O SONHO AMERICANO DE OSCAR NIEMEYER | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

O SONHO AMERICANO DE OSCAR NIEMEYER

NIEMEYER, LE CORBUSIER E AS AMÉRICAS

POR ROBERTO SEGRE
Edição 165 - Dezembro/2007

É conhecida a história das duas propostas, a 23, do francês, e a 32, de Niemeyer, diferenciadas pela localização do volume da Assembléia Geral. O primeiro a colocava no centro do terreno. O segundo, no extremo, para liberar a praça para os atos públicos e o relacionamento com a cidade. Finalmente se chegou a uma solução intermediária, que juntava as duas alternativas na colocação do volume baixo, que foi aprovada por Harrison, que escreveu, "the only scheme that gets complete satisfaction in an early idea of Le Corbusier's as carried out, was drawn up by Oscar Niemeyer".

Nessa nova experiência norte-americana, foi importante sua familiarização com um conjunto urbanístico de grande escala e a compreensão do funcionamento complexo do arranha-céu de 40 andares, que continha 3.400 funcionários. Além da experiência direta nos arranha-céus de Nova York, em particular do Rockefeller Center, o seu conhecimento dos problemas existentes no prédio de escritórios, já decantado no MES, adquiriu uma nova dimensão, que abriu a perspectiva dos grandes projetos que surgiriam no Brasil no início dos anos 50: a lâmina curvilínea do Copan em São Paulo, o conjunto JK em Belo Horizonte e as obras monumentais em Brasília.

A última visita de Niemeyer aos Estados Unidos aconteceu em 1972, quando abriu seu escritório na Avenida Champs Elysées em Paris, exilado durante a ditadura militar brasileira. Já com antecedência tinha projetado em Los Angeles um centro de beleza (1963) e uma clínica de beleza (1968) que não foram construídas. Uma empresa que realizava operações imobiliárias em Miami, Swire Propieties, tinha adquirido a Claughton Island de forma triangular, situada na entrada do rio Miami, e unida por uma ponte com a famosa 8th. Street e a Brickell Avenue.

É provável que solicitassem a Niemeyer o projeto de um centro de negócios e um conjunto residencial, pela identidade entre as formas curvas dos grandes prédios construídos no Brasil e o "estilo" Miami, difundido nas obras de Morris Lapidus. Obteve o visto por quinze dias (seu colaborador, Carlos Magalhães, o recebeu por seis meses) e, com grande alegria, chegou em Nova York no dia em que as Nações Unidas integravam no sistema mundial a China comunista. Sentimento que não foi compartilhado pelo seu assistente norte-americano, colaborador do presidente Kennedy.

Niemeyer criou uma grande plataforma de dois andares em toda a superfície da ilha. Essa superfície albergava o estacionamento, o centro comercial, os serviços e a infra-estrutura, e permitia liberar o terreno para as áreas verdes. No perímetro triangular da borda do mar, instalou um passeio. As lâminas curvas dos escritórios, de maior altura, eram colocadas em um extremo da ilha. No oposto, de menor altura, as lâminas dos prédios de apartamentos deixavam livre um grande espaço central. O conjunto esteve estruturado com uma localização dos blocos que permitiam visões panorâmicas para a baía e a cidade de Miami. A proposta não se concretizou e hoje a ilha, chamada Brickell Key, está ocupada por uma confusão formal e volumétrica de luxuosos condomínios de apartamentos. A lembrança do projeto ficou registrada no volume curvo do exótico hotel Mandarin.

Assim terminou o sonho americano de Niemeyer, que havia começado no Cadillac rabo-de-peixe com que circulava em Copacabana nos anos 50.

As casas tropicais
Desde o início de sua vida profissional, o tema da casa foi uma constante na produção arquitetônica de Niemeyer. A primeira, projetada em 1936, foi a pequena residência de Henrique Xavier, no Rio de Janeiro. Em 2004 fez a modesta casa de sua neta, também no Rio. Nesse percurso desenvolveu não somente uma diversidade de soluções formais e espaciais, mas também uma significativa variedade de escalas. Os extremos ficaram entre o monumental e luxuoso Palácio da Alvorada, em Brasília, primeira residência oficial desenhada para um presidente brasileiro, e a casa do seu motorista na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro.

Niemeyer nunca se interessou por divulgar sua obra erguida no exterior. Algumas, como a residência Strick, a única construída nos Estados Unidos, só foi publicada recentemente. Lembremos, assim, alguns exemplos paradigmáticos, como a casa E. de Rothschild (1965), no deserto de Cesárea em Israel, totalmente voltada para o espaço interior, contido em uma planta quadrada. E a residência de Nara Mondadori (1968-72), em Cap Ferrat, França, aberta para a paisagem marítima da Côte d'Azur, que dilata em grande escala a laje sinuosa da cobertura na Casa das Canoas.

Aproveitando a presença do mestre brasileiro em Nova York por vários meses, em 1947, o rico financista Burton Tremaine solicitou-lhe o projeto de uma casa em Santa Bárbara, Califórnia. O terreno situava-se em uma alta plataforma na beira do oceano Pacífico, com uma vista extraordinária para a paisagem marítima.

Aqui Niemeyer continuou as articulações lingüísticas que começara na Pampulha, estabelecendo um dialogo entre a herança racionalista dos volumes puros e a liberdade plástica das formas sinuosas que iriam caracterizar a sua produção posterior. Separou radicalmente as funções públicas e privadas. Em um retângulo colocado sobre pilotis, paralelo ao oceano, situou os quartos, protegidos por uma varanda com as empenas inclinadas para permitir a entrada controlada do sol no seu espaço aberto. Niemeyer tinha começado a utilizar essa solução na residência Prudente de Morais Neto, no Rio de Janeiro (1944), e depois a aplicaria nos projetos em Diamantina, MG. A circulação horizontal dos quartos se desenvolve em uma galeria protegida por uma fachada de brises, com um espaço central aberto onde fica a escada principal. Com essa distribuição, como aparece nos riscos de estudo da casa, garante-se o controle solar e a ventilação cruzada nos quartos, além de direcionar as visuais para o Oceano.

Entretanto, a parte mais original de residência aparece na extensa laje curvilínea que prolonga o espaço livre dos pilotis (lembrança da Casa do Baile, na Pampulha, e antecedente da cobertura da Casa das Canoas), que contém as salas de visita e de jantar, e a área de lazer ao redor da piscina, permitindo a percepção da paisagem marítima. Com essa solução, a introversão da vida privada era contraposta à dinâmica hedonista do espaço público, caracterizado pela sua continuidade e ao mesmo tempo pela identificação, com painéis divisórios, das particularidades ambientais das diferentes funções. O acesso é identificado por uma laje em balanço, e três abóbadas (referência à capela de São Francisco) definem a cobertura dos carros. O projeto não foi realizado.

O diretor cinematográfico de Hollywood, Joseph Strick, entusiasmado com os projetos de Niemeyer para Brasília, em 1964, decidiu solicitar-lhe uma nova casa em La Mesa Drive, situada perto de um country club e com vista para as montanhas de Santa Mônica. Diferente da proposta feita para os Tremaines, a solução nesse caso foi menos arrojada e mais identificada com a tipologia das casas californianas do que com a obra de Niemeyer. Como nunca visitou o terreno e não acompanhou a construção, Niemeyer nunca se interessou em divulgar essa casa em seus livros.

Com planta em T, que distribui os espaços públicos e privados, a mão do mestre aparece na qualidade e particularidade dos diferentes locais e nas transparências que permitem a percepção das montanhas. A leveza da estrutura de aço e madeira utilizada na região, que caracteriza a cobertura com vigas expostas moduladas, se contrapõe com a parede de tijolos que define a linearidade da entrada principal e delimita a área de serviço, disposta em um bloco cuja outra extremidade contém os quartos que, articulados com o living, configuram o pátio interno com piscina. Ao longo da construção os proprietários introduziram várias modificações ao projeto original, mas hoje a casa conserva a imagem básica criada por Niemeyer.

PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | Próxima >>


Destaques da Loja Pini
Aplicativos