Combativo na preservação do patrimônio cultural, Carlos Lemos defende a modernização e intervenções contemporâneas quando se faz necessário. Leia artigo sobre o arquiteto escrito por Márcio Bariani | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Carlos Lemos

Combativo na preservação do patrimônio cultural, Carlos Lemos defende a modernização e intervenções contemporâneas quando se faz necessário. Leia artigo sobre o arquiteto escrito por Márcio Bariani

POR MÁRCIO BARIANI
Edição 184 - Julho/2009
Artur Lopes

Artur Lopes
Carlos Lemos, nos anos em que trabalhou com Oscar Niemeyer, começou a pesquisar a arquitetura tradicional. Já maduro, não se furtou a mudar o rumo de seu pensamento quando confrontado com outra realidade que não a modernidade erudita. Combativo na preservação do patrimônio cultural, defende a modernização e intervenções contemporâneas quando se faz necessário. Aos 84 anos, sua trajetória é ímpar no panorama da arquitetura brasileira

O desejo do arquiteto era apenas o de construir sua casa, com ampla vista para a água e a mata atlântica em Ibiúna, interior paulista. Bastante seguro, já perto dos 40 anos, projetou grandes panos de vidro em meio à estrutura de concreto aparente com grandes vãos livres, de acordo com a melhor linguagem contemporânea da época, início dos anos 1960. Solicitou orçamento a um construtor da região que, pelas dificuldades técnicas de manejo do concreto no local, pediu uma quantia que o arquiteto não tinha.

Resignado em adiar o sonho, ouviu do empreiteiro algo que assinalaria ponto de inflexão em sua carreira: que não estava empenhado em realmente ter aquela casa, pois, se estivesse, poderia fazê-la não como uma "casa rica" e sim como uma "pobre", semelhante a outras existentes na região: tijolo à vista, piso cimentado, telha vã, paredes caiadas.

Foi daí que Carlos Lemos atinou com a idéia de que a arquitetura não deveria estar restrita a uma só técnica construtiva, que dependia não só da vontade erudita do arquiteto, mas também da mão de obra local, da disponibilidade de materiais e dos recursos financeiros. Agora, usar o passado para solucionar o presente torna-se recorrente em seu trabalho, unindo seus conhecimentos práticos de arquiteto aos estudos sobre arquitetura antiga brasileira, aos quais já se dedicava naquela época.

FORMAÇÃO

Lemos nasceu em 1925 na capital paulista, mas foi criado no interior até os 13 anos. Desde os primeiros anos de escola, em Sorocaba, SP, gostava muito de ler e, principalmente, de desenhar. E o jovem refinou seus conhecimentos por leituras diversas, indicadas por um amigo da família que era requintado colecionador de pinturas brasileiras, e visitas constantes à Pinacoteca do Estado, na capital.

Outra influência em seu aprendizado foi a amizade de seu vizinho, o juiz da cidade, Luís Torres de Oliveira. Com ele, ouvia histórias sobre lugares exóticos, pessoas antigas e fazia leituras em conjunto de grandes clássicos. O amigo juiz ainda legou outra amizade para vida toda, a de seu filho, Octávio Frias de Oliveira.

Aos 15 anos, começou a pesquisar sobre seus antepassados, o que o levou a frequentar, em São Paulo, arquivos históricos, aprender paleografia e aprimorar sua vocação para pesquisa e investigação. Nessa época, Lemos era estudante do Ginásio do Estado, no Parque D. Pedro II, em São Paulo, e foi lá que tomou uma decisiva lição com Ruy Martins Ferreira, professor de desenho. Quando soube que o aluno pretendia estudar pintura na Escola Nacional de Belas Artes, passou-lhe uma descompostura, dizendo que vida de artista no Brasil era só dificuldade e decepção, e que ele, talentoso desenhista, deveria cursar arquitetura, ser arquiteto e pintor ao mesmo tempo. E assim foi.

Na faculdade, os alunos estavam interessados em desenvolver seus projetos em sintonia com os princípios modernistas e a maioria dos professores, chefiados com mão de ferro pelo arquiteto Christiano Stockler das Neves, censuravam qualquer projeto que não fosse à moda da Beaux-Arts francesa.

Nesse ambiente pouco fecundo, Lemos travou um embate que já preconizava sua linha de pensamento moderno, mas em sintonia com nosso passado arquitetônico colonial. Em resposta a uma tarefa para que projetasse uma igreja em estilo "colonial", o aluno tomou como modelo a Capela do Sítio Santo Antônio, ícone da arquitetura bandeirista paulista, em vez dos sugeridos barroco mineiro ou baiano. Recusaram-lhe a nota pelo trabalho.

ARQUITETO FORMADO

Carlos Lemos trabalha como arquiteto já antes se de formar. Sua primeira encomenda foi feita por Octávio Frias: decorar o apartamento do amigo recém-casado. Frias começa a lhe destinar trabalhos do Banco Nacional Imobiliá­rio (BNI), do qual era sócio-diretor. Primeiro, projetos de interiores do banco, depois um edifício residencial na rua Paim, em São Paulo, o Paris-Roma-Rio, que teria que ser desenvolvido junto com o teatro da atriz Maria Della Costa. Foi seu primeiro trabalho de visibilidade, feito com orçamento e terreno exíguos, com o programa em uma planta cuidadosamente estudada, e em uma sala de teatro de acústica elogiada.

Começa a trabalhar também na Engenharia Sanitária do Departamento de Saúde do Estado, onde permaneceu por 18 anos. Valendo-se desse aprendizado, projetou, dentre outros, os loteamentos de Mirim-Açu (1962), em Ibiúna, SP, e Praia Vermelha (1970), em Ubatuba, SP, preservando ao máximo os elementos naturais, como a vegetação e a topografia.

A cidade que vê o arquiteto já formado, em 1950, crescia freneticamente e o mercado imobiliário, no qual o BNI atuava pelo sistema de condomínio a preço de custo, estava aquecido. Com a grande concorrência era preciso fazer marketing da arquitetura e, assim, o banco chamou Oscar Niemeyer, arquiteto já famoso, para desenvolver alguns projetos.

Para tal empreitada, Niemeyer foi instado por Octávio Frias, em 1952, a abrir um escritório em São Paulo. Conhece alguns trabalhos de Lemos e decide contratá-lo para montar e chefiar seu escritório paulistano. Nessa função, Carlos Lemos participou diretamente dos projetos dos edifícios Califórnia, Montreal, Triângulo, Eiffel e Copan, desenvolvidos para o BNI, sendo que, neste último, seu trabalho perdurou por 18 anos. Participou também da equipe que desenvolveu os projetos do Parque Ibirapuera, onde foi responsável pela organização do programa de necessidades do Palácio da Agricultura, atual edifício do Detran-SP.

Mais tarde, em meados da década de 1960, o banco Bradesco assume parte dos ativos do BNI, entre os quais o Copan, e solicita a Lemos que fizesse o projeto da agência central no terreno antes destinado ao hotel pelo plano original do conjunto. O arquiteto projeta um paralelepípedo neutro e baixo, com um terraço-jardim na mesma cota da laje prevista para unir os dois edifícios, como imaginado por Niemeyer.

Em 1957, com a dedicação integral de Niemeyer aos projetos de Brasília, o escritório em São Paulo é herdado por Lemos, que não voltou a trabalhar com o mestre, apesar de manterem um bom relacionamento até hoje. Foi bastante coerente esse distanciamento profissional, pois a partir dos anos 60 sua arquitetura toma outros rumos, em uma clara reflexão acerca dos dogmas modernistas.

Até 1952, percebe-se um meticuloso e estudado arranjo dos espaços em linhas contemporâneas, sem grandes malabarismos estruturais. É uma arquitetura que nasce de dentro para fora, algo como Rino Levi vinha fazendo até então, dentro do melhor caminho racionalista. Exemplos dessa fase são o teatro Maria Della Costa e o edifício Paris-Roma-Rio (1950), em São Paulo, e o colégio Nossa Senhora das Dores (1951), em Uberaba, MG. A partir desse ano, nas residências Maragliano Jr. (1952), no supermercado na estrada velha para Santo Amaro (1955), e na residência Magalhães Gouvêa (1961), todos em São Paulo, e na sede da Fazenda Gato Preto (1955), em Nova Andradina, MS, a concepção estrutural torna-se protagonista.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>


Destaques da Loja Pini
Aplicativos