Arquitetos do Taller de Arquitectura transformam edificações centenárias em espaço de cultura, em Oaxaca, México | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Taller de Arquitectura . Oaxaca, México. 2006/2012

Arquitetos do Taller de Arquitectura transformam edificações centenárias em espaço de cultura, em Oaxaca, México

Por: Mariana Siqueira Fotos: Sandra Pereznieto
Edição 247 - Outubro/2014

Na cidade mexicana de Oaxaca, um monastério dominicano do século 16 caiu no esquecimento após sucessivas intervenções que lograram descaracterizá-lo por completo. Apesar de situado no centro histórico da cidade, ao lado da catedral e da praça principal, o convento era ignorado não apenas pelos turistas, mas pelos próprios moradores. Ao longo dos séculos, demolições de partes das estruturas existentes associadas a novas construções e reformas deixaram tão somente vagos indícios de um monumento tão antigo quanto a chegada dos espanhóis.

A guinada veio com a iniciativa da filantrópica Fundação Alfredo Harp Helú, que decidiu fazer, em Oaxaca, um centro acadêmico e cultural batizado com o nome popular do Monastério de São Domingo de Soriano: São Paulo. O objetivo da Fundação é ajudar a enfrentar a pobreza com projetos de fomento à educação, cultura e arte, valorizando a herança pluricultural local - em especial a indígena.

A temática da valorização da cultura indígena ganha contornos especiais quando contrastada com a arquitetura de um edifício religioso próprio dos primórdios da invasão ibérica às terras do Novo Mundo, que remete a uma história de dominação não apenas territorial, mas cultural e espiritual. Mas se essa sangrenta dinâmica pode ser relembrada em edifícios nas mais variadas latitudes latino-americanas, o convento de Oaxaca conta também a história de uma revanche, levada a cabo no século 19 por Benito Juárez, o primeiro indígena a ser presidente do México (1858/1872) e frequentemente lembrado como seu mais amado líder. Foi responsável por um processo político conhecido como Reforma que, entre outras coisas, levou à nacionalização dos bens do clero e a uma severa redução de seus privilégios. Nada poderia expressar mais claramente a essência dessas medidas que a demolição de quase metade do monastério dominicano em Oaxaca - e da igreja contígua a ele - para dar passagem a uma nova rua.

Assim, as edificações históricas foram, literalmente, cortadas rente à nova calçada, ficando com as entranhas expostas à rua com a demolição de um dos lados. Novas fachadas foram forjadas e modeladas segundo o padrão da época, uma releitura da arquitetura colonial mexicana com feições de século 19. Camuflados na paisagem, convento e igreja foram paulatinamente esquecidos pela população.

Tomada a decisão de fazer ali o Centro Acadêmico e Cultural São Paulo, Alfredo Harp Helú comprou os antigos edifícios religiosos e outras estruturas contíguas a eles situadas no mesmo quarteirão. "Foi uma construção ao modo do jazz: fomos improvisando porque, pouco a pouco, o cliente comprava novos prédios", conta o arquiteto Mauricio Rocha, à frente do escritório responsável pela retumbante transformação arquitetônica que o monastério estava por passar.

O resgate dos edifícios históricos começou com a demolição dos acréscimos feitos às estruturas originais, o que permitiu recuperar 90% dos corredores do claustro, parte da igreja e a totalidade da Capela do Rosário. A medida foi importante para aliviar os componentes estruturais, que estavam sobrecarregados pela adição de peso ao longo do tempo.

Sucessivas demolições permitiram recriar o adro da igreja, situado no centro do quarteirão, e uma passagem linear antiga que o conecta com duas ruas adjacentes. Assim, a cidade ganhou um novo passeio para pedestres e, de quebra, uma pequena praça cultural. Existe, ainda, a vontade de recriar um segundo eixo de circulação, perpendicular à fachada da igreja, mas isso só será possível com a compra de novos imóveis.

Descobrir essas antigas estruturas, até então escondidas, foi um deslumbramento, contam os arquitetos. A segunda etapa de trabalho foi restaurar partes dos edifícios que estavam seriamente comprometidas. Para a reconstrução da fachada da igreja, foi utilizada uma pedra com um tom diferente daquela utilizada originalmente, a fim de permitir a distinção entre partes novas e antigas.

No entanto, a área resultante das liberações foi insuficiente para dotar o edifício com as funções culturais para as quais foi resgatado, por isso os arquitetos desenharam uma nova galeria transparente para somar área a um dos lados do claustro e fazer, ali, uma biblioteca. "Quisemos encontrar um sistema arquitetônico que permitisse ver aquilo que tínhamos liberado e, ao mesmo tempo, criar um espaço para ativar o programa", comenta Mauricio. O resultado é uma estrutura reversível de metal, madeira e vidro.

As novas colunas, delgadas, são duplas, por ser de uma zona com risco de terremotos, e foram locadas sempre em diálogo com a estrutura existente: ora no eixo das colunas de pedra, ora no eixo dos arcos de alvenaria, mesmo que por isso fiquem com distâncias irregulares entre si. O vidro utilizado veio diretamente da Alemanha para Oaxaca, pois é um produto especial que não permite reflexos. A madeira foi especificada em piso, teto e mobiliário para estabelecer uma relação com o ambiente construído original, onde imperavam as vigas do mesmo material. Nas estruturas existentes, essa solução foi utilizada, junto com a pavimentação em elementos cerâmicos, mas a partir de uma releitura contemporânea.

Sobre o terceiro pavimento - que foi adicionado apenas no século 18 - foi construída uma cobertura em balanço que protege os corredores, mais uma vez de aço e madeira. Por cima dela, e também se apoiando diretamente na estrutura original do edifício, criou-se um teto retrátil de aço e vidro (com película filtrante) que protege o pátio do excesso de radiação solar e das chuvas e ventos. Assim, é possível atingir diferentes configurações no interior do centro cultural: com o céu à vista, como ficava antigamente, ou com a cobertura fechada, deixando o ambiente protegido, mas banhado por suave luz.

Como na maioria dos conventos, o pátio original contava com uma fonte ao centro. "Decidimos fazer uma fonte negra, com uma pedra chamada oxidiana, que era utilizada pelos pré- -hispânicos; era o espelho dos astecas. Com um pouco de água, torna-se um grande espelho para ver o céu", revela o arquiteto. Outros elementos de desenho que chamam a atenção são as aberturas no piso para drenagem - simples espaçamentos entre as peças de pavimentação - e o fato de o pátio estar na mesma cota que os corredores adjacentes - o que não configura um problema na medida em que a entrada da água das chuvas pode ser controlada. "Conseguimos um espaço mais abstrato, menos literal e histórico, mas sem perder o espírito do original", aposta.

Em relação à fachada que dá para a rua, os arquitetos criaram polêmica ao decidir desmontar a frente construída no século 19: "Essa fachada estava ocultando outro momento histórico importante", postula Mauricio. Com o apoio das autoridades históricas locais, os arquitetos fizeram uma nova fachada, mais abstrata, utilizando, mais uma vez, pedras de tonalidade diferente da original. As portas que conectavam o claustro aos quartos dos monges foram recriadas, dando o tom da composição, e o terceiro piso, acrescentado no século 18, indicado com uma discreta risca. "Se amanhã conseguirmos comprar a igreja, faremos igual: indicar seu corte na fachada. Seria fantástico", sonha o arquiteto.

Além do complexo religioso, o projeto aproveita outras construções adjacentes para abrigar partes do programa, sempre utilizando o mesmo sistema construtivo - aço, madeira e vidro - para criar coerência e continuidade entre os espaços construídos ao longo de diferentes séculos. Uma casa do século 18 agora abriga escritórios e um café, que se abre para a praça central, enquanto edifícios do 19 acolhem salas de aula e outra casa, do século 20, um espaço de exposições. "Conseguimos, com uma arquitetura contemporânea, fazer uma acupuntura que costura os diferentes séculos", orgulha-se Mauricio.

O sucesso do projeto vai muito além de suas grossas paredes. "Antes as pessoas não se atreviam a comprar propriedades com proteção patrimonial porque sentiam que não podiam fazer nada com elas. Nosso projeto foi muito comentado, no México, por conseguir fazer uma intervenção com arquitetura nova respeitando a parte antiga", conta o arquiteto Mauricio Rocha. O Instituto Nacional de Antropologia e História do México parece concordar: não apenas aprovou o projeto, como lhe concedeu o prêmio de melhor intervenção do ano (2012).

SEAMING CENTURIES
In the Mexican city of Oaxaca, the 16th Century Dominican monastery had fallen to the wayside after receiving interventions that completely disfigured the monastery's character. Despite being situated in the historic city center, the convent had become ignored both by tourists and residents. Along the centuries, demolitions to parts of the existing structures associated with new constructions and reforms had left only faint signs of a monument as old as the arrival of the Spaniards. Then came a turnaround pivoted upon the initiative of the philanthropic Alfredo Harp Helú Foundation, which had decided to make an academic, cultural center in Oaxaca baptized with the popular name of Monastery in São Domingo de Soriano: San Pablo. "This was a jazz style construction: we kept on improvising because, little by little, the client kept on buying new buildings", recounts architect Mauricio Rocha, in charge of the firm running the transformation. The redemption of the historic building constructions began by demolishing the additions made to the original structures, which allowed 90% of the cloister hallways, part of the church and all of the Chapel of Our Lady of the Rosary to be recuperated. This measure alleviated the existing structural components, overloaded by the weight added in time. Successive demolitions allowed the churchyard, situated in the middle of the city block, and an old linear passageway, which had connected the church with two adjacent streets, to be recreated. The architects also designed a transparent gallery to add area to one side of the cloister and to make a library there. On being situated in an earthquake-risk zone, the new columns were doubled and placed in constant dialogue with the existing structure: either at the axle of the stone columns, or at the axle of the masonry arches. "With contemporary architecture, we were able to perform acupuncture that seams the different centuries together", beams Mauricio.

 



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