Projeto de Souto de Moura no Sul de Portugal transforma edificação histórica em conjunto de apartamentos | aU - Arquitetura e Urbanismo

Residencial

Eduardo Souto de Moura . Tavira, Portugal . 2006/2

Projeto de Souto de Moura no Sul de Portugal transforma edificação histórica em conjunto de apartamentos

Por: Melina Guirnal Dos Díaz Fotos: Luis Ferreira Alves
Edição 247 - Outubro/2014

Devolver o patrimônio à cidade, não como um objeto isolado mas como parte integrante de sua paisagem com uso residencial, foi o ponto de partida do projeto de reabilitação do Convento das Bernardas, assinado por Eduardo Souto de Moura em Tavira.

O antigo convento de Nossa Senhora da Piedade ou das Bernardas foi fundado em 1509 pelo rei Dom Manuel I para comemorar a vitória na batalha de Asilah, antiga cidade fortificada portuguesa no Marrocos. É o maior convento da região portuguesa do Algarve e o único da Ordem Cister em Portugal. Com o grande terremoto de 1755, a edificação sofreu danos importantes, sem chegar a colapsar graças à sua estrutura de paredes de alvenaria capaz de absorver os esforços sísmicos a que foi submetida. A partir desse momento, foram realizadas diversas reformas no imóvel, que modificam sua estrutura original. Em 1834, as ordens religiosas foram suprimidas e após alguns anos em que o imóvel esteve como propriedade pública, passou para o controle privado: foi transformado em uma fábrica de farinha, ativa até o fim da década de 1960.

O conjunto responde ao esquema da ordem de Cister: planta de duplo quadrado com um claustro central e uma igreja a norte. Os paramentos exteriores são sóbrios, com exceção de um portal de estilo manuelino que cumpria a função de entrada privada das madres de clausura, e que ainda se conserva. O projeto de Souto de Moura respeita essa distribuição e organiza um programa residencial com 78 apartamentos em torno de um grande pátio central.

A intervenção consistiu na recuperação e na adaptação do edifício pre-existente ao novo uso como moradia, e na criação de um novo corpo na forma de L situado em uma cota inferior, e que limita, a leste, com as salinas da laguna Formosa, de origem fenícia. O desnível de 3 m entre o edifício antigo e o novo é aproveitado para criar 21 casas de um ou dois pavimentos com terraços de acesso que, originalmente, eram parte da horta do convento.

As casas de um andar repetem uma distribuição simples e disciplinar: uma porta de entrada, janelas apenas na fachada exterior, salão com cozinha, banheiros e dois dormitórios. Já os módulos de dois pavimentos foram pensados, a princípio, como casas mediterrâneas, tendo como referência os estudos de Le Corbusier sobre essa tipologia no Marrocos - mas posteriormente os investidores decidiram simplificar o desenho, apenas com um pátio frontal de acesso.

A reabilitação das diferentes alas do edifício (leste, sul e oeste) e sua adaptação ao uso residencial exigiram um trabalho intenso de reforço da fachada e de assentamentos pontuais de cimento. As alas funcionam de maneira independente e abrigam 57 apartamentos tríplex. Para completar o grande pátio central, o módulo leste foi ampliado, seguindo a mesma técnica original de paredes de alvenaria.

No movimento de terra prévio à reforma do pátio central, foram encontradas cimentações dos paramentos, que mostravam as limitações originais. O traçado configurava uma zona de 75 m x 32 m, dimensões atuais do espaço que se divide em duas áreas: a norte, com uma praça pavimentada e árvores nas esquinas, ao modo do claustro histórico, e a zona sul, com uma piscina de água salgada (20 m x 20 m) em referência às salinas de Tavira.

A nave central da igreja do convento se qualifica como zona de recepção do conjunto residencial, enquanto o altar e o coro se transformaram em apartamentos. A torre principal se converteu em um núcleo de comunicação que dá acesso a quatro residências. Finalmente, no exterior, uma série de pérgulas metálicas cobertas com vegetação nativa projeta sombra nos terraços e oculta os espaços de estacionamento e as instalações de serviço.

As fachadas exteriores, como testemunhas da evolução e das transformações de uso do complexo com o tempo, são o principal elemento da intervenção. Souto de Moura decidiu conservar e aproveitar todas as aberturas pré-existentes, as menores correspondentes ao convento, e as maiores, à etapa industrial. Assim, adaptou com precisão as novas moradias às antigas aberturas. Para isso, foi necessária uma análise da superposição das estruturas com maquetes, para entender a interação e a relação interior-exterior de modo direto. O recorte de 220 novas aberturas que o programa residencial exigia supôs um novo desafio estrutural. Para resolver esse problema, Souto de Moura estudou o sistema utilizado por Jean Nouvel na Torre Agbar (AU 143), de Barcelona, com janelas autoportantes recortadas no concreto estrutural. A solução construtiva final consistiu na eliminação do recheio de pedras e argamassa para criar as aberturas. Ao redor de cada uma, foram criadas molduras de concreto armado conectadas às paredes com parafusos.

Para recuperar, como o arquiteto mesmo indica, "a memória da terra", a textura das fachadas foi unificada, deixando aparecer a alvenaria atrás de uma camada de pintura que lembra a cor da areia na região. Finalmente, na esquina norte do edifício, uma chaminé de tijolos se converte no símbolo que marca a localização do edifício e faz lembrar de seu passado industrial.

A superação da rigidez imposta pelas teorias de conservação clássicas conduziu as novas estratégias baseadas em um processo de diálogo entre os valores imateriais e históricos e os contemporâneos, que permitem a integração cada vez mais sustentável do patrimônio histórico em nossa realidade urbana e social. O projeto de recuperação do Convento das Bernardas se converteu em um exemplo dessa necessária mudança de paradigma.

A tipologia também surpreende: dentro do boom imobiliário que aconteceu na península Ibérica na década passada, a administração pública promoveu a reabilitação do patrimônio arquitetônico destinado a programas quase exclusivamente culturais. Essas políticas de proteção levaram a um excesso de equipamentos que hoje são difíceis de sustentar e que estão em estado crítico de manutenção. A crise econômica fez com que a recuperação de imóveis de valor histórico dependa da busca de sua viabilidade econômica com usos inovadores que produzem e não consomem recursos, assim como de novas formas de gestão baseadas em parcerias público-privadas.

NEW OPENINGS ON HISTORY
Returning a landmark back to the city, as an integrating part of the city skyline for residential use, was the starting point of the Bernardas Convent re-housing project, signed by Eduardo Souto de Moura in Tavira. The old convent was founded in 1509 by King Dom Manuel I. Later with the great earthquake of 1755, the structure was damaged, but not to the point of collapsing. Then in 1834, religious orders were suppressed and after some years the structure fell under private control: was transformed into flour plant to remain active until the end of the 1960s. The Souto de Moura project respects the original layout and organizes a residential program with 78 apartments around a large central courtyard. The intervention consisted of recuperating and adapting the pre-existing building construction to be used for housing, and of creating a new L-shaped body, which is situated at the lowest level and borders, on the east side, the salt flats of the Formosa lagoon. The 3 m slope between the old and the new building construction has been used to create 21 of one and two-story houses with terraced entryways, which were originally part of the convent garden. Souto de Moura decided to preserve and make use of all the pre-existing openings in the facade, of which the smaller openings correspond to the convent, and the larger openings correspond to the industrial phase. Thus, the new homes have been precisely adapted to the older openings, upon an analysis of the overlapping structures with marchees, in order to rightly understand the indoor-outdoor interaction and relationships. The cutting out of 220 new openings, required for the residential program, takes on a new structural challenge, with self-supporting window systems cut into the concrete structure.

 



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