Novos aeroportos no Brasil: Projetos recentes apresentam uma nova imagem e programa de atividades para os terminais de passageiros | aU - Arquitetura e Urbanismo

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Novos aeroportos no Brasil: Projetos recentes apresentam uma nova imagem e programa de atividades para os terminais de passageiros

Por Luiz Florence
Edição 243 - Junho/2014

A escolha por empresas de grande porte, capacidade financeira e conhecimento técnico em construção civil pautou a estratégia estatal. Já para garantir a modernização da operação aeroportuária, o edital previu a inclusão de um parceiro operador dentro dos consórcios. Empresas internacionais com experiência em administração de aeroportos pelo mundo, como a Airport Company South Africa (ACSA), a alemã Munich Airports, e a francesa Egis Aviar entraram em consórcios para disputar as concorrências, como também ofereceram serviços de operação aos demais consórcios. Tudo leva a crer que os planos da Infraero, que resguardou 49% das novas concessões, passam pela absorção de experiência técnica nas novas práticas e tecnologias, bem como de entender como administrar um aeroporto se tornou um negócio completamente diferente do modelo brasileiro, ainda permeado pelo raciocínio pragmático dos militares, que interviram na operação aeroviária por décadas.

Depois de um hiato de cerca de 30 anos, a construção civil brasileira volta a se deparar com o programa de um novo aeroporto. Mas não como um aeroporto fora pensado no passado. Nesses anos, em mercados internacionais, sistemas de processamento de bagagens substituíram o trabalho manual em mecanização coordenada por softwares e máquinas especializadas. O sistema de automação predial controla quase todos os sistemas mecânicos e elétricos da edificação, desde sprinklers ao controle de iluminação e reúso de água. Outro sistema central de gestão computadorizada controla a operação aeroportuária, regulando sistemas informativos de voo, sistemas de sonorização para informes aos passageiros, totens de autoatendimento, chegando à gestão informatizada dos edifícios-garagem.

Não por acaso, durante as décadas de 1990 e 2000, a arquitetura dos aeroportos coincidiu com o apogeu da arquitetura high-tech. Renzo Piano desenvolve o projeto do icônico aeroporto de Kansai (1988/1994), enquanto Norman Foster desenvolveu no relativamente menor aeroporto de Stansted, em Londres (1981/1991), uma narrativa sobre a beleza da tecnologia, e materializou o discurso sobre o impacto dos avanços tecnológicos na vida humana. Mais recentemente, o terminal 4 do aeroporto de Barajas, em Madri (2006), projetado pelo arquiteto Richard Rogers, renovou o fôlego do estilo, bem como estabeleceu uma referência para novos terminais pelo mundo. Apesar de primarem pela imagem impactante, tais aeroportos são mais relevantes por estabelecerem uma nova escala de projeto e operação: enquanto em Guarulhos, o maior aeroporto do Brasil, transportará, com o recém-inaugurado terminal 3, cerca de 40 milhões de passageiros (hoje processa cerca de 35 milhões por ano), somente o novo terminal de Barajas processará, em 2020, cerca de 50 milhões, com a expectativa de ampliar sua operação para 70 milhões. O terminal de Bombaim espera transportar cerca de 50 milhões de passageiros, e o novo terminal de Shenzhen ampliará em 45 milhões de passageiros sua capacidade. Ainda em fase de projeto, de autoria do inglês Nicholas Grimshaw, Nordic Office (Oslo) e Haptic, o aeroporto de Istambul será inaugurado em 2018 com capacidade para 80 milhões de passageiros por ano, com a previsão de expansão para 150 milhões, tornando-se o maior terminal do mundo.

Pequi Filmes/Arquivo GRU Airport
O Terminal 3 do aeroporto de Guarulhos foi inaugurado em maio de 2014, assinado pelo escritório Engecorps-Typs

Divulgação: Consórcio ABV - Aeroportos Brasil Vira Divulgação: Consórcio ABV - Aeroportos Brasil Vira
Divulgação: Consórcio ABV - Aeroportos Brasil Vira
Empresas internacionais especializadas foram mobilizadas para preencher uma lacuna de experiência em projetos em aeroportos: em Viracopos, a holandesa Naco desenvolveu tanto o projeto básico do novo terminal de passageiros, quanto o plano diretor original da expansão do aeroporto, que o levará, em aproximadamente 20 anos, a processar mais de 70 milhões de passageiros por ano, tornando-se o maior aeroporto da América Latina e um grande hub internacional

Neste contexto, a função do arquiteto passa a ser mais do que definir um partido estético ou espacial para o aeroporto. O manejo de uma quantidade imensa de informações e a compatibilização de inúmeros projetos gerados por uma série de disciplinas é uma das suas responsabilidades. Elétrica, hidráulica, climatização, sistemas eletrônicos, pavimentação e projeto viário, iluminação, paisagismo, comunicação visual e mobiliário convergem em um único espaço.

Empresas internacionais de projeto foram mobilizadas para preencher uma lacuna de experiência do mercado brasileiro de projetos em aeroportos. Em Viracopos, a empresa holandesa de projeto especializado em aeroportos, a Naco (Netherlands Airports Consultants B.V.) desenvolveu tanto o projeto básico do novo terminal de passageiros, quanto o plano diretor original da expansão do aeroporto, que o levará, em aproximadamente 20 anos, a processar mais de 70 milhões de passageiros por ano, tornando-se o maior aeroporto da América Latina e um grande hub internacional. Em Guarulhos, há anos o maior aeroporto do País, ainda que a empresa de projetos seja brasileira, a empresa de projetos de engenharia e arquitetura Engecorps foi recentemente adquirida pela espanhola Typsa, cujo aparato técnico permitiu o desenvolvimento de todas as fases de projeto do novo terminal dentro de sua estrutura interna. Em outra escala, profissionais estrangeiros, vindos principalmente de Portugal, Inglaterra e Espanha, motivados pela crise europeia e pela falta de empregos, preenchem quadros nos escritórios brasileiros de projeto.

Em contraposição a Guarulhos, o projeto executivo de Viracopos contou com diversas terceirizações. As empresas de projeto Themag e Intertechne, de vasto currículo em grandes obras de infraestrutura viária, como rodovias, usinas hidroelétricas e barragens, não dispunham de quadros de arquitetos em suas equipes para abarcar todo o projeto. Arquitetos brasileiros e estrangeiros foram assimilados pelas empresas de projeto, bem como escritórios de arquitetura com experiência em projetos de grande porte, como shopping centers e instalações industriais foram chamados, a exemplo do escritório Alcindo Dell'Agnese, de São Paulo. A PJJ Malucelli, que já havia desenvolvido projetos para os aeroportos Afonso Pena, Confins e Guarulhos, ainda na gestão Infraero, também teve participação neste projeto, cujo desafio foi tropicalizar o projeto holandês para padrões e normativas brasileiras - muitas das quais, segundo os próprios arquitetos e engenheiros projetistas, não estão devidamente adaptadas às especificidades de um projeto de aeroportos.

Ao sair do domínio estatal da Infraero, as novas construções tiveram de se adaptar às normas, as quais muitas vezes ofereciam problemas de adaptação desnecessários, pela falta de normas específicas para tais construções.


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