Biblioteca Brasiliana, com mais de 40 mil volumes da coleção de José Mindlin, é inaugurada no campus paulistano da USP com projeto de Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

São Paulo, SP . 2001/2013

Biblioteca Brasiliana, com mais de 40 mil volumes da coleção de José Mindlin, é inaugurada no campus paulistano da USP com projeto de Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb

Por Rafael Urano Frajndlich Fotos Leonardo Finotti
Edição 229 - Abril/2013

Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb . São Paulo, SP . 2001/2013

Um edifício para abrigar as 40 mil obras da coleção pessoal de Guita e José Mindlin. Mais de 12 anos de construção. O resultado: um novo caminho na Universidade de São Paulo que une espaços e conhecimento

Um novo caminho no campus, 40 mil novos caminhos nas estantes. Foi assim, buscando unir a arquitetura aos desejos do bibliófilo José Mindlin de disponibilizar seu acervo ao público, que nasceu o projeto da Biblioteca Brasiliana, oficialmente inaugurada dia 23 de março de 2013 em São Paulo em um conjunto de edifícios assinados pelos arquitetos Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb.

A Brasiliana agrega os acervos do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP) e da biblioteca pessoal de Guita e José Mindlin. O primeiro é um instituto interunidades criado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em 1962, que contém obras raras e correspondências de vários autores seminais no País. O segundo é a famosa coleção do empresário e bibliófilo, que fundou a Metal Leve, e de Guita, sua esposa, composta por mais de 40 mil títulos doados à USP.

Essa reunião foi formalizada por um complexo de 22 mil m² divididos entre salas de acervo, consulta, administração e restauro das obras, salas de aula, auditório, livraria e café. Os acervos das duas bibliotecas permanecem separados, mas com acesso único feito por uma grande esplanada coberta.

Esse acesso é também conexão: une duas ruas, uma por onde se abre a maior parte das unidades do campus - letras, história, ciências sociais, arquitetura, engenharia - e outra onde estão os prédios administrativos da reitoria, os edifícios de habitação e o bandejão, o restaurante universitário.

Uma vez na esplanada, toma-se uma rua interna de circulação pelos programas do edifício, sejam os compartilhados, como o auditório - feito como um enorme tambor de concreto -, a livraria e cafeteria, sejam os programas de cada biblioteca. A via interna se articula de modos diferentes com cada acervo, refletindo as diferentes naturezas do sistema de acesso. O IEB tem uma biblioteca mais aberta ao público: pode-se de fato ter acesso aos originais mediante um trâmite rápido. Assim, as estantes de livros podem ser vistas desta rua interna, organizadas em linha junto com os outros programas que compõem a rotina do IEB: salas de aulas, reparos de livros e uma grande área de consulta, posicionada logo abaixo das lajes de acervo.

Do outro lado, na Biblioteca Mindlin, o acesso é mais restrito. A coleção será aberta para consultas, mas apenas mediante autorizações. O processo de digitalização das obras é parte do esforço para difundi-las sem comprometer a condição dos livros - aqui está, por exemplo, a primeira edição do Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, do O guarani, de José de Alencar e de A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, além de raridades como um livro do cartógrafo italiano Montalboddo, de 1508, em que se fez referência impressa sobre a viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil pela primeira vez, e os relatos de viagem de Hans Staden, de 1557, uma primeira edição encadernada em pergaminho, a única do mundo.

A condição mais reclusa dessa parte da coleção resultou em uma arquitetura distinta: a rua interna chega a um grande átrio marcado por uma silenciosa penumbra. No centro, ao olhar para cima, três grandes mezaninos organizam a biblioteca: pode-se ver o acervo que pertenceu ao José e à Guita Mindlin disposto em estantes e fechado por um pano de vidro. "É um cofre", diz Rodrigo Mindlin Loeb, neto dos bibliófilos e um dos autores do projeto. De fato, somente o pessoal técnico pode entrar nessa ala, climatizada e fechada ao exterior. Mas que assim, vista do átrio, parece tão perto e acessível a todos. A cobertura metálica - que passa por todos os edifícios e os une - e suas perfurações feitas na parte central garantem o clima de penumbra apropriado aos livros, bem como certo acesso à luz natural na biblioteca.

As diferentes tipologias enriquecem o conjunto arquitetônico ao mostrar modos de construir esta histórica relação dos homens e livros, atualizando o tema da biblioteca, vivo dentro da arquitetura: afinal, não se pode perder de vista a importância de bibliotecas como a de Alexandria, a do Vaticano e, recentemente, as do Congresso de Washington. Na própria literatura, a biblioteca é um tema recorrente, como no conto de Jorge Luís Borges, A biblioteca de Babel, ou no livro de Umberto Eco, O nome da rosa.

Eduardo de Almeida, por um lado, lembra que livros são delicados - mas, por outro, confessa admiração pela força dos livros através dos tempos: "Eles duram, não? Foram feitos há tanto tempo, são sensíveis, mas estão aí, em nossas mãos", compara. Esse caráter dúbio dos livros, de serem frágeis, mas duráveis, juntamente com o caráter literário paradigmático das bibliotecas, fez com que os livros fossem eleitos como a métrica do prédio. "Os pés-direitos são, na verdade, a soma de sete estantes de livros", explica Rodrigo. "Os livros estão em primeiro plano, depois vêm as alas de consulta e administração e, finalmente, a fachada, eventualmente protegida por brises soleil".

Nesse contexto, não é surpresa que a própria história da construção da biblioteca tenha toques literários. Ao final dos anos de 1990, começou a epopeia de José Mindlin na intenção de doar seus livros. Sua simpatia pela Universidade de São Paulo o fez articular o projeto de construir um edifício dentro do campus. A gestão do período anuiu, concedendo o terreno. Depois de alguns anos, o IEB, então dirigido por István Jancso, começou conversações para unificar em um só edifício o acervo de Mindlin e do instituto. A partir daí, inicia-se uma grande empreitada para conseguir levantar fundos, tanto dentro da universidade quanto por leis de incentivo à cultura a instituições públicas e privadas.

Tal processo não foi feito sem empecilhos, com momentos em que o acreditar em um projeto foi mais forte - caso do início da construção, quando Rodrigo, com pouca verba em mãos, chamou um mestre de obras de confiança e formou uma equipe que começou a fazer a limpeza do terreno e as fundações por conta própria, dentro do escritório de arquitetura. Depois, com a chegada da construtora, o edifício foi erguido aos poucos, seguindo as oscilações de gestões dentro da universidade - foram três reitores - e o triste falecimento de José Mindlin, que não viu a Brasiliana pronta.

Passados todos os percalços, a Biblioteca Brasiliana abriu suas portas dia 23 de março. Ainda é somente uma parte, pois as obras da ala do IEB estão em fase de finalização. Mas seu caráter de ampla abertura à cultura já está apto a se realizar: a localização no campus - sugerida pelo próprio José Mindlin em 1999 - é alinhada com as unidades de humanidades. Mas o acervo é tão grande que deve atrair alunos de outros cursos. "No universo da cultura, o centro está em toda parte", disse Miguel Reale, ao estabelecer o lema da USP. Pois a Biblioteca Brasiliana insere-se nesse cenário de múltiplos conhecimentos, histórias e caminhos para dar ainda mais força à posição de referência da Universidade de São Paulo; para mostrar que a cultura ainda tem seu espaço na sociedade.

DIFFERENT READINGS
One new path on campus; 40 thousand new paths on the shelves. In seeking to join architecture to the bookworm José Mindlin's desire to make his collection of books available to the public, the project of the Biblioteca Brasiliana (Brazilian Library) was established, a building complex with 22 thousand m² signed by architects Eduardo de Almeida and Rodrigo Mindlin Loeb. In the project, two libraries are joined together: that of the USP Institute of Brazilian Studies (IEB) with the personal library of Guita and José Mindlin, consisting of over 40 thousand titles, donated to the Universidade de São Paulo. The two libraries collections remain separated, with access made through a large plaza. This access is also a connection: it joins two streets, one facing most of the campus' units and the other where the Deanship's administrative buildings are. IEB has its library more open to the public: one may in fact have access to the original books by means of a simple and fast formality. On the other side, at the Mindlin Library, access is more restricted, open to consulting by means of authorizations. The more secluded condition resulted in a distinctive architecture: three large rings organize the library: one may see the entire collection that belonged to José and Guita Mindlin disposed in seven levels of shelves, enclosed by a glass pane. "It is a safe", says Rodrigo. The metallic cover - that comprehends all the buildings and joins them -, and the central part perforations assure an ambiance appropriated for books, as well as some access to natural lighting.

Vídeo: Biblioteca Brasiliana, parte 1: Arquitetura de uma ideia

Arquitetura de uma Idéia from INTERMEIOS fauusp on Vimeo.

Vídeo: Biblioteca Brasiliana, parte 2: Elementos estruturais

A Casa dos Livros: elementos estruturais do edifício from INTERMEIOS fauusp on Vimeo.



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