Condomínios fechados são o futuro das cidades no interior do Brasil? | aU - Arquitetura e Urbanismo

Fato e Opinião

Condomínios fechados são o futuro das cidades no interior do Brasil?

Colaborou Giovanny Gerolla
Edição 204 - Março/2011

Qual deve ser o papel de arquitetos e urbanistas no desenvolvimento desses projetos: simplesmente recusá-los, tentar despertar uma consciência de cidades compactas ou se preocupar com a arquitetura do lote para dentro? A equipe da revista AU conversou com arquitetos, urbanistas e empreendedores, no Brasil e no exterior, para saber qual a opinião deles sobre o papel do arquiteto no crescimento dos condomínios fechados.

 

OliviaTeixeira
Fábio Duarte, arquiteto, urbanista, professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Os condomínios fechados são uma rea­ção à insegurança urbana, embrulhados em discursos de bairros ecológicos ou bairros-clubes. Quando dentro das cidades, eles criam ilhas de convivência controlada, que privatizam e rompem o tecido urbano, e impedem o contato cotidiano com a diversidade social, econômica e cultural, própria das cidades. Quando nos municípios adjacentes aos grandes centros, são como parasitas: seus moradores pagam o IPTU das cidades periféricas, mas não as vivem, pois seus filhos vão à escola na cidade-polo, onde também fazem compras e trabalham. O plano diretor é o instrumento legal para impedir esse tipo de ocupação urbana. Nas cidades do interior, onde o fenômeno é crescente, mas recente, arquitetos e urbanistas podem ter dois papéis: buscar influenciar politicamente as decisões municipais, incluindo alterações no plano diretor que impeçam esses condomínios; ou mostrar que há alternativas de desenho urbano para bairros que não constituam ilhas isoladas da cidade. 

 

divulgação Sorkin Studio
Michael Sorkin, arquiteto e urbanista norte-americano, professor de planejamento urbano e editor-contribuinte da Architectural Record
À medida que o planeta se urbaniza exponencialmente, milhões de pessoas chegam às cidades todos os anos - a metade delas para viver em favelas. Os dois padrões mais comuns deste crescimento, a formação de megacidades e a dispersão urbana desintegrada são, por sua vez, soluções desastrosas sob perspectivas sociopolíticas e ambientais. Ao mesmo tempo em que grandes espaços urbanos são essenciais ao desenvolvimento e à cultura humana, eles devem ser desenhados para que atenda o homem em suas necessidades, conduzindo a vida em comunidade e facilitando possibilidades individuais e coletivas, sem frustrá-las. Arquitetos e urbanistas são, assim, cruciais na busca do formato ideal para uma boa cidade - em harmonia com a disposição de recursos e a construção da equidade. Isso envolve não só a reestruturação de cidades já existentes, mas também a projeção de novos espaços. O Brasil, ousadamente pioneiro em dramáticas iniciativas arquitetônicas, urbanísticas, de transportes e de produção de energia, pode liderar este caminho. Curitiba e Brasília estão entre exemplos importantes de inovação urbana dos tempos modernos, e continuam inspirando todo o mundo.

 


divulgação Alphaville Urbanismo
Marcelo Willer, arquiteto e diretor de novos negócios da Alphaville Urbanismo
A segurança é uma preocupação cada vez mais presente nas cidades brasileiras - em regiões metropolitanas ou mesmo em cidades de médio e pequeno porte. Não podemos ignorar este problema estrutural, cujas origens são de cunho socioeconômico. A implantação de condomínios com restrição de acesso é, portanto, um dos artifícios encontrados pela classe média para enfrentar esta realidade. O modelo de uma cidade composta por parcelas muradas - verdadeiros enclaves que impedem a mobilidade urbana e incentivam a segregação social - deve ser motivo de preocupação e debate pelos arquitetos, planejadores e pela sociedade como um todo.

Enquanto estas questões estruturais não são superadas, no entanto, bairros inteiros de condomínios fechados e justapostos têm ocupado áreas livres das cidades. Nossa experiência mostra que é possível implantar comunidades planejadas com espaços e vias de uso público, permitindo a livre circulação e a utilização de equipamentos, comércio e serviços por todos. Neste modelo, apenas bolsões residenciais podem ter controle de acesso. É uma forma de contribuir para o planejamento da expansão de bairros de classe média, evitando grandes enclaves murados, enquanto apostamos na diminuição da violência urbana.

 

Marizilda Cruppe
Jorge Mario Jáuregui, arquiteto e urbanista
Condomínios fechados viraram sinônimo de antiurbanismo. Hoje, em qualquer lugar do mundo, é necessário pensar novas formas de relacionamento entre cidade, urbanidade e espaço público. Significa pensar o oposto do condomínio fechado: bairros e cidades abertas, conectivas e democráticas. Implica novas formas de convivência urbana capazes de responder às atuais condições de relacionamento social, familiar e de trabalho, às condições de comunicação, correspondendo aos novos "ritmos urbanos" (mobilidade na cidade e entre as cidades). O desafio é como cada arquiteto vai oferecer, pelo projeto, sua contribuição para a convivência das diferenças, reinterpretando com pertinência e qualidade urbanística e arquitetônica as complexas e mutantes relações entre a cidade, a urbanidade e o espaço público contemporâneos. 

 

divulgação Duany Plater-Zyberk & Company
Galina Tachieva, arquiteta, urbanista e sócia-diretora da Duany Plater-Zyberk & Company e autora de Sprawl repair manual (Island Press)
Esperamos que a dispersão urbana desintegrada que vem se alastrando junto aos centros urbanos não se torne uma regra para o Brasil. Arquitetos e urbanistas brasileiros sempre estiveram na vanguarda do pensamento progressivo e de novas experiências, como Brasília e Curitiba. No entanto, a arquitetura monumental nem sempre resultou em bom urbanismo. O Brasil vive uma onda de crescimento jamais vista, e profissionais devem redirecionar o modelo dos shoppings centers e dos condomínios fechados para a criação de bairros e cidades sustentáveis, integrados, com maior diversidade econômica e social, alcançadas com maior variedade de usos e tipologias arquitetônicas. A intenção deve ser a busca de um paradigma mais orgânico, com bairros compactos e na escala do pedestre. Aliando técnicas de preservação ecológica a princípios universais de urbanismo, buscamos em nossos projetos a preservação da paisagem natural, a conservação das dunas, técnicas sustentáveis de drenagem, paisagismo peculiar à região e arquitetura resistente às mudanças climáticas. Não acreditamos em modelos suburbanos de usos segregados e dependentes do automóvel. É preciso recuperar o que há de melhor na tradição do Brasil em construir verdadeiras comunidades. Seria uma irresponsabilidade preocupar-se apenas com a arquitetura e não olhar para a escala da cidade e para seu contexto regional.

 



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