Angelo Bucci projeta salão de cabeleireiros e residência integrados em Orlândia, interior de São Paulo | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

SPBR . Orlândia, SP . 2007/2012

Angelo Bucci projeta salão de cabeleireiros e residência integrados em Orlândia, interior de São Paulo

Por Rafael Urano Frajndlich Fotos Nelson Kon
Edição 230 - Maio/2013

Casa em cima, um pequeno salão de cabeleireiro embaixo. Projeto misto transpira liberdade nas formas e nos espaços recortados

A obra é aparentemente despretensiosa: um pequeno salão de cabeleireiro na cidade natal de Angelo Bucci: Orlândia. O lote previa uma tipologia igualmente prosaica, no esquema da loja e sobreloja: no alto, a casa da cabeleireira e no térreo, seu local de trabalho.

"Angelo se mostrou muito empolgado. Acho que foi por nunca ter desenhado antes um salão de cabeleireiro", conta Lili, uma das proprietárias. De fato, o arquiteto não esconde o interesse que ele e a equipe do escritório SPBR tiveram ao desenhar um programa ao mesmo tempo especializado e frugal. "Queríamos trabalhar um volume onde loja e sobreloja não parecessem tão separados", explica Angelo, sobre como começou a desenvolver o projeto, enfrentando o desafio de redesenhar uma tipologia evitando as soluções usuais, nas quais marca-se bem o comercial do habitacional, utilizando algumas vezes materiais, plantas e acessos diferentes.

O resultado foi uma proposta íntegra que em todas as quinas trai a simplicidade do programa. O lote urbano na rua Seis é delimitado por uma empena de concreto armado no primeiro pavimento, com duas paredes inclinadas fechadas por vidros serigrafados. Este volume sombreia o térreo, livre, por onde se entra no lote e se encontra duas rampas, uma grande, à mostra ao lado do letreiro do cabeleireiro, pela qual se desce ao salão e outra, quase escondida, sobe para a residência.

O salão é um volume irregular, semienterrado, cheio de reentrâncias e pequenos espaços de apoio nas bordas do perímetro, e deixa uma ampla área central para corte e lavagem dos cabelos. Este pavilhão é iluminado pelo fundo do lote, que conta com um jardim vertical assinado pelo paisagista Raul Pereira.

Uma leve penumbra reina no centro desse espaço rebaixado. Alguns rasgos na laje permitem que a luz do sol entre em lugares específicos, como diante das penteadeiras do salão. O SPBR desenhou todos os móveis da obra, de compensado naval revestido de fórmica branca, criando um elegante mobiliário com espelhos, bancadas e gaveteiros para guardar esmaltes, secadores e toda a gama de equipamentos e produtos desses estabelecimentos. Para compor com os móveis de madeira, o escritório assessorou as proprietárias na escolha das cadeiras e volantes metálicos especializados. Arrematando o projeto, o arquiteto desenhou os detalhes da obra do zero, como puxadores de portas, ferragens e gradis.

A irregularidade do perímetro do salão destoa do ritmo da estrutura. Na realidade, o SPBR criou duas escalas de sustentação da obra. As duas empenas no limite do lote e três pilares de concreto armado sobem até o nível da residência, enquanto seis pilaretes metálicos se distribuem pelo espaço sustentando uma laje exclusiva do salão. Olhando o corte, fica claro que a estrutura que sustenta todo o conjunto não é a mesma da cobertura do salão: a laje de piso da casa está deslocada em relação à cobertura do cabeleireiro, o que cria uma defasagem das alturas, criando recortes de luz dentro da área de trabalho, tão irregulares quanto o desenho do espaço.

Sobe-se a rampa e tem-se a casa da cabeleireira, completamente independente do salão, ainda que no jogo plástico feito pelo SPBR tudo pareça integrado. Sobre a laje do cabeleireiro, tem-se um teto jardim aquático, tema já francamente trabalhado pelo SPBR e Raul Pereira em outros momentos, como na residência de Aldeia da Serra.

A ala residencial é elevada deste jardim, feita como um "U" em torno dele. No lado maior do "U" fica a circulação vertical (a rampa) e cozinha em linha, nas outras alas estão a sala e dois dormitórios. Aqui também as lajes são recortadas, definindo pelo jogo de reentrâncias três volumes soltos em torno do jardim aquático: um com escadarias, envidraçado, acessando as águas - é a sala. Outro de vidro serigrafado, flutuando sobre esse vazio central, com cozinha e serviços. Finalmente, uma empena de concreto veda a maior parte do último volume, dando privacidade aos quartos, cuja luz natural entra pelo alto por sheds de concreto. Pequenas janelas de formato quadrado, com folhas de madeira, rompem com a pureza dos planos e fazem pequenos enquadramentos da calma rua local de cidade de interior.

Não bastasse este complexo intercalar-se de lógicas formais, a equipe de Angelo recorta o mobiliário, as janelas, as lajes. O resultado é uma casa que precisa de certo tempo para que se consiga discernir cada uma de suas características. A palheta concisa de materiais, vista de fora do lote, pode dar uma falsa impressão de monotonia, o que cai por terra logo que se entra nesta híbrida concepção do SPBR. A sensação é de um todo coeso, contínuo e único.

Seja pela circulação em rampa, que deixa tão fluida a sucessão de pavimentos, seja pelo ritmo dos espaços entre pequenos e lineares, como o acesso e os vestíbulos com grandes salões e jardins (a sala da casa e seu jardim aquático, ou o salão de cabeleireiros e a sua vegetação vertical), o SPBR conseguiu mediar os conflitos de dois programas diferentes: casa e salão não têm seus espaços alinhados em planta. Enquanto a sala fica no fundo do lote, o salão fica ao centro, os blocos estão em lados diversos da composição; tem-se a impressão de que os dois núcleos poderiam ser organizados independentemente em diferentes terrenos.

O salão e a casa desenhados um sobre o outro em Orlândia fazem parte deste longo ensaio de edifícios de diversos programas nos quais o SPBR vem levando ao limite a beleza estrutural e a plástica do concreto feito in loco, com vertiginosas composições como a Casa em Ubatuba ou a harmoniosa composição de lajes, escada e piscina na Casa de Fim de Semana em São Paulo.

"No começo, chamei o Angelo para fazer só o meu salão", conta Lili, explicando que depois surgiu a ideia de se somar uma casa ao programa. O projeto deu então uma virada, e se tornou um desafio para a equipe do SPBR.

Orlândia, que desde os anos de formação de Angelo Bucci é uma singela cidade que recebe as mais elaboradas experimentações desse jovem arquiteto, ganha com o salão de Lili mais uma lição de como a arquitetura contemporânea pode ser arrojada, mesmo nos mais simples tipos de edificações.

RADICAL CUTS
The work is apparently unpretentious: a small hairdresser's salon in Angelo Bucci's hometown: Orlândia. "We worked the volume so that the ground floor and mezzanine did not seem so separated", explains Angelo. The urban lot in Seis Street was limited by a reinforced concrete gable in the first floor, with two inclined walls enclosed by serigraphy treated glasses. This volume makes shade for the ground floor, liberated, through which one enters the lot and finds two ramps, a bigger one, standing out beside the hairdresser's advertising sign, by means of which one descends to the salon while another, almost hidden, rises to the residence. The salon is an irregular, semi-buried volume, provided with concavities and small supporting spaces in the edges of the perimeter, leaving an ample central area for the cutting and washing of hair. It is illuminated from the back of the lot, provided with a vertical garden signed by Raul Pereira, the landscapist. Some cuts in the slabs allow the sunlight to enter specific areas, such as by the salon's dressing tables. The salon's covering slab is not the same serving as the floor in the residence: this echeloning of the heights creates light layers inside the penumbra of the working area. One climbs the ramp and finds the hairdresser's home. On the salon's slab there is an aquatic garden. The residential wing is elevated from this garden, forming a "U" around it. The concise palette of materials, when seen from outside the lot, may give a false impression of monotony, which fades away once one enters this hybrid conception by SPBR. The sensation is that of a coherent, continuous and unique whole.



Destaques da Loja Pini
Aplicativos