SPBR na Suíça: escritório de Angelo Bucci projeta edifício residencial com escritório no térreo e via pública que corta o lote e liga duas ruas | aU - Arquitetura e Urbanismo

Residencial

SPBR + Baserga Mozzetti . Suíça . 2008/2013

SPBR na Suíça: escritório de Angelo Bucci projeta edifício residencial com escritório no térreo e via pública que corta o lote e liga duas ruas

Por Rafael Urano Frajndlich Fotos Nelson Kon
Edição 232 - Julho/2013

SPBR + Baserga Mozzetti Architetti . Lugano, Suíça . 2008/2013

A ousadia estrutural do escritório SPBR chega à Suíça: um pequeno edifício residencial de térreo comercial, aberto ao público, com laje de recortes e reentrâncias que distribuem o programa e sintetizam a grande sintonia entre projetistas brasileiros e suíços

Angelo Bucci e sua equipe, o SPBR, inauguram sua primeira obra em terras estrangeiras. A Casa Pico, em Lugano, na parte italiana da Suíça, tem um desenho anguloso de planta em continuidade ao experimentalismo formal do escritório. Com seis andares e um térreo comercial, é testemunho de uma grande colaboração entre profissionais suíços e brasileiros.

O prédio foi iniciativa de Andrea Pedrazzini, engenheiro local que possuía com sua família um terreno na cidade, no qual decidiu erguer um edifício aproveitando o coeficiente máximo permitido pelo lote. Atuando como proprietário e engenheiro da obra, Andrea chamou uma equipe de arquitetos suíços e fez uma primeira proposta para o terreno. "Mas queríamos algo diferente. Foi por isso que chamamos o Angelo."

Andrea já conhecia o arquiteto brasileiro, e juntos já tinham projetado na Suíça, México e Estados Unidos.

Desta relação de mais de cinco anos, no entanto, nunca tinha saído uma construção. Na ocasião em que o próprio Andrea teve de erguer um prédio, surgiu a oportunidade de chamar o SPBR. O escritório de arquitetura da primeira proposta, por sua vez, não foi retirado do trabalho. O Bazerga Mozzetti Architetti foi mantido como escritório local e interlocutor de Angelo e sua equipe, constituindo uma equipe híbrida. "O SPBR tem uma linguagem do espaço público, uma preocupação com a qualidade da luz e materiais que é muito próxima do modo como trabalhamos aqui na Suíça, mas com muito mais liberdade", diz Nicola Bazerga, titular do escritório local, um nome proeminente da nova arquitetura do Ticino, região itálica da Suíça que conta com grandes expoentes de arquitetura como Mario Botta, Luigi Snozzi e Aurelio Galfetti.

Desse time, resultou a Casa Pico: uma estrutura feita por um sistema de paredes em "T" conjugadas com linhas de pilares soltos, entre os quais os espaços das lajes se organizam. "A estrutura é muito rigorosa", diz Angelo. "E, a partir daí, as lajes podem ter a forma que for."

No terreno de geometria irregular, incidia uma legislação de recuos rigorosa, que resultou em uma área construível compacta e recortada. A planta final não é um molde do recuo, mas é certo que nele se amparou para os desenhos iniciais. Recortes e reentrâncias distribuem o programa: dois apartamentos por andar que podem ser convertidos em um só. Os ambientes se desdobram pelo desenho de lajes e estrutura: entre as paredes estruturais, no lado oeste do prédio, uma unidade com quarto, cozinha e sala. No lado leste, tendo somente uma parede limítrofe, outros quartos e salas. Quando são dois apartamentos, trata-se de uma simples divisão de casas, mas nos andares de planta unificada, tem-se uma grande sala de entrada que se distribui em dois núcleos. "O casal fica de um lado e as crianças, com uma salinha delas, do outro", explica Angelo.

Essas decisões de rigor na estrutura e liberdade na planta são conhecidas para os acompanhantes da obra do SPBR, mas na Suíça tiveram um ar de surpresa: "Angelo é muito exigente na estrutura", diz Andrea, responsável pelo cálculo estrutural. "É um desenho muito esbelto, e tive de me esforçar para fazer o que a estrutura permite, aqueles balanços enormes." Para Nicola, por outro lado, chamaram a atenção os recortes de laje: "Nós trabalhamos aqui com o retângulo, o quadrado, com formas mais pitagóricas", admirando como as "formas arbitrárias interagiram bem com o programa". Nos interiores, a paleta sóbria compõe-se com os mobiliários desenhados também pelo SPBR, com estruturas símiles àquele sistema de empenas que sustenta o prédio.

Nos fechamentos do desenho, os desafios técnicos começaram a se tornar mais prementes. Aqui, Angelo faz questão de ressaltar a diferença de projetar em países nos quais a temperatura fica abaixo de zero, onde é compulsório um sistema de aquecimento que isole completamente exterior de interior. Com a empolgação de quem aprendeu muitas coisas novas com o projeto, Angelo explica como sua empena de concreto que continuava do exterior ao interior precisava ser interrompida para evitar a ponte térmica, fenômeno que faz os materiais se resfriarem de modo uniforme: como a empena recebe frio do exterior, ela resfria o interior, causando umidade, mofo e outras patologias. Assim, dentro e fora eram coisas distintas e bem vedadas: vidros triplos nos caixilhos, sistemas de ar-condicionado sofisticadíssimos para a troca de ar e mesmo uma sonda geotérmica enterrada 250 m no terreno, que faz as trocas de temperatura do interior do prédio com a terra profunda, mais aquecida.

Talvez por essas exigências, um aspecto do prédio difere um pouco de outros projetos do SPBR: enquanto geralmente as casas feitas no Brasil se organizam como somas de volumes soltos, aqui é uma sucessão de planos: um pano de vidro na fachada, outro de ripas de madeira e, em outra face, venezianas de alumínio controladas desde o interior das unidades. Todos do chão ao teto. No interior, a mesma regra: todas as paredes determinam planos e não caixinhas, volumes soltos. Se a planta é feita de recortes, as elevações são sempre contínuas, empenas legíveis de materiais quando vistas do lado de fora. As varandas são resolvidas do mesmo modo, como planos retangulares soltos um dos outros.

"O mais importante, no entanto, é o térreo, isso foi o que mais chamou a atenção deles", diz Angelo, fazendo questão de apontar um ponto chave de sua contribuição. No térreo, fica um pequeno volume para escritórios e um jardim, pelo qual se pode cruzar de uma rua até a outra. Essa via é aberta ao público.

"É difícil emplacar isso no Brasil, mas também é difícil na Suíça", explica Angelo. "Aqui, todos os prédios se fecham com grades, criam seus jardinzinhos", confirma Andrea, igualmente animado com essa característica de projeto. O uso dessa viela foi imediato. Segundo o engenheiro, muitas pessoas a utilizam para ir de um lado ao outro. Angelo comemora, colocando esta como uma parte da escola brasileira instalada ali na Suíça, remontando à tradição de nossa arquitetura de enuviar o espaço do lote com a parte externa, que tem grandes exemplos nas casas paulistas dos anos de 1960 e 1970, de Paulo Mendes da Rocha, Vilanova Artigas, entre outros tantos.

A história de construção da Casa Pico é uma contribuição híbrida de arquitetura brasileira na Europa. Lugano é pequena, com pouco mais de 60 mil habitantes. Não fosse pela paisagem tão diferente, poderia ser um cenário calmo parecido com o de Orlândia, cidade natal de Angelo Bucci, onde o arquiteto tem várias obras. Angelo, no entanto, nega semelhanças, ressaltando somente o fato de que "a distância lembrou-me as primeiras obras que fiz em Orlândia de meu escritório aqui em São Paulo. Senti de novo essa angústia de estar longe da obra, mas vi como essa separação, neste caso, foi positiva". Angelo atribui esse afastamento como salutar por ter definido bem o que cada um fazia pelo projeto, viabilizando a ótima relação entre todas as partes. "Nossa relação funcionou muito bem, não obstante as distâncias", diz Nicola, "Distância existe mesmo quando não há troca de ideias. E isso existiu aqui."

Cheio de diálogos e personalidade, a Casa Pico faz o skyline de Lugano parecer estar a poucos quilômetros de São Paulo.

SHORT DISTANCE
Angelo Bucci and his team, the SPBR, inaugurated their first construction job on foreign soil. Casa Pico, in Lugano, Switzerland, has an angular blueprint design in continuance of the formal office experimentalism. With six floors and a commercial ground floor, the structure of "Casa Pico" is made by a "T" structured wall system conjugated with loose lines of pillars, among which the floor spaces are organized. A terrain of irregular geometry led to a governance of rigorous receding areas, which resulted in a compact building area. The final layout is not a mold of the indenture, however, it is certain that the initial blueprints were resorted to. Indentions and reentrances distribute the program: two apartments per floor, which can be converted into only one. At the closings, the technical challenges became more pressing. Here, Angelo makes a point of distinguishing the difference of projecting in countries where the temperature falls below zero and a heating system that is completely isolated exteriorly and interiorly is compulsory. Perhaps, due to these requirements, one aspect of the building differs from other SPBR projects: while the houses made in Brazil are generally organized as the sums of loose areas, there is a succession of layouts here: a pane of glass on the outer facing, another with stripes of wood and, on another facing, metallic screening. Indoors, the same rule: the walls determine the layouts and not loose areas. On the ground floor, there is a small area for offices and a garden, by which you can cross from one street to the other. This crossing is open to the public - and was immediately used.



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