade científica e arquitetura, ou revisitar a antiga discussão sobre como fazer edifícios de escritórios no mundo contemporâneo.

"Em Santiago, os edifícios que querem se parecer 'contemporâneos' têm fachadas envidraçadas", diz o memorial do projeto, ao justificar porque a proposta é um fechado invólucro. A hipótese de um bloco de concreto armado contrasta imediatamente com esse modismo, mas a origem da ideia é mais ampla. Pesaram as condições do clima de Santiago, sob as quais é pouco estratégico um sistema que faz da área de trabalho uma estufa de vidro e, consequentemente, um festival de cortinas. Aravena pondera sobre as mudanças no modo como se trabalha em escritórios atualmente, com a onipresença de computadores, que são estações emissoras de luz. "Agora, tem-se a busca não de uma iluminação ideal, mas de uma penumbra ideal", diz o arquiteto. O concreto em si não é um eficiente isolante térmico, mas conjugado com o átrio central do projeto e com os recuos do edifício, termina por conseguir boa ventilação e proteção dos raios solares, com eficiência melhor se comparado às fachadas de vidro.

"Ademais, queríamos que o edifício tivesse um aspecto atemporal", explica Aravena, reforçando a decisão do concreto. Esse argumento justifica a busca do autor por fazer o edifício chegar sólido ao chão, sem pilotis, ao mesmo tempo em que procurou, com o detalhamento, afastar os outros materiais do perímetro do volume, tornando- o uma peça sem janelas, portas ou outros componentes visíveis. A atemporalidade viria desse efeito na paisagem: uma relação com um objeto quase natural, uma montanha nova na cidade, que já é conformada pela Cordilheira dos Andes, ao fundo. Sente-se no ombro essa relação que traduz a busca de Aravena por associar o Centro de Inovação com o que se suspende no tempo.

O diálogo com a inovação se dá nessa mesma chave. Aravena e sua equipe não gostariam que o edifício logo se tornasse obsoleto, ou necessitasse de manutenções drásticas no futuro, por uma vontade de torná-lo análogo aos produtos criados dentro dos escritórios de pesquisas que abriga: que sejam tecnologias cuja pertinência ultrapasse décadas. Soma-se a isso a natureza sempre incerta da busca por criar coisas novas, o que faz com que o trabalho dentro dos conjuntos possa ter diversas necessidades particulares. Trabalhando com isso, o Elemental desenhou salas que fossem amplas e com acesso a shafts para que se pudessem chegar utilidades e saírem produtos das experiências para o exterior.

Abrigar os centros de ideias traz mais incertezas do que apenas a especificação de materiais e instalações. A imprevisibilidade do processo criativo exige que as equipes não só discutam muito entre si, mas também que vejam outras pessoas, colegas não necessariamente envolvidos em seus projetos. O átrio central serve como esse ponto de encontro informal, assim como as varandas que permitem uma conversa com vista para a cidade de Santiago. Estes terraços têm pé-direito que soma até quatro pavimentos, emoldurando os cientistas como pequenas figuras conversando por entre os panos de concreto armado.

O edifício tem sua estrutura organizada pela própria fachada, com algumas linhas de pilar no seu interior, a maioria organizada em torno do vazio central. No interior, não se tem a mesma crueza de materiais: os andares são emoldurados com caixas de madeira aparente, os caixilhos metálicos têm os montantes horizontais desencontrados, reforçando a ideia de movimento e variedade. O átrio tem cobertura translúcida que permite reforçar a luz natural entrando nos conjuntos, e acresce novos tons à sensação de penumbra desejada pela equipe de Elemental.

Esse contraste entre o interior abrigado e a frieza expressiva no exterior aparece na própria solução do térreo. Um volume baixo atua como embasamento, e contém o auditório para conferências. Entretanto, ele mal se destaca da volumetria do edifício, parecendo-se mais com uma extensão da torre de concreto armado se espalhando pelo térreo. Um caminho em linha reta, pavimentado por pedras, leva diretamente ao salão de acesso, onde se vê o átrio central e as prumadas de circulação. Uma aleia bem espaçada de árvores baliza o caminho.

"Queríamos que o peso fosse intuído, por isso não queríamos botar uma laje pesada na cobertura final; isso seria trair o partido", fala Aravena, ao explicar como resolveu o coroamento do edifício, sua parte mais alta. Ali, as aberturas de varandas criam uma estranha sensação: uma fina linha parece resolver a cobertura, em uma leveza que surpreende o visitante. Um perfil metálico em "L" resolve esse detalhe, sendo sua perna maior um acabamento fixado na laje que de fato existe como cobertura, mas fica recuada, e a perna menor projeta-se em direção à fachada, balançando-se por alguns centímetros. Assim, coroa-se o partido criando essa ilusão de que o edifício bruto, cinzento, atemporal e pesadíssimo é coberto por uma fina lâmina metálica, como a camada de neve que recobre os montes andinos por eras.

O Elemental entrega esse projeto conforme se consolida como uma das mais sólidas vozes da arquitetura chilena. Suas exposições internacionais, sobretudo na Bienal de Veneza, mostram uma preocupação apurada com as mais urgentes questões que seu país enfrentou nos últimos anos, desde o terremoto no sul do Chile até a habitação social. Neste último campo, o grupo é referencial por suas experiências em Iquique (AU 172) ou na Quinta Moroy, em Antofagasta, entre tantos outros.

Quando pergunto sobre a relação entre esses projetos habitacionais e a arquitetura do Centro de Inovação, Aravena diz serem todos parte de um mesmo pensamento de projeto. "A incerteza está nos dois casos", diz o arquiteto, referindo-se aos imprevisíveis caminhos da inovação e, no caso das casas, nas surpresas que a apropriação dos novos habitantes traz aos conjuntos: como as residências do projeto preveem um livre espaço para expansão, várias cores e apliques se somam à composição final do renque de casas.

"Nossas perguntas estão fora dos debates da arquitetura, são aquelas comuns, que importam a todos, como pobreza, desenvolvimento, produtividade etc. Respondemos com o desenho, com a sua sempre grande capacidade de síntese, e depois as devolvemos ao seu lugar de origem, para que todos possam avaliar", conclui Aravena sua explanação sobre o Elemental e seu novo Centro, apontando, nos seus termos, algumas vias de inovação.

SOLID INNOVATIONS
"The building is not beheld with the eyes, but with the shoulders." That is how Alejandro Aravena, a director at Elemental, explains the group's new project, a skyscraper in a commercial zone of Santiago, Chile, made like a large casing of exposed reinforced concrete. The glass and metal roofing of the facade are recessed, creating the impression of a solid monolith, in the middle of the Chilean capital. This is the Innovation Center and the result of a joint venture between private Chilean companies and the Pontifical Catholic University. Organized by the facade, only a few interior pillar lines of the building structure are seen, while most are organized about the central shaft. Moreover, the building interior is void of the same unrefined materials: the floors are framed with exposed wooden trim and metal door frames with off-setting headers strengthen the idea of movement and variety. The translucent atrium roof reinforces the natural light in the suites. This contrast between the sheltered interior and the expressive chilly exterior appears in the actual solution for the ground floor: a low volume that serves as a base, and contains the conference auditorium."We wanted the weight to be sensed, which is why we did not want a heavy slab on the roof of the top floor; this would have betrayed the project," says Aravena, on explaining how he solved the crown. Up there, the openings of the verandas create a strange sensation: a thin line appears to top the roof, with surprising lightness. This detail is solved by an L-shaped metal profile. Thus, the project is crowned, creating the illusion that the extremely heavy, timeless, grayish, raw building is covered by a thin metal sheet, like the layer of snow that covers the Andean mountain tops.

 



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