Em Buenos Aires, na Argentina, antigo mercado de peixes é convertido no maior centro de design da América Latina com o projeto do arquiteto Paulo Gastón Flores | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Paulo Gastón Flores . Buenos Aires

Em Buenos Aires, na Argentina, antigo mercado de peixes é convertido no maior centro de design da América Latina com o projeto do arquiteto Paulo Gastón Flores

Projeto de reciclagem de antigo mercado de peixes traz o maior centro de design da América Latina a bairro degradado de uma Buenos Aires desindustrializada em busca de uma nova vocação econômica

Por Maurício Horta Fotos Federico KulekdjiAn
Edição 204 - Março/2011

A história do bairro de Barracas é a história da ascensão e queda de galpões no limite meridional de Buenos Aires. No século 18 começaram a se instalar às margens do rio Riachuelo barracões temporários para o armazenamento de charque, couro e escravos trazidos da África. Foi assim que nasceu o bairro. No século seguinte, enquanto a Argentina se estruturava economicamente e Buenos Aires se transformava de vilarejo em cidade, tornou-se um bairro residencial abastado, lar das famílias mais ricas. Mas uma epidemia de febre amarela em 1871 fez com que os mais ricos se mudassem de Barracas e San Telmo para o norte da cidade, longe da várzea que servia de incubadora de mosquitos. Passada a epidemia, uma estrada de ferro chegou no início do século 20 ao bairro, e com ela, uma estação de trem. Foi o vetor que traria os galpões industriais, onde trabalhariam operários italianos, espanhois e judeus recém-chegados da Europa. As mansões foram subdivididas em moradias operárias. E a paisagem urbana, tomada por novos casebres baixos, indústrias, torres d'água e estradas de ferro elevadas.

Foi quando se construiu, em 1934, o Mercado de Concentración Mayorista de Pescado, estrategicamente a uma quadra da estação de trem - atual Hipólito Yrigoyen - e a duas do Riachuelo. Era um marco urbano, seja por sua localização, seja por armazenar todo peixe comercializado na cidade. O complexo era envolvido por três fachadas art déco de concreto armado com planta em U, que replicava um módulo composto por uma porta metálica de enrolar no térreo e uma pequena janela no andar superior - uma estrutura uniforme que, em conformidade com o caráter industrial da região, só permitia um voo criativo maior nos portais de acesso. Já seu interior era coberto por oito telhados de duas águas em forma de nave, de 17 metros de largura, e a circulação, feita por uma rua principal, que permitia o acesso de veículos para abastecimento, e seis secundárias transversais.

O interesse patrimonial da região a fez protegida como Área de Proteção Histórica pela administração da cidade. No entanto, isso não a livrou da decadência trazida pelos anos de 1980, a década perdida também para a Argentina. Com o fechamento de indústrias, o charme decadente da região dividida entre mansões e galpões abandonados sucumbiu à violência ao esquecimento. Com sua decadência veio também a desativação do mercado, em 1983.

O ponto de virada para o edifício viria em 1999, quando a administração da cidade decidiu construir uma instituição para promover iniciativas públicas e privadas vinculadas ao design. Simbolicamente, era um passo para, nesse bairro desindustrializado, desenvolver-se um setor da economia pós-industrial. Dois anos depois foi reciclado o primeiro edifício do Centro Metropolitano de Diseño (CMD), chamado de Pescadito, na esquina noroeste do terreno do antigo mercado. O projeto, dos arquitetos Carlos Blanco e Adriana Pérez Moralejo, foi vencedor da categoria na Bienal de Arquitetura de Buenos Aires em 2004.

Mas o CMD tomaria dimensões muito maiores no fim de 2001, quando a Sociedade Central de Arquitetos da Argentina promoveu, em meio à maior crise econômica do país, um concurso nacional para a reciclagem do Mercado de Pescado. O projeto do arquiteto Paulo Gastón Flores foi escolhido entre 86 propostas. Concluído após nove anos, o CMD tornou-se o maior centro de desenho da América Latina, com uma área total de 14.500 m², 3 mil m² de espaço expositivo e capacidade para 1.500 pessoas. Em outubro de 2010, o trabalho recebeu o Prêmio Bienal SCA CPAU de 2010, prêmio máximo da Argentina para obras de arquitetura.

No perímetro do conjunto, 70 boxes abrigam agora incubadoras de microempresas do setor. Já no interior - cuja cobertura manteve-se organizada em oito naves - foram instalados 11 "barcos" de 17 metros de largura, com estrutura metálica e fechamento de madeira ipê, alinhados à grade da cobertura. Mimetizando o tecido urbano de Barracas dominado por galpões e grandes avenidas, eles são peças arquitetônicas de mesma escala e formalmente relacionados entre si, mas com autonomia funcional. São eles que compartimentam o programa do CMD: um instituto de desenho com 12 salas de aula, dois barcos expositivos com um café, dois barcos administrativos, um barco-arquivo, um barco-ateliê, um barco-laboratório, um barco-aula, um barco-biblioteca e um barco-auditório, todos amarrados em seu piso superior por passarelas que fazem também a circulação das incubadoras no nível superior do perímetro do conjunto. Já o ângulo irregular da rua ao sul foi absorvido por volumes que abrigam depósitos.

O coração desse conjunto é sua rua principal - um calçadão de 10 metros de largura e 11,26 metros de pé-direito revestido de paralelepípedos, que atravessa o edifício de uma ponta a outra e no qual deságuam os barcos e as ruas secundárias. "Ela constitui o eixo visual que permite uma percepção direta do universo metálico interior e, consequentemente, da identidade original do imóvel como mercado", afirma o arquiteto.

Já a iluminação natural é realizada pelas baías menores envidraçadas que fazem a transição entre as naves e pelas secções formadas pelo encontro delas com a cobertura da rua principal. Para garantir a ventilação natural nos espaços intersticiais, a cumeeira das naves é seccionada; assim, o ar aquecido pelas claraboias pode sair naturalmente por efeito chaminé. Já os ambientes fechados - os barcos e as incubadoras - são climatizados. Para isso, o conjunto é atravessado por tubulações de ar, que, como a estrutura metálica e as instalações elétricas e hidráulicas, permanecem aparentes, pintadas em cores primárias, mantendo a linguagem industrial que se contrapõe à madeira e aço dos barcos. Caixas d'água, reserva de incêndio e equipamento de ar condicionado foram instalados em torres de serviço, que atravessam as baías intermediá­rias e se mostram no exterior, tal como outros galpões do bairro.

O resultado final foi um dos maiores marcos da renovação de Barracas. O bairro vem recebendo respingos do boom turístico e imobiliário nos vizinhos Puerto Madero e San Telmo. Shows de tango voltam a ser frequentados por estrangeiros, ruas como a Pasaje Lanín viraram espaço de mostra permanente de arte urbana e galpões começam a ser convertidos em lofts.

 

CREATIVITY MARKET
In 1934, the Mercado de Concentración Mayorista de Pescado (Fishing Wholesale Market), was built in Buenos Aires, one block away from the train station - and was deactivated in 1983. At the end of 2001, a National Contest proposed the recycling of the Mercado de Pescado, also sheltering the Centro Metropolitano de Diseño (Metropolitan Design Center). The project, by architect Paulo Gastón Flores, was chosen among 86 proposals. In the complex' perimeter, 70 boxes now hold the sector's micro-companies hatchery. Meanwhile, in the inside - that had its cover organized as eight naves - there were installed 11 "boats" 17 meters wide, in metal structure and Ipê wood enclosures, aligned to the cover's grid. Imitating the urban fabric with Booths (Barracas) dominated by warehouses and large avenues, they are architectural pieces in the same scale and formally related to one another, but with a formal autonomy. They are the ones compartmenting the CMD program: a design institute with 12 classrooms, two exhibit boats for a café, two administrative boats, a file boat, an atelier boat, a laboratory boat, a classroom boat, a library boat and an auditorium boat, all connected in their top floors by walkways that also handle the circulation for the hatcheries in the complex' perimeter top level. The heart of this complex is its main street - a large sidewalk 10 meters wide and 11.26 meters high, paved with parallelepiped stones, crossing the building, and in which the boats and secondary streets end. To ensure natural ventilation in the interstitial spaces, the naves' roofs are sectioned; therefore, the air heated by the skylights may exit naturally due to the chimney effect.



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