O fenômeno do sprawling urbano, por Edson Leite Ribeiro e José Augusto Ribeiro da Silveira | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

O fenômeno do sprawling urbano, por Edson Leite Ribeiro e José Augusto Ribeiro da Silveira

O fenômeno do sprawl urbano e a dinâmica de segregação socioespacial

POR EDSON LEITE RIBEIRO E JOSÉ AUGUSTO RIBEIRO DA SILVEIRA
Edição 185 - Agosto/2009

E. W. Burgess, 1929; H. Hoyt, 1939; C. Harris e E.
Dentro de modelos com maior concentração de renda e segregação social, a estrutura gravitacional (A) recebe algumas modificações e é melhor explicada pelos modelos setorial (B) e de múltiplos núcleos (C).
As últimas décadas viram um crescimento urbano avantajado, com uma forma de estruturação que evidencia a fragmentação e a mescla de territórios urbanos e territórios semirrurais na cidade. Entre as causas, estão a segregação social (acentuada pela superacumulação na sociedade capitalista), a especulação imobiliária e a imposição de conceitos de "qualidade de vida urbana" que se distanciam da verdade. Alinhado a isso, soma-se o uso exagerado do automóvel, o que alimenta o processo em tela pelo incremento da mobilidade.

A fragmentação mostra certa tensão entre forças de expansão e aproximação no espaço, existindo bordas que restringem o crescimento. A estrutura resultante são células urbanas que se agrupam em ilhas de diversos tamanhos e localizações, definindo cheios e vazios. Por sua vez, o avanço contínuo da mancha urbana sobre as bordas da cidade denota que a dispersão parece não ter barreiras, sejam físicas ou sociais. Nesse caso, as forças são predominantemente de distensão, com baixa densidade, pontuando os conflitos entre a acessibilidade e o uso e a ocupação da terra urbana.

A estrutura urbana de Los Angeles, Estados Unidos, por exemplo, está muito distante das estruturas urbanas tradicionais ou ditas modernas. Ela funde no território uma complexa rede de aglomerados e áreas semirrurais de alta renda, ditas "rurbanas", utilizando uma terminologia recente, interligadas por uma complexa rede de freeways e complementadas por uma rede mais intensificada de estradas vicinais ou rurais.

Com essas realidades recentes e com a disposição de perímetros urbanos inadequados, as cidades se expandem de forma anômala, em um processo citado e criticado por vários autores, e até defendido por alguns. O fenômeno recebe diversas denominações, como urban widespread e, o mais utilizado internacionalmente, urban sprawl ou espraiamento urbano: em sentido figurado, a cidade irradiada para todos os lados, a cidade esparramada. É o crescimento exagerado da cidade, a partir de eixos principais de acesso e de práticas como a produção de subúrbios, condomínios horizontais fechados e conjuntos habitacionais populares, localizados nas franjas ou bordas urbanas, distantes do centro principal e da mancha consolidada da cidade.

INSEE-RP, France, 2006
O processo de espraiamento urbano na região de Lyon, na França, ocorreu da seguinte forma: a) adensamento do núcleo central; b) expansão e adensamento das coroas periurbanas, e c) formação dos núcleos dispersos, a partir dos antigos núcleos rurais.

INSEE-RP, France, 2006
REVISÃO TEÓRICA SOBRE O TEMA

Alguns autores, como Carbonell (1999), consideram o sprawl um efeito sempre associado à expansão descontrolada ou desorganizada. Outros autores, como Jakob (2004), criticam essa posição, não exatamente porque não a consideram nociva, mas porque veem que tal expansão ocorre dentro de um princípio de organização desequilibrado, com o predomínio do interesse do capital sobre os demais.

De fato, a lógica evolutiva (as razões, como ordens urbanas) da dinâmica da cidade é composta intrinsecamente por suas propriedades físicas (morfológicas), como elemento ativo no processo, e determinadas práticas e leis socioespaciais, ligadas à dinâmica de segregação das classes sociais, regidas pelas forças econômicas e políticas dominantes (Silveira, 2007).

Considerando que o espaço da cidade é estruturado fundamentalmente pelas condições de deslocamento das pessoas - como portadoras da força de trabalho e como consumidoras - destacam-se os efeitos negativos do modelo de expansão em foco, no que diz respeito à relação (biunívoca) conflituosa entre a acessibilidade, englobando as oportunidades urbanas, e a ocupação e o uso da terra urbana.

No tocante à acessibilidade e à mobilidade, o espaço urbano é heterogêneo e setorizado, a partir da localização e das principais rotas de deslocamento na cidade. A acessibilidade pode ser considerada o valor de uso mais importante para a terra urbana, embora toda e qualquer terra o tenha, em maior ou menor grau (Villaça, 1998). Destaque, aqui, a prevalência do acesso e da localização sobre a disponibilidade de infraestrutura, no processo de ocupação e uso do espaço da cidade.

Outros autores também são críticos do espraiamento urbano, considerando-o sempre como uma situação indesejável que, independentemente de sua lógica sistêmica, será sempre nociva. Entre esses autores, podem ser citados Edwing (2000), Nelson (2000) e Voith (2000). Contudo, a crítica mais contundente e uníssona, sem dúvida, vem dos defensores da sustentabilidade urbana e da compacidade urbana (compact-cities), princípio respeitado entre os atuais urbanistas europeus e uma verdadeira antítese do sprawl.

Entre os autores norte-americanos, alguns buscam defender práticas expansionistas, voltadas ao uso do automóvel, mas com maior grau de controle - são os defensores do "managed growth" ou "smart growth". O conceito é, a princípio, a expansão com um controle qualitativo, de forma a manter a previsibilidade almejada pelos planejadores. Ou seja, uma situação ou posicionamento intermediário entre os defensores do urban sprawl e os das cidades compactas.

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