Álvaro Siza Vieira, Carlos Castanheira e Jun Sung Kim projetam o Museu Mimesis, na Coreia do Sul | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Paju Book City, Coreia do Sul . 2006/2009

Álvaro Siza Vieira, Carlos Castanheira e Jun Sung Kim projetam o Museu Mimesis, na Coreia do Sul

Por Éride Moura Fotos Fernando Guerra
Edição 222 - Setembro/2012

Enquanto estuda a maquete do sítio, Álvaro Siza Vieira rabisca no papel a forma de um gato que, no momento seguinte, transforma-se no esboço de formas onduladas e fluidas deste museu

"A ideia do Museu Mimesis foi definida em um só movimento, em um só gesto", lembra Carlos Castanheira, arquiteto que atuou com Álvaro Siza no desenvolvimento do projeto para a Coreia do Sul. Concebido para abrigar a coleção particular de arte contemporânea de um editor de livros (o proprietário da Open Books, que divulga obras de autores ocidentais na Ásia), o museu foi erguido em Paju Book City, bairro que deve concentrar editoras de todo o mundo na cidade de Paju, a 30 km de Seul, capital do país.

Rodeado por cerejeiras, o grande volume do museu é definido por suas formas curvas de concreto aparente cinza claro e se desenvolve em torno de um pátio central aberto em uma das extremidades. O programa está distribuido em subsolo, dois pisos e um mezanino. Toda a área técnica e de depósito de obras encontra-se no subsolo. No térreo, estão recepção, cafeteria/restaurante e espaço para exposições temporárias. A zona de mezanino foi reservada para uso da administração e da loja do museu. O piso superior foi ocupado pela área expositiva principal.

Como em todo projeto de Álvaro Siza, os espaços do Mimesis são condicionados pelo controle absoluto da luz, sempre exaustivamente estudada pelo arquiteto. Importante na fruição dos espaços e responsável pela criação da atmosfera etérea do museu, a iluminação das áreas expositivas, tanto natural quanto artificial, "é em quase toda sua totalidade superior e indireta", explica o arquiteto. As aberturas, essenciais e discretas, deixam as paredes do interior livres e expostas à luz que penetra pelas claraboias de formatos diversos. Os espaços interiores - de paredes e tetos brancos, com pisos de mármore e tábuas de carvalho - ganham aspectos singulares com essa iluminação, que cria novas formas e perspectivas, em contraponto com as paredes curvas.

O MUSEU E O GATO
Por Carlos Castanheira

Um gato enrolado e também aberto, que se espreguiça. Está lá todo, basta ver, rever...

Era uma vez um imperador chinês que gostava muito de gatos e se lembrou de chamar o pintor mais conceituado do império para lhe desenhar um gato. Ao artista, agradou-lhe a ideia e prometeu que iria trabalhar no assunto. Passou um ano e o imperador lembrou-se que o pintor ainda não tinha entregado o desenho do gato. Chamou-o: Qué do gato? Está quase, está quase! disse o artista. Passou mais um ano e outro, e outro, e a cena repetia-se. Passados sete anos, a paciência do imperador esgotou-se e mandou chamar o pintor.

Qué do gato? Já passaram sete anos, prometeste, prometeste e ainda não vi gato nenhum! O pintor pega numa folha de papel de arroz, num tinteiro de tinta da China e num daqueles pincéis que só existem no Oriente e... Num gesto elegante e sublime desenha um gato que não era um gato, mas o gato mais belo que jamais foi visto. O imperador ficou extasiado, deslumbrado, e perante tanta beleza, não se esqueceu (coisa que hoje em dia deixou de ser hábito) de perguntar ao artista quanto queria por tão belo desenho. O pintor pediu uma soma que espantou o imperador. Tanto dinheiro por um desenho que tu fizeste em dois segundos, à minha frente, disse o imperador. Pois é, excelência, mas andei sete anos a desenhar gatos, disse o pobre pintor.

O projeto para o Museu Mimesis, na Coreia do Sul, é um gato. O cliente não esperou sete anos para ter o seu desenho do gato, mas o Álvaro Siza desenha há mais de sete anos. Num dia, expliquei-lhe o local e lhe mostrei uma pequena maquete do terreno, dos limites e das envolvências. Num gesto único saiu um gato. O Mimesis é um gato. Um gato enrolado e também aberto, que se espreguiça. Está lá todo, basta ver, rever... Os colaboradores não percebiam, no início, que aquele esboço, o gato, era, é um edifício. Eu já vi muitos desenhos de gatos, deslumbro-me sempre, não me habituo, quero ver mais gatos, mais esboços de gatos, pois já se passaram muitos sete anos.

Em arquitetura, depois do esboço vem a tormenta. Seguem-se o estudo prévio, as maquetes, os desenhos, as correções destes, as dúvidas, novos desenhos e novas maquetes, a apresentação ao cliente que já tinha visto outros projetos, mas que não escondeu a sua surpresa. Ficou aprovado e prosseguimos com as fases habituais que na Coreia são mais curtas e desburocratizadas. O programa não se alterou, mas é necessário realizar acertos de evolução do processo, introdução de materiais, técnicas e infraestruturas, códigos de representação para que todos percebam, numa tentativa que nada falhe. A luz, sempre a luz, estudadíssima, tanto a natural quanto a artificial, pretende-se essencial, que permita ver e que não se veja. Maquetes e mais maquetes, em algumas, entra-se em seu interior. Imagens em 3D também. A forma será dada por concreto aparente, cinza claro, cor de gato. Por dentro, o branco das paredes e tetos, piso de mármore que se pretende de Estremoz, e o mel da madeira de carvalho. Madeira nos caixilhos interiores, vidro. Nos exteriores, madeira e aço pintado, vidro cristalino. A obra, de difícil execução, nos preocupava o empreiteiro, os vários envolvidos. Os nossos amigos e partners, entusiasmados, nos tranquilizavam.

Desenhar um gato é mesmo muito difícil, experimentem! Pode demorar sete anos! Pelo menos!

THE MAGIC OF DESIGN
"The idea for the Mimesis Museum was defined in a single movement, a single gesture", remembers Carlos Castanheira, architect working with Álvaro Siza in developing the project for South Korea. Conceived to shelter the contemporary art private collection of a book editor (the owner of Open Books, which discloses the work of Western authors in Asia), the museum was erected in Paju Book City, a district concentrating worldwide editors in the city of Paju, 30 km from Seul, the country capital. Surrounded by cherry trees, the Museum's large volume is defined by its light grey, curved-shaped apparent concrete, and unfolds around a central patio open in one of the extremities. As in all of Álvaro Siza's projects, the spaces in the Mimesis are conditioned by an absolute control of the light, always exhaustively studied by the architect. Important for the fruition of spaces and responsible for creating the Museum's ethereal atmosphere, the lighting in the exhibition areas, whether it is natural or artificial, "is in almost its entirety from above and indirect", explains the architect. The openings, essential and discrete, leave the interior walls free and exposed to the light penetrating through the skylights opened at the top of the covering slab.



Destaques da Loja Pini
Aplicativos