O QUE É CRÍTICA DE ARQUITETURA? | aU - Arquitetura e Urbanismo

Fato e Opinião

O QUE É CRÍTICA DE ARQUITETURA?

Edição 169 - Abril/2008

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É FREQÜENTE OUVIR QUE NO BRASIL NÃO SE FAZ CRÍTICA DE ARQUITETURA. EM ENTREVISTA À AU PUBLICADA EM JANEIRO DE 2008, O CRÍTICO ESPANHOL JOSEP MARIA MONTANER DIZ, ENTRE OUTROS TEMAS, QUE "HÁ MUITOS ARQUITETOS BONS NO BRASIL E MUITOS BONS CRÍTICOS, MAS NENHUM SE ATREVE A DAR UM SALTO E FAZER UM TRABALHO MAIS AMPLO, MAIS AMBICIOSO E MAIS GERAL". OS TEXTOS PUBLICADOS NAS REVISTAS NÃO SÃO CONSIDERADOS CRÍTICAS POR MUITOS PROFISSIONAIS - ARQUITETOS E, ATÉ, PELOS PRÓPRIOS CRÍTICOS. AFINAL, O QUE É CRÍTICA DE ARQUITETURA?

Todos os jornais do Brasil têm suplemento semanal de crítica sobre diferentes manifestações artísticas, com exceção da arquitetura - é sintomática sua ausência como expressão cultural da vida cotidiana da comunidade, em relação aos prédios ruins onde habita a maioria das pessoas, e aos graves problemas urbanísticos de nossas cidades. A arquitetura só marca presença nos panegíricos aos grandes Mestres feitos em ocasiões comemorativas. A função da crítica de arquitetura é justamente criar a consciência social do valor que a nossa disciplina tem como expressão cultural. Então é um erro do colega Josep Maria Montaner quando questiona os principais críticos brasileiros pelo fato de não escreverem livros. E também quando valoriza como críticos as pessoas que se destacam como bons acadêmicos ou como bons arquitetos, mas não como críticos. Na Argentina, o citado Cláudio Caveri é um arquiteto atuante e combativo, porém, não é um crítico que incide nas mídias, como é, por exemplo, Fernando Diez, que escreve no jornal La Nación e dirige a revista Summa. No Brasil, Montaner reitera a importância dos críticos tradicionais, mas não compreende que é maior a transcendência de jovens como Otávio Leonidio quando escreve na revista Mais!; ou Fernando Serapião, com suas inéditas revelações publicadas na revista Piauí; além da fina ironia crítica do Blog de Alencastro. São eles os que formam a opinião na cultura social arquitetônica e não os livros especializados. Não podemos nos esquecer do papel incentivador da crítica. O grande acadêmico e arquiteto italiano Bruno Zevi ficou famoso pelos seus ácidos artigos semanais no L´Espresso de Roma. Isso é o que necessitamos ter no Brasil.

Roberto Segre, arquiteto e professor do Prourb da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

A cada tanto, as revistas insistem no tema da crítica, ou da ausência de crítica, e pedem respostas breves - crítica e reflexão pelo jeito não podem morar juntas. É como se o assunto começasse de novo e sempre do vazio, como se tudo o que já foi realizado até aquele instante nada valesse. Segue-se confundindo crítica de arquitetura com juízo de gosto; qualquer tentativa séria de compreender a arquitetura na sua complexidade e profundidade não é entendida como crítica; apenas a fofoca anônima e a maledicência gratuita parecem ser aceitas como tal. Se assim for, é complicado perguntar sobre a crítica, já que não adianta oferecer respostas com qualidade e seriedade, enquanto o que se espera é a leviandade das opiniões apressadas mas espertinhas. Talvez por isso a crítica conseqüente tenha, infelizmente, se refugiado nas academias e perdido espaço nos periódicos comerciais: porque o ar do lado de fora está se tornando de péssima qualidade.

Ruth Verde Zein, arquiteta, professora e pesquisadora PPI da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e pesquisadora voluntária do Propar-UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)


Crítica de arquitetura é toda reflexão informada que visa a esclarecer relações internas e externas de um artefato arquitetônico que não possam ser apreendidas sem mediação, assim como a sua relevância profissional e cultural. Para que seja conseqüente, a crítica de arquitetura deve ser exercida por quem tenha profundo envolvimento com a matéria, idealmente um arquiteto. O que passa por crítica atualmente são, na sua maioria, descrições e análises superficiais as quais, embora bem-intencionadas, são inconseqüentes no que se refere ao desenvolvimento profissional e a um melhor entendimento da arquitetura pelos seus usuários.

Edson Mahfuz, arquiteto e professor titular do departamento de arquitetura da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)


Crítica, segundo o dicionário, é avaliação. Nessa perspectiva, todo juízo sobre uma obra de arquitetura é crítica, positiva ou negativa, justificada ou não, enunciada na mesa de bar como publicada em boletim de supermercado, revista especializada de grande difusão ou livro da mais sofisticada coleção de editora prestigiosa. Óbvio, independentemente do veículo, o que interessa é a crítica fundamentada, baseada em argumentação plausível, implicando conhecimento da obra e seu contexto, amor à arte e um mínimo de cultura disciplinar. Tem gente fazendo isso no Brasil, sim. Talvez não apareçam como autores de livros individuais, mas amplitude, ambição e generalidade da argumentação não são privilégios de um único meio de divulgação.

Carlos Eduardo Comas, arquiteto e professor titular do departamento de arquitetura da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

A crítica, de modo geral, constitui elemento norteador, capaz de discernir valores, gerar debate, avaliar significados e indicar caminhos. Carecemos de uma tradição crítica, comum em países de nível cultural mais desenvolvido. A crítica de arquitetura raramente comparece nos órgãos de imprensa voltados para o grande público, ao contrário das artes plásticas, literatura, música e cinema. Resulta, assim, restrita ao universo dos arquitetos, por revistas especializadas. No entanto, o enfoque por elas dado é raramente crítico, desprezando-se esse instrumento fundamental para qualquer atividade artística. Reagimos a ela de modo provinciano; quando empreendida por arquiteto, é tomada pelo criticado como ofensa e pelo crítico como risco de ressentimentos e até inimizades. Daí a cautela e, às vezes, o próprio silêncio.

Alberto Xavier, arquiteto e professor do Centro Universitário Belas Artes e da Universidade São Judas Tadeu

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