Ana Rosa Chagas desenvolve instalação temporária em Maceió e consegue transformar o espaço urbano com colaboração das pessoas locais | aU - Arquitetura e Urbanismo

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Ana Rosa Chagas Cavalcanti . Maceió/AL . 2014

Ana Rosa Chagas desenvolve instalação temporária em Maceió e consegue transformar o espaço urbano com colaboração das pessoas locais

Por Camila Berto Tescarollo Fotos Luis Eduardo Vaz
Edição 244 - Julho/2014

"Até hoje eu nunca participei de nada", "ninguém nunca me convidou para fazer isso", "eu tenho conhecimento suficiente?". Essas foram algumas colocações que a arquiteta Ana Rosa Chagas Cavalcanti ouviu quando se propôs a criar a Passagem Pop-Up, uma instalação colaborativa feita com materiais sustentáveis em Maceió. As pessoas que se envolviam com a execução da instalação começavam questionando a si mesmas e, após semanas de trabalho e trocas de conhecimento, sentiam que tinham a capacidade de intervenção nos espaços.

Inspirada em sua experiência com alguns coletivos da Europa para produção coletiva, a arquiteta iniciou sozinha a produção em Maceió, com objetivo de repensar a forma com que se discute a cidade e sua apropriação. O mês de janeiro de 2014 foi inteiro dedicado ao projeto, e a execução durou de fevereiro a março deste ano.

"Como eu queria fazer a integração entre arquitetura, espaços e as pessoas, teria que pensar em algo que instigasse nas pessoas a vontade de participar", explica Ana Rosa. A arquiteta escolheu quatro itens de ação que pudessem ser compartilhados - bancos com livros para serem trocados, mesa para jardinagem, horta e uma bicicleta sustentável que gera energia elétrica. A partir das pedaladas, a energia mecânica se transformava em elétrica pelo alternador, e era então armazenada em uma bateria que, por sua vez, alimentava o poste de luz feito por um tubo de PVC.

Após regulamentar junto ao CAU/ AL o projeto paisagístico e elétrico, a arquiteta começou a montagem ainda sozinha. Não demorou, porém, para que vizinhos e frequentadores da área contribuíssem com o espaço, trazendo ou levando materiais, propondo soluções e interagindo com as estruturas.

A intervenção temporária tomou forma na avenida Aristeu de Andrade, envolvida por uma grande estrutura de metal, semelhante a um biombo, e com espaços internos voltados aos pontos de ação. Tudo foi feito com materiais doados, reciclados ou reutilizados. A armação metálica, por exemplo, foi fabricada por seu Beto, um serralheiro que após os dois meses que durou a instalação reaproveitou o material em outros trabalhos.

Nesta experiência em Maceió, a arquiteta conta como recebeu sugestões diversas dos colaboradores do espaço: uma forma criativa de usar determinado material, uma disposição diferente dos espaços, uma saída para girar os pedais das bicicletas automaticamente com ímãs - esta última não concretizada, por dificuldade em encontrar os materiais. "O rapaz que deu essa ideia ficou de testá-la na casa dele, estou curiosa para saber se ele a realizou", acrescenta.

A construção colaborativa delineia seus contornos próprios, e isso é o mote da arquiteta: pensar global, agir local. Ana Rosa destaca as discussões que têm sido feitas, principalmente nas grandes cidades, sobre o direito e a posse à cidade: "Isso é global. Já o meio local tem suas especificidades e se apropria desses discursos de formas distintas".

Ainda que em Maceió persista um contexto social de exclusão e de privação de uso do espaço bastante acentuado, a experiência da Passagem Pop-Up na cidade reforça tanto o caráter coletivo da arquitetura quanto a possibilidade que ela tem de proporcionar mudanças positivas feitas em conjunto com quem usufrui desses locais.

Nesse aspecto, destaca a contribuição das pessoas de origem mais simples, que estão mais acostumadas a uma dinâmica de participação e ajuda mútua em espaços como o das favelas. "O trabalho da arquitetura não é ensimesmado. As pessoas têm conhecimentos sobre os espaços que não são restritos aos arquitetos, mas são válidos e devem ser ouvidos", sacramenta a arquiteta.



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