O que a experiência de trabalhar em um escritório estrangeiro acrescenta no repertório profissional? | aU - Arquitetura e Urbanismo

Fato e Opinião

Exercício profissional

O que a experiência de trabalhar em um escritório estrangeiro acrescenta no repertório profissional?

Por Valentina Figuerola
Edição 245 - Agosto/2014

Outro país, outro idioma, outra rotina de trabalho. Há, ainda, o choque cultural e a adaptação a novos estilos de gestão. Esses são alguns dos desafios encarados por arquitetos que optam por trabalhar no exterior. Por outro lado, as recompensas vão desde aprender a desenvolver de forma diferente o projeto, até adquirir habilidades que serão levadas pelo resto de sua vida profissional. E isso, além de exercitar a flexibilidade e tolerância, também amplia a visão de mundo, o que chega a ser uma transformação pessoal. AU entrevistou arquitetos que trabalham ou já trabalharam em escritórios de arquitetura de diversas partes do mundo para saber o que a experiência acrescentou em seus repertórios profissionais.

 
Foto: Marcelo Scandaroli

Pedro Bruna
sócio do Paulo Bruna Arquitetos Associados, trabalhou de 2002 a 2004 no Pelli Clarke Pelli de New Haven, Connecticut, Estados Unidos

O mais fascinante da minha experiência foi o convívio com o arquiteto Cesar Pelli e seu sócio, Fred Clarke. Além de trabalhar com uma equipe internacional, e em projetos com programas que eu dificilmente faria em um escritório no Brasil (torres em Milão, concursos em Beirute e um teatro de ópera em Hong Kong), foi o dia a dia no escritório que mais me acrescentou profissionalmente, já que a maneira de trabalho é completamente democrática e estimulante. No início do projeto, todos da equipe devem produzir uma proposta que será analisada em uma maquete com o entorno. A análise acontece sem que o autor seja identificado, sendo que as propostas mais interessantes são desenvolvidas. A partir daí, o processo segue com conversas animadas em que todos são estimulados a contribuir. O contato com os diretores do escritório é direto e faz parte do processo, o que é parecido com os atendimentos que acontecem na faculdade. Aprendi muito.

 
Acervo pessoal

Camila Stadler
arquiteta especializada em gerenciamento da construção do escritório dinamarquês Bjarke Ingels Group (BIG), onde trabalha desde 2012

Hoje, meu repertório profissional conta com mais de dez projetos internacionais, dos quais fiz parte diretamente do processo. Com certeza é um desafio profissional e pessoal bem grande, porém gratificante. Trabalhar em um ambiente como o BIG, premiado mundialmente, requer muita responsabilidade e iniciativa. A maioria dos projetos é internacional e varia muito em escala, refletindo diretamente nas regulamentações a serem seguidas, idioma e gerenciamento. Trabalhar em um ambiente assim também proporciona uma experiência com a diversidade de projetos e culturas. O escritório não possui divisórias e possibilita a convivência direta entre os funcionários (networking), tornando o ambiente dinâmico e criativo. Por último, mas também importante, trabalhar no BIG me permite entender linguagens conceituais diferentes, saber adaptar e desenvolver corretamente buscando um resultado final diferenciado.

 
Foto: Andrea Helou

Marina Acayaba
sócia do escritório AR arquitetos, trabalhou no escritório português Aires Mateus em 2006 e no japonês Sanaa em 2008

Quando me formei pela FAUUSP, resolvi trabalhar fora do País para complementar meus estudos. No primeiro ano, fui a Lisboa trabalhar no Aires Mateus, onde achei que seria impossível me adaptar e entender o modo como projetavam, que é um método muito mais conceitual, plástico e escultórico. A ideia deles de projetar por meio do espaço negativo, ou seja, o desenho do vazio, foi uma revolução para mim. No ano seguinte, fui para Tóquio trabalhar no Sanaa, onde conheci outra maneira de projetar, baseada, principalmente, no uso de maquetes e no desenho minucioso da planta. Esta maneira resulta no desenho do edifício como objeto plástico, com uma espacialidade interna muito simples. Muito diferente de como se faz na escola paulista, em que o corte é o principal instrumento de projeto, resultando numa espacialidade interna bastante livre e complexa. Hoje, acho que essas experiências me trouxeram um novo léxico que complementa a minha linguagem e meu método de projeto.

 
Acervo pessoal

Assunta Viola
arquiteta e professora do centro universitário Fiam Faam, colaborou no Studio Fuksas, em Roma e Paris, de 1994 a 1997

Trabalhar no exterior acrescenta outras formas de resolver problemas de projeto, da contratação à relação com o canteiro de obras. Eu destacaria a maior flexibilidade quanto à forma de trabalhar a legislação urbana e edifícia, a forma de lidar com as características culturais dos usuários dos edifícios, e as soluções ligadas às determinantes climáticas e ambientais, ao uso da tecnologia e dos recursos tecnológicos, ao cuidado com normas técnicas e as formas de relacionamento entre os membros das equipes de projeto.

 
Acervo pessoal

Leonardo Shieh
associado do escritório Shieh Arquitetos Associados (SAA) desde 2006, trabalhou no Rafael Viñoly Architects de Nova York de 2002 a 2004

O ganho de repertório varia de pessoa para pessoa e depende de uma série de circunstâncias, a começar pela escolha do escritório e sua respectiva cidade-sede. No meu caso, tive a oportunidade de trabalhar com o Rafael Viñoly e assimilar parte de seu processo criativo em projetos de alta complexidade programática com inserção urbana proeminente. Além disso, como é prática nos grandes escritórios internacionais, encontrei equipes compostas por muitos jovens bem formados e de culturas diversas - cenário ideal para um envolvimento intenso de projeto e, certamente, para um grande aprendizado. Trouxe ainda como bagagem muito do que vivi em Nova York, que considero um verdadeiro laboratório urbano em constante ajuste e transformação.

 
Foto: Nigel Young

Edson Yabiku
arquiteto do escritório Foster + Partners, em Londres, Inglaterra, desde 1992

Ambientes estimulantes, inclusivos e seguros exercem impacto positivo na criatividade. Nesses 20 anos no Foster + Partners, percebo que os melhores projetos nascem de um papel em branco, sem fórmulas preconcebidas, como aquelas ideias esboçadas em guardanapos de papel em um café. E trabalhar no exterior, para mim, é como ir a um café. É uma experiência que permite analisar a vida de outro ângulo e incentiva a voltar e arrumar a casa. As equipes de engenharia, construtora e de custos, por exemplo, estão presentes desde o início do projeto e todos os paradigmas são questionados. O processo de trabalho é integrado e se desenha de dentro para fora, mantendo o cliente e o usuário final como pontos focais. Esta experiência também me mostra que edifícios e cidades nunca devem ser pensados separadamente, e que a responsabilidade de melhorar a qualidade de nossas cidades pertence a todos nós, arquitetos, urbanistas, engenheiros, empresários, políticos e cidadãos. Devemos atuar de maneira integrada e holística.



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