Poltrona Benjamin, peça inédita de Sergio Rodrigues, é uma síntese de tudo o que ele fez | aU - Arquitetura e Urbanismo

Design

Sergio Rodrigues . Rio de Janeiro, RJ . 2014

Poltrona Benjamin, peça inédita de Sergio Rodrigues, é uma síntese de tudo o que ele fez

Por: Gabriela Domingues Fachin Fotos: Eduardo Camara/LT.9
Edição 247 - Outubro/2014

Uma peça que sintetiza 60 anos de design. Na visão do próprio Sergio Rodrigues, a poltrona Benjamin é um resumo de sua obra, por reunir características dos móveis que produziu ao longo da carreira. "Quando ele viu o protótipo pronto, disse que era uma síntese de tudo o que fez em poltrona e cadeira, porque tinha vários detalhes e elementos utilizados nas peças que criou", conta o designer Fernando Mendes, que junto com Sergio tirou o projeto inédito da gaveta para lançá-lo em 2014.

O desenho da Benjamin, feito à mão e que traz as vistas lateral, de cima, de frente e fundos da peça, foi encontrado durante a organização do acervo de Sergio, iniciada pelo Instituto Sergio Rodrigues há cerca de um ano. Fernando, que trabalhou no escritório de Sergio e reeditou alguns de seus móveis ao lado dele, foi o designer responsável pela execução da Benjamin e completou o estudo da poltrona. "Escaneei o desenho para o computador e fui trabalhando em cima para fazer as projeções e ajustes em escala", explica. "Havia coisas que não estavam resolvidas nesse desenho para as quais eu apresentei soluções que o Sergio aceitou, e incorporamos no projeto."

Pelas soluções, Fernando acredita que o projeto tenha sido feito entre 1995 e 2000. "Essa poltrona, na verdade, é uma certa evolução da Xibô (1990), com um desenho um pouco mais complexo", diz.

Não se sabe ao certo por qual motivo a peça não foi produzida na época de sua concepção. Baba Vacaro, curadora da exposição em que a Benjamin foi apresentada (Seis décadas de design, que aconteceu entre 30 de setembro e 5 de outubro na Dpot, em São Paulo), conta que a década de 1990 não foi um momento de grande produção para Sergio. "Quando você pega a linha do tempo dos produtos, dos anos de 1950 aos 60, época de efervescência da Oca, muitas peças foram lançadas". É o caso do banco Mocho (1954), da poltrona Mole (1957), da cadeira Lúcio (1956) e da poltrona Oscar (1956). "Depois, essa produção foi reduzida com o tempo", explica Baba. Fernando conta que Sergio criou uma série de peças que não chegou a ser fabricada, "ou porque ele já estava satisfeito de ter feito o desenho, ou porque não tinha uma ocasião para desenvolver o projeto ou alguém disponível para poder fabricar um protótipo".

Sergio acompanhou o processo de desenvolvimento da poltrona Benjamin, fazendo ajustes e correções. Na fase de complementação do projeto, quando Fernando apresentou o desenho a ele, modificou uma curvatura de travessa. Na etapa do protótipo, Fernando conta que a poltrona ficou muito volumosa. Foi feita uma ligeira correção na inclinação do encosto e Sergio pediu para, além de diminuir a altura, retirar 5 cm de largura.

Apesar de, segundo Fernando, o desenho dar a impressão de ser um revestimento estofado de couro, solução semelhante à usada nas poltronas Kilin e Xibô, os designers escolheram outros materiais: uma concha rígida revestida de couro, por causa do tamanho da poltrona e sua construção. Em razão da estrutura de compensado moldado receber o couro, que vai por baixo da almofada solta, adotou-se um sistema já utilizado em uma outra poltrona de 1996, a Tete. Assim, a concha rígida é revestida de espuma e recebe o couro por cima.

O encaixe principal da poltrona também foi utilizado por Sergio em outras peças: uma espiga que atravessa uma perfuração no pé da cadeira e, do outro lado, recebe uma cunha de madeira que amarra a estrutura.

A peça, que leva o nome do neto mais novo de Sergio, de seis anos, seria apresentada no dia 22 de setembro durante a mostra na Dpot. Com o falecimento do designer, no dia 1º do mesmo mês, o evento e a exibição da poltrona foram adiados para o dia 30. A mostra foi mantida como havia sido concebida, e apresentou momentos da vida e da carreira do designer, além de aspectos menos conhecidos de seu trabalho, como as peças desmontadas e os gabaritos de alguns móveis com anotações da indústria.

"Contar a história do Sergio é contar a história de um personagem muito importante no design brasileiro", afirma a curadora. "Encontrei com alguém que me disse 'Nossa, a gente pensa no Sergio e parece que ele foi tomar um café'. A presença dele é tão forte que é como se ainda estivesse aqui", conta Baba. "É muito triste saber que a gente não vai mais poder contar com aquele sorriso, aquele alto astral, aquele bom humor dele", lamenta. A cadeira Benjamin encerra o ciclo de trabalho de Sergio Rodrigues, mas se une ao restante de sua obra como inspiração para as próximas gerações.

 



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