Projeto de Vigliecca & Associados para a Arena Castelão, em Fortaleza, une a tecnologia da estrutura metálica ao respeito à brisa | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Vigliecca & Associados . Fortaleza, CE . 2010/2013

Projeto de Vigliecca & Associados para a Arena Castelão, em Fortaleza, une a tecnologia da estrutura metálica ao respeito à brisa

Por Ubiratan Leal Fotos Leonardo Finotti
Edição 235 - Outubro/2013

Projeto do Castelão usou estrutura metálica como elemento de união entre o estádio original e as tecnologias incorporadas na modernização, além de permitir um uso melhor da brisa da capital cearense para melhorar o conforto térmico dos torcedores

Se um edifício fosse apenas um elemento físico, o trabalho do arquiteto seria muito mais simples. Ele visualiza a obra, passa para o papel (ou computador) para transformá-la em um projeto, avalia-se a viabilização tecnológica, junta-se uma série de materiais e pronto: eis uma edificação. Não, não é isso. A parte física talvez seja a mais simples, está toda sob controle do profissional, está toda no computador. O difícil é lidar com os elementos intangíveis que giram em torno daquela obra. A interação com o usuário. A integração com o ambiente. A capacidade de se misturar às milhares de histórias pessoais que terão aquele edifício como cenário.

Se todos esses fatores externos são delicados para uma edificação comum, para um estádio de futebol que passa por renovação é particularmente complexo. O motivo principal: o torcedor de futebol, o usuário daquela instalação, é um chato por natureza. Orgulhosamente chato, diga-se. Tocar no estádio de seu time é mexer com sua memória afetiva, com seu passado. E, mesmo que uma renovação seja necessária e obrigatória, é preciso navegar nessas águas turbulentas. Foi esse o tamanho do desafio dos arquitetos do Vigliecca & Associados ao projetar a modernização do Castelão, arena de Fortaleza para a Copa do Mundo de 2014.

O tempo foi o elemento intangível mais importante. Para frente, era a necessidade de dar à arena uma cara nova, moderna, compatível com o terceiro maior estádio da Copa do Mundo de 2014. Para trás, o tempo se fazia presente na necessidade de respeitar os 40 anos de relação do Estádio Governador Plácido Castelo com o torcedor cearense, e de buscar interfaces entre as soluções modernas com as tecnologias aplicadas em 1973.

Trabalhar em cima da edificação já existente foi, em grande parte, mais difícil do que projetar uma completamente nova. "Ter uma parte já pronta parece que simplifica o projeto, mas é um complicador pesado. Tivemos de inventar muita coisa no meio do processo para nos adaptarmos ao que já estava lá", conta Hector Vigliecca.

Por isso, elementos multifuncionais, que servissem de solução para vários problemas, foram fundamentais. Caso das 60 agulhas metálicas curvas de 50 m de altura e 25 t cada que cercam a nova fachada. posicionadas a cada 14 m, foram o coração do projeto. Esteticamente, são o elemento mais marcante da nova fachada, dando um ar moderno ao novo Castelão. mas essa estrutura tem duas outras funções, fundamentais para completar as diversas necessidades do projeto de renovação.

Os pilares servem de apoio aos tirantes que sustentam a cobertura. pelo modo como foi concebida, essa cobertura fica suspensa, não se conectando diretamente com os painéis da fachada. Com isso, cria-se um vão por onde a tradicional brisa de Fortaleza pode circular. A isso, soma-se a especificação detalhada do material da cobertura, com telha de alumínio, materiais isolantes e uma manta branca, para refletir o calor. A soma do material com a ventilação torna as arquibancadas do estádio um lugar termicamente confortável, algo nem sempre possível quando se está em uma capital nordestina.

Essas agulhas também têm papel importante na união de tecnologias antigas e novas. Elas são alinhadas com os pilares dos gigantes de concreto do projeto original, elaborado no final da década de 1960. Na época, era a solução mais comum, mas que tinha como efeito colateral o excesso de vibração das arquibancadas em balanço. A nova estrutura metálica trabalha nesse problema: as agulhas foram conectadas aos pilares de concreto, recebendo parte dos esforços e absorvendo as vibrações causadas pela torcida.

Apesar de teoricamente simples, a solução se mostrou complexa. As peças metálicas são iguais, e precisam trabalhar com geometrias precisas para se encaixarem. No entanto, não era esse o padrão de execução dos pilares de concreto originais. "Nos anos de 1960 e 1970, a margem de erro quando se trabalhava com estruturas de concreto era de cerca de 10%. A distância entre um pilar e outro chegava a variar até 70 cm, 1 m de um para o outro", comenta Hector. "Quem via de longe não tinha como perceber 1 m de variação, mas fez uma diferença enorme na hora de fazer a conexão com a nova estrutura metálica."

O jeito foi criar uma peça metálica que faria a interface entre a estrutura de concreto e a de metal. Esse elemento se prende ao pilar original e tem diversos pontos nos quais era possível ser feita a conexão com a agulha. Desse modo, o projeto pôde unir as estruturas novas e velhas sem ter um alinhamento 100% preciso, mas de modo que o desempenho do sistema não fosse comprometido.

O cuidado em manter a estrutura original vem na orientação inicial de não fazer um estádio novo em Fortaleza, mas aproveitar o que já existia. Isso reduziu o custo (518 milhões de reais, um dos menores custos entre os estádios da Copa 2014) e o tempo (20 meses) de execução. Além disso, permitiu que o torcedor cearense ainda reconhecesse, naquele estádio, o anterior. Sobretudo porque, de dentro, o anel superior foi praticamente mantido. Uma das poucas alterações foi rebaixar o gramado em 3,40 m e eliminar a pista de atletismo, abrindo espaço para que um novo anel inferior fosse construído, aumentando a capacidade do estádio (de 60 mil para 64 mil) e aproximando os torcedores do gramado.

A única alteração foi em um segmento do anel em que ficam as tribunas. No projeto original, esse setor já era destacado por duas frestas do restante das arquibancadas. Como as intervenções exigidas pela Fifa são muito específicas nessas áreas VIP, com camarotes, tribunas, imprensa e zona mista, os arquitetos decidiram demolir aquela área e construir uma nova. "Era ilógico manter as instalações originais para atender às solicitações da Fifa", diz Ronald Werner, diretor do escritório Vigliecca & Associados e membro da equipe que trabalhou no Castelão. "Isso foi feito no Mineirão, mas lá era tombado e não havia muita escolha. Não era nosso caso, e foi melhor fazer algo novo do que tentar encaixar camarotes que nunca iam ficar 100% na configuração original", explica.

Do lado de fora, esse novo setor é facilmente identificável pela fachada. A arena é cercada por 12 mil m² de painéis de aço expandido, menos na entrada principal, onde foram instalados 2,9 mil m² de vidro. Além de aumentar a pompa dessa área, a fachada de vidro tem duas outras funções: do ponto de vista técnico, os painéis de vidro perfurados tiram partido do vento de Fortaleza para melhorar o conforto térmico. Do ponto de vista de relação do usuário, permite ao visitante visualizar a estrutura original pelo material translúcido, mantendo um vínculo com o antigo Castelão.

Antes de chegar a essa entrada, o torcedor terá passado por uma enorme praça. Adotando um conceito já comum em grandes instalações esportivas pelo mundo, o projeto do Castelão inclui uma plataforma de 73,8 mil m² em seu entorno. Essa área elevada está no nível intermediário do estádio, permitindo que pequenas rampas possam levar o visitante aos setores do anel superior ou inferior do estádio. Além disso, a área permite que a Fifa instale quiosques de seus patrocinadores para ações comerciais durante a Copa do Mundo.

Abaixo da plataforma, há um mundo à parte: sede da Secretaria de Esportes do Ceará, Museu do Futebol, estacionamento e, eventualmente, lojas. Essas instalações entram no contexto do complexo do Castelão, que também deve incluir hotel e um centro olímpico, e da região, que tem se transformado em um novo vetor de crescimento de Fortaleza. O estádio está localizado em uma área de baixa densidade da capital cearense e a aposta do governo é que tenha muita procura em breve, aproveitando a valorização dos bairros em torno do Parque do Cocó, a poucos quilômetros dali.

TIME, WIND AND STEEL
On projecting the modernization of the Castelão, the Fortaleza arena for the 2014 World Cup, architects at Vigliecca & Associados dealt with time, as the most important element. Ahead, was the need of giving the arena a new, modern look, suitable for the third largest 2014 World Cup stadium. Behind, time was present in the need of respecting the 40 year relationship which the Governador Plácido Castelo stadium has held with cearense fans, and of seeking interfaces between the modern solutions and those technologies applied in 1973. Multifunctional elements, which would serve as a solution for a variety of problems, were fundamental. Such as the 60 curved metal rings 50m up and 25t each, which circle the new facade. Spaced 14m apart, these were the heart of the project. Aesthetically, these are the most remarkable element of the new facade. However, this structure has two other fundamental functions to complete the needs of the renovation project. The pillars serve as support to the struts that raise the roofing cover. In the manner it was conceived, this roofing cover is suspended, without being directly connected to the panels of the facade. As such, a gap is created, through which the traditional Fortaleza breeze can circulate. These rings are also aligned with the gigantic concrete pillars of the original project, receiving part of the loads and absorbing the vibrations caused by the fans. On adopting a concept quite common in large sports installations around the world, the Castelão project includes a 73,800 m² platform circling all around. Below the platform lies a world apart: the headquarters of the Ceará sports secretariat, a football museum, a parking garage and, possibly, shops.



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