AR Arquitetos reformam casa da década de 1960 em São Paulo e criam pátios para a entrada de luz | aU - Arquitetura e Urbanismo

Residencial

AR Arquitetos . São Paulo, SP . 2010/2012

AR Arquitetos reformam casa da década de 1960 em São Paulo e criam pátios para a entrada de luz

Por: Laura Sobral Fotos: Leonardo Finotti
Edição 247 - Outubro/2014

Mais importante do que ter espaço é como usá-lo e as experiências que ele sugere. O escritório AR Arquitetos teve como desafio a reforma de uma casa com 500 m², na Vila Madalena, em São Paulo. Seu partido imediato foi o de arejá-la, tornando-a mais leve, com espaços mais agradáveis. Assim surgiu a Casa dos Pátios.

O invólucro original, um prisma retangular de 22 m x 7 m x 9 m, construído nos anos de 1960, foi mantido - dada sua boa orientação - e tomado como sólido a ser escavado. Mas a casa se modificou inteiramente, a começar pela distribuição. "Quando o cliente entrou em contato conosco, tinha acabado de comprar essa casa, em obras. Não estava pronta para morar e uma reforma era, realmente, necessária. Daí que pensamos em manter a estrutura e fazer aberturas para dar mais leveza", explica a arquiteta Marina Acayaba, uma das responsáveis pelo projeto.

Decididos a manter as paredes periféricas, estruturas e fundações, começou o repensar sobre a casa. Foram criados espaços de descompressão que protagonizam a relação do interior com o exterior, criando um percurso pautado pela luz. "Há espaços que têm uma luz forte, que depois fica mais tênue na medida em que nos afastamos de algum pátio, por exemplo". Para criar esse percurso de luz, um dos primeiros aspectos modificados na casa foram os acessos. A criação dos pátios fez com que surgissem espaços de transição e, o que era, por exemplo, um bloco só de escadas, desmembrou-se para que o passeio dentro da casa fosse agradável e mais fluido. Os pátios também tiveram função de criar uma face norte para os quartos, já que a casa é leste-oeste. Com os pátios ganha-se a luz do norte, de maneira indireta.

A casa tem três níveis e, anteriormente, tinha quatro quartos, com a parte social no nível intermediário, da rua, sem contato com o jardim. O que se conectava com ele era o quarto e banheiro de serviço e a garagem. A reforma diminuiu o número de compartimentos, resultando em três suítes para atender ao casal e seus dois filhos. Os ambientes sociais - que estavam no nível da rua - foram transportados para o pavimento inferior, do jardim, incluída a sala de estar, transferida para o espaço antes dedicado à garagem. Toda a casa, inicialmente, tinha um pé-direito baixo, de cerca de 2,40 m. A sala, então, ganhou pé-direito duplo, pela supressão de uma parte da laje do pavimento intermediário, que, por sua vez, tornou-se um mezanino com espaço para abrigar uma sala de leitura, o escritório e um lavabo. Por esse pavimento se faz a entrada principal, que leva, descendo as escadas, ao nível social de salas e cozinha, ou, subindo, aos quartos.

A ideia dos recortes e da escavação dos volumes, contam os arquitetos, veio dos trabalhos de Gordon Matta Clark que, na década de 1970, fez uma série de trabalhos em edifícios abandonados, nos quais removia partes do piso, do teto e das paredes dos andares, a fim de questionar a memória histórica e promover debates sobre a ressignificação dos espaços. Também tem influência de James turrel, na década de 1970, artista plástico norte-americano que iniciou a série, na qual espaços fechados eram abertos para o céu, por um recorte no telhado/cobertura. Foi a primeira proposta feita pelo ar, em 2010, como solução às considerações feitas pelo cliente de uma casa muito grande e pé-direito muito baixo. A aceitação foi imediata. Foram sete meses de projeto e um ano de obra, finalizada em 2012, ao preço de 2 mil reais/m².

De acordo com marina, o cliente às vezes entra em contato depois da obra entregue para contar alguma nova experiência no uso da casa. "Ele ligou no inverno para dizer que, ao descer a escada, a luz entra de uma maneira incrível. A nossa ideia foi mesmo que a casa proporcionasse essas surpresas de maneira permanente". Os recortes podem parecer, a princípio, aleatórios, quando vistos do exterior. Porém foram localizados e dimensionados com cuidado. Muitos foram determinados durante a obra, com a observação da incidência da luz no interior da residência nos diferentes horários do dia, e também pela observação de trechos da paisagem que mereceriam ser enquadrados para direcionar o olhar. Esse processo de eleição permitiu que algumas das aberturas tenham surgido da negociação com o cliente, que propôs algumas janelas a mais, por exemplo, nos quartos. "É uma arquitetura que não foi pensada para ter uma compreensão imediata. O cliente entendeu e curtiu isso", complementa a arquiteta.

Com a supressão de parte da área construída para dar espaço aos pátios, a casa passou dos mais de 500 m² iniciais a 450 m² construídos. São dois pátios recortados na altura dos pavimentos intermediário e superior, com grandes janelas e claraboias, só sendo necessária iluminação elétrica quando não há mais luz do dia. A ventilação também foi projetada para ser cruzada em todos os ambientes, dispensando o uso de ar-condicionado. A casa conta com painéis solares e captação de água da chuva, que abastece as torneiras do jardim.

A retirada de massa construída resultou em volumes e superfícies livres, "como um volume dentro do volume", enquanto fachadas internas entre as áreas íntimas criam novas relações entre níveis. E, por ser toda branca e com linhas limpas, a casa exigiu alto nível de detalhamento. Os arquitetos do ar desenharam, também, o mobiliário da casa. "Foi tudo no esquema alta-costura, feito sob medida", conta marina. A casa dos pátios, em seu equilíbrio entre dentro e fora, cheio e vazio, lembra-nos que nem sempre ter mais área construída é obter mais espaço.

THE IMPORTANCE OF PAUSES
More important than having space, is knowing how to use it and the experiences it suggests. The AR Arquitetos firm was faced with the challenge of remodeling a 500 m² house in São Paulo. Their first immediate step was to give it more air, thus giving rise to the House of Porches. The original outer casting, a 22 m x 7 m x 9 m rectangular prism, built in the 1960's, was maintained - given a fine orientation - and deemed sound enough to be hollowed out. Yet the house was entirely modified, beginning with the layout. We decided to keep the peripheral walls, structures and foundations, while decompression spaces were created to play the leading role in the indoor-outdoor casting, giving rise to a passageway bathed in light. Two porches have been cut out at the height of the middle and upper floors, with large windows and skylights, dispensing electric lighting until there is no longer any daylight. Crossventilation was also projected in all of the rooms, thus dispensing with the use of airconditioning. The porches lie to the north of the bedrooms and allow the light to enter, since the house faces east-west. With the partial suppression of the constructed area, the house went from the initial area of more than 500 m² to an area of 450 m². The removal of the constructed mass resulted in open volumes and surfaces, "like a volume inside a volume", while the indoor facades between the private areas create new relationships in between levels.

 



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