Brasil Arquitetura projeta Praça das Artes no Centro de São Paulo | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Brasil Arquitetura + Marcos Cartum . São Paulo, SP

Brasil Arquitetura projeta Praça das Artes no Centro de São Paulo

Por Rafael Urano Frajndlich
Edição 227 - Fevereiro/2013

Edifício cultural projetado pelo Brasil Arquitetura, feito nas sobras de terreno no Centro de São Paulo, vira referência na paisagem paulistana

Um gigante de concreto surge no Centro de São Paulo. Monolítico, colorido e com a textura ímpar do concreto armado erguido em ripas, o conjunto da Praça das Artes, novo projeto assinado pelo Brasil Arquitetura, no qual a Secretaria Municipal de Cultura vai abrigar instalações de música e dança, se impôs na paisagem do centro histórico crescendo de dentro de um miolo de quadra para ganhar, com 29 mil m² e seus longos braços de cimento, as margens do quarteirão e se abrir ao Vale do Anhangabaú.

O programa dado aos arquitetos era trivial, eminentemente apoio ao Teatro Municipal: salas de ensino de música e dança, auditórios, e instalações sofisticadas e amplas para abrigar profissionais. O quarteirão escolhido não foi fortuito: é onde está o casarão do Conservatório de Música de São Paulo. A área do terreno era sobretudo uma estreita somatória de lotes, pequenas desapropriações muito próximas de grandes edifícios vizinhos, como o Cine Marrocos e o edifício comercial CBI-Esplanada. "O projeto é moldado nos prédios vizinhos", diz Luciana Dornellas, integrante da equipe de projeto do Brasil Arquitetura, ao mostrar a complicada e angulosa planta do complexo.

A distribuição de espaços se aproveita das linhas livres deixadas pelos lotes. O térreo é completamente livre, podendo-se circular pelo miolo da quadra como se fosse uma grande praça. No primeiro andar, ao centro da intervenção, tem-se um núcleo que serve como sala geral de recepção, com um grande restaurante-café que distribui alunos, músicos e dançarinos pelos edifícios.

Outro fator determinante no resultado final foram as idas e vindas de desapropriações de terrenos feitas pelo município. O projeto teve vários acréscimos devido à abertura de novos lotes; desapropriavam-se casas vizinhas, resultando em outro volume que integraria a estrutura geral do conjunto. Dessa maneira, o projeto foi literalmente surgindo aos poucos no quarteirão - e a versão final não era previsível nem para seus autores. O térreo livre sempre se manteve, bem como a lógica de criar faces para os perímetros do quarteirão e contrastar o pesado concreto com as praças livres.

Esse assentamento no solo, esse novo térreo, pode ser confundido como uma obra de engenharia corriqueira - mas está longe disso, nas condições enfrentadas pelos projetistas. Abrir espaços vazios no meio de um tecido consolidado por grandiosas intervenções vizinhas é um desafio do ponto de vista estrutural: foram necessários muros de arrimo com estruturas reforçando todos os lados para que a terra não cedesse para dentro da Praça.

Sobre esse pesado aparato de contenção, nos andares superiores desenvolve-se o delicado programa das salas musicais. A sala do antigo Conservatório Municipal, restaurada no projeto, gozava da fama de ser a "melhor acústica da América Latina" nos seus tempos áureos, explica Francisco Fanucci, sócio do Brasil Arquitetura. Tal status foi visto como desafio pela equipe e pelo consultor de acústica, José Augusto Nepomuceno. Cada pavimento e cada sala de aula foram minuciosamente detalhados para estarem completamente isolados dos demais, calculados para que os instrumentos possam soar sem interferências. As soluções perpassam todas as áreas técnicas do edifício, desde a arquitetura até a engenharia estrutural, resultando em um conjunto com tecnologia inédita no País. No Edifício Corpos Artísticos, lajes duplas separadas por um sistema de molas e alavancas (dependendo da atividade desenvolvida) criam um colchão de ar que, junto a forros de lã, isolam os andares, de modo que nenhuma vibração sonora é transferida, não importa o vigor dos dançarinos e músicos. Nas salas de estudo de música e de dança, as paredes são revestidas com material absorvente de som, decorado com acabamentos em tecido desenhados pelo artista plástico Edmar de Almeida, parceiro antigo do Brasil Arquitetura, que também assina o colorido forro do restaurante-café na recepção.

A questão do isolamento justifica também os materiais da fachada. O concreto divide espaço nas superfícies com vidros fixos adesivados em caixilhos especiais, que completam a dura operação de fazer um silencioso edifício dentro da vibrante rotina do Centro. As aberturas, que de acordo com Francisco Fanucci foram feitas em um ritmo aleatório para quebrar a crueza do concreto, lembram uma enorme partitura a céu aberto, como se o prédio pudesse ser tocado por passantes munidos de instrumentos musicais.

A eficiência do isolamento acústico é tanta que ver a cidade dos últimos andares é como uma experiência cinematográfica: de dentro das salas, enquanto se ouve a música performada em piano, ou sopros, afinada e harmônica, testemunha-se pelas janelas o Vale do Anhangabaú e os fluxos e movimentos. É possível parar um pouco o ritmo da metrópole e poder ver melhor os prédios vizinhos que têm tanta importância na história da cidade - caso do edifício Esplanada, assinado pelo arquiteto polonês Lucjan Korngold, correr os olhos pelo viaduto Santa Efigênia, cruzar o vale e entrever o memorável edifício Martinelli, primeiro arranha-céu de São Paulo. Se o programa no térreo se abre como uma grande praça para a cidade, os últimos pisos oferecem um mirante silencioso, uma torre de concreto que filtra a visão da metrópole.

O conjunto teve sua inauguração oficial em dezembro de 2012, mas uma parte das obras ainda está em andamento - como a grande praça que abre novas conexões. E o crescimento do prédio a partir do miolo da quadra, essa aparição pública feita aos poucos, deu um gosto a mais ao conjunto: fez com que o cotidiano dos passantes no vale fosse marcado pelo surgimento desse novo gigante de cimento e vidro, de timbre próprio na paisagem paulistana.

ESCAVAR NO LIMITE (E NA VÁRZEA)

Escavar um projeto inteiro no miolo da quadra à beira do Vale do Anhangabaú foi um desafio interdisciplinar para a construção. Teve-se de lidar com um solo ruim, o lençol freático raso e as fundações delicadas dos vizinhos. O lençol freático insistia em forçar para cima as lajes do estacionamento subterrâneo. Houve o desafio de vencer o piso do conjunto, que só ficou fixo com uma fundação semelhante às utilizadas para conter terremotos: estacas de até 15 m de profundidade perfuram o solo, ancorando o prédio em rochas sólidas profundas, impedindo que a água desloque horizontalmente o prédio. Além disso, a escavação direta do solo colocaria em risco as sapatas das construções limítrofes. "Por isso optamos pelas estacas secantes justapostas", explica Kaleb Paiva Gomes de Souza, engenheiro da equipe do projeto. O sistema consiste em estacas colocadas no perímetro antes da escavação, arrematadas com uma parede de concreto. Feita essa proteção, começa-se, pouco a pouco, a escavar o terreno, perfurando em certas alturas a parede com tirantes metálicos, reforçando a resistência da parede ao solo.

LIBERDADE COSTURADA

POR GUILHERME WISNIK

Desde a inauguração do Memorial da América Latina de Oscar Niemeyer, em 1989, que São Paulo não tinha um edifício importante e com uma escala razoável acrescido ao seu patrimônio edificado. E lá se vão, portanto, mais de 20 anos. Razão pela qual o conjunto arquitetônico e urbanístico Praça das Artes - projetado pelo Brasil Arquitetura a partir de uma diretriz inicial de Marcos Cartum - nasce já como uma referência incontornável na paisagem urbana paulistana, marcando um momento de resgate do valor arquitetônico como política pública.

A Praça das Artes é a realização arquitetônica mais significativa da administração de Carlos Augusto Calil à frente da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (2005/2012), que por meio de ações como a Virada Cultural, as reformas do Teatro Municipal e da Biblioteca Mário de Andrade, além da desapropriação de importantes cinemas de rua do Centro visando a recriar a Cinelândia paulistana, caracterizou-se por um sentido de forte urbanidade, entendendo a arquitetura e o urbanismo como cultura.

Concebido como um anexo satélite do Teatro Municipal expandindo o edifício do Conservatório Dramático Musical da cidade, o conjunto Praça das Artes se instala em um miolo de quadra consolidado do centro histórico da cidade, realizando uma importante costura urbana. Essa, aliás, é uma característica notável de uma série de edifícios marcantes do Centro de São Paulo, como as galerias comerciais que interligam ruas furando quarteirões. No entanto, diferentemente de casos marcantes como as galerias do Rock, Califórnia, Metrópole ou Nova Barão, entre outras, o conjunto projetado pela Brasil teve de lidar desde o início com a falta de um perímetro claro para a edificação, fugindo das construções vizinhas remanescentes, grudando-se em empenas cegas, e deixando áreas vazias para o estar e a circulação pública. Os arquitetos, nesse sentido, foram muito hábeis em explorar ao máximo, por uma leitura do contexto, o sentido de costura urbana pela fragmentação, que dá a linguagem poética da obra.

Assim, são vários os conjuntos edificados na Praça das Artes, com alturas e cores distintas, e interligados por elementos singulares como passarelas e rampas-túnel, e não por sistemas seriais de circulação à vista.

Tudo isso é potencializado pela miríade de aberturas em ritmos irregulares nas fachadas de concreto, que reforçam o sentido de aleatoriedade voluntariamente buscado pelos arquitetos, em oposição a uma ordenação mais clássica e universalista. Se Oscar Niemeyer, no edifício-sede da Mondadori (1968), em Milão, explica a variação dos vãos dos arcos pela vontade de criar uma forma ritmada, próxima à síncope do samba, aqui Marcelo Ferraz faz alusão à irregularidade das partituras de John Cage. Ao mesmo tempo, não é possível deixar de pensar no emaranhado de janelinhas da Capela de Ronchamp (1950), de Le Corbusier, nem, evidentemente, nas torres de concreto com aberturas irregulares do Sesc Pompeia (1977), de Lina Bo Bardi, com colaboração de Marcelo. Na verdade, a aproximação entre a Praça das Artes e o Sesc Pompeia vai além da questão formal, e incide sobre a noção de cidadela, que aparece na Praça das Artes tanto na densidade e variedade dos volumes construídos quanto na conformação monolítica dos mesmos, que não distinguem estrutura e vedação.

Sabe-se que Lina Bo Bardi chamou o Sesc Pompeia de Cidadela da Liberdade, em alusão a uma construção que inocula urbanidade em seus espaços internos, vinculando essa urbanidade a uma disposição artística inventiva. Se, historicamente, cidadelas são fortificações, essas cidadelas da liberdade paulistanas são vazadas pelo processo histórico democrático, conectando as torres ao chão com a criação de praças, e tornando-as permeáveis ao uso múltiplo e imponderável da população urbana. Uso particularmente intenso no centro histórico, onde está a Praça das Artes.

GUILHERME WISNIK é arquiteto (FAUUSP) e mestre em história pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP)

SOUNDING MONOLITH
A concrete giant emerges in downtown São Paulo. It is the new project signed by Brasil Arquitetura, in which the Municipal Secretariat of Culture will shelter music and dance facilities. Monolithic, colorful and with the distinctive texture of reinforced concrete battens, the complex imposes on the landscape growing from the inside of the block nucleus, with 29 thousand m², at the block's edge, and opens itself to the Anhangabaú Valley. The plot's area was above all a narrow gathering of lots, with small expropriations. In fact, the distribution of spaces takes advantage of the free lines leftover from the lots. The goings and comings of lot expropriations resulted in various additions with the opening of new lots; neighboring houses were expropriated, resulting in still another volume integrated to the whole. Thus, the project was literally emerging, little by little in the block - and the final version was not predictable not even for its creators. The free ground floor, however, has always been kept, as well as the logic of creating faces for the block's perimeters and counterpoint the heavy concrete with the free plazas. In this ground floor, one may circulate in the middle of the block as if it were a large plaza. In the first floor, at the center of the intervention, a nucleus serves as a general reception, with a restaurant-café, distributing students, musicians and dancers throughout the buildings. The result is an ample space that surpasses the specific uses of the whole, and opens itself to the city.



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