UM OLHAR SOBRE A MODERNIDADE | aU - Arquitetura e Urbanismo

Entrevista

UM OLHAR SOBRE A MODERNIDADE

FORMADO NOS ANOS DE RESSACA DO MODERNISMO, O ARQUITETO PAULISTA ACENDE UMA LUZ SOBRE O PASSADO IMEDIATO E, ASSIM, NOS INSTIGA A QUESTIONAR O PRESENTE E A DESAFIAR O FUTURO

Reportagem de Simone Sayegh
Edição 144 - Março/2006
Em cerca de vinte anos de carreira, dos quais quinze como professor em importantes universidades, o arquiteto paulista Francisco Spadoni desenvolveu um gosto pelo desafio que o levou a percorrer diversos caminhos. Leciona, desenvolve pesquisas e se arrisca na experiência prática em que encontra o equilíbrio entre o pensar e o fazer. "No fundo, a idéia de arriscar é a idéia moderna", considera. Fruto de uma geração desencantada com o projeto moderno, Spadoni buscou abrir novos e diferentes caminhos após sua formatura, em 1984, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC de Campinas - FAUPUCC. Assim, dividiu-se entre a atividade prática em escritórios, a participação no grupo de editores da revista Óculum e a pós-graduação. Como pesquisador, iniciou seus estudos em Paris, em 1988, onde trabalhou no braço francês do escritório Kenzo Tange & Associates. De volta ao Brasil, continuou o processo de pós-graduação com a obtenção de mestrado e doutorado, este último em 2004, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde hoje é professor. Também participou de mostras, entre essas algumas Bienais Internacionais de Arquitetura, e esteve presente em páginas de publicações nacionais e estrangeiras. A vida acadêmica não o afastou da experiência prática. Pelo contrário, para o arquiteto foi esse caminho plural que o levou a buscar a qualidade e a análise crítica de seus projetos. "A atuação profissional é indispensável para a prática da docência em projeto", explica. De seu escritório saíram desenhos de mobiliário para salas de internet de instalações do Sesc, estudos para um sistema de terminais abertos de ônibus para a cidade de Goiânia e os planos diretores para os campi São Paulo e Tamboré da Universidade Mackenzie, projetos que renderam premiações importantes conferidas pelo IAB-SP. Além de projetos contratados, o escritório participa de inúmeros concursos de arquitetura, com destaque aos de projetos urbanos, uma das áreas que o arquiteto considera crucial no domínio da arquitetura. "Quando se fala em arquitetura se fala em cidade", afirma. Em entrevista a AU, Francisco Spadoni conta um pouco sobre história, arquitetura e cidade.


Vida acadêmica e atuação profissional se conciliam no dia-a-dia de Francisco Spadoni, que iniciou suas pesquisas em Paris, onde trabalhou no escritório local de Kenzo Tange. No Brasil, concluiu a pós-graduação na FAUUSP, onde é professor atualmente. Com seu escritório, desenhou o campus do Mackenzie em Barueri (à esquerda) e a ampliação do campus de São Paulo (ao centro). À direita, os mobiliários da sala de internet do Sesc de Santos, também trabalho de seu escritório


aU VOCÊ ATUA EM ÁREAS APARENTEMENTE DISTINTAS COMO A PESQUISA ACADÊMICA, A DOCÊNCIA E O DESENVOLVIMENTO DE PROJETOS QUE ENGLOBAM DESDE O DESENHO DE MOBILIÁRIO ATÉ INTERVENÇÕES URBANAS. É POSSÍVEL TRABALHAR EM VÁRIAS ESCALAS E AINDA MANTER UMA LINHA DE RACIOCÍNIO QUE IDENTIFIQUE SEUS TRABALHOS?

FRANCISCO SPADONI
Apesar do sentido de autoria, arquitetura é uma atividade que nasce fundamentalmente de uma ação coletiva. O escritório tem pessoas com perfis distintos que contribuem para o desenvolvimento de projetos em várias escalas. Além disso, existe uma forma de raciocinar arquitetura que pode estar presente tanto na escala do edifício quanto na da cidade. No fundo, arquitetura é uma estrutura de pensamento que reflete o espaço independentemente da escala que este espaço ocupa.

aU O DESIGN DE OBJETOS EXIGE ESSA MESMA ESTRUTURA DE PENSAMENTO?

SPADONI
Existe uma estreita colaboração entre o design e a arquitetura, mas não se pode comparar o desenho de um mobiliário ou de um equipamento com o desenho da cidade. De fato, a estrutura de pensamento é distinta. Quando se trabalha com a cidade é indispensável a proposição de hipóteses que ultrapassem a simples resolução de problemas. No fundo, a força cultural da arquitetura reside exatamente na capacidade de propor hipóteses. Já o design busca a solução de problemas. Resolve-se a garrafa térmica, a mesa, a cadeira. É um problema funcional que busca solução.

aU EXISTE UMA FORTE TENDÊNCIA NA ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA EM SUPERVALORIZAR A DINÂMICA DA CIDADE NO PROJETO DO EDIFÍCIO. ESSA INTENSA CONTEXTUALIZAÇÃO DO OBJETO CONSTRUÍDO É O CAMINHO NATURAL DA ARQUITETURA?

SPADONI
Quando se fala em arquitetura se fala em cidade. Ao menos tem sido assim nas últimas décadas. Entendo que uma das maiores contribuições à idéia da arquitetura nesses anos foi exatamente entender que ela não consegue viver fora do contexto da cidade. Mas a realidade, em especial a brasileira, nos contradiz a cada dia. Estamos transformando nossas cidades em verdadeiras cidadelas medievais, com suas torres ou condomínios murados como se isso representasse alguma qualidade além da estrita segurança. A própria idéia da casa está fora de contexto para um aglomerado urbano. É quase um experimento. Por outro lado, você tem razão, o problema da cidade tem roubado um espaço fundamental da arquitetura para desenvolver suas próprias questões. A ponto de toda a discussão em arquitetura que não envolva a cidade beirar a fronteira da ética.

aU EM CONTRAPARTIDA, AINDA É POSSÍVEL DISCUTIR CARACTERÍSTICAS ESTILÍSTICAS QUANDO SE FALA EM PROJETO DE ARQUITETURA? MUITOS EDIFÍCIOS ATUAIS SÃO CARREGADOS DE IMAGENS DO PASSADO...

SPADONI
O desenvolvimento de um projeto deixa certas marcas visuais que podem ser reproduzidas e que no conjunto são chamadas precariamente de estilo. É normal que um projeto dos anos 20, 30 ou 40 seja reproduzido, apesar de a idéia original ligada aos primeiros projetos se perder e se transformar em uma imagem. Isso acontece. A própria reconexão com o movimento moderno foi feita mais em função da imagem do projeto do que da verdadeira razão que levou àquela forma.

aU ALGUNS ARQUITETOS TÊM CRITICADO ESSA COLOCAÇÃO ALEATÓRIA DE IMAGENS ESTEREOTIPADAS ....

SPADONI
Nunca o apelo da mídia foi tão voraz quanto hoje em dia. Existem projetos muito semelhantes tanto na Holanda, quanto no Chile ou no Japão. É possível perceber uma homogeneidade na produção de arquitetura no mundo. Essa força da circulação da imagem é muito forte, mas é dessa armadilha que os arquitetos têm de fugir. Embora os arquitetos naturalmente especulem em cima de repertórios sedimentados que são conquistas históricas, é preciso estar alerta para a armadilha do desenho fácil.


Croqui mostra o projeto do campus da Universidade Mackenzie em Barueri, São Paulo

aU FALANDO EM DESENHO FÁCIL, EXISTE MODA EM ARQUITETURA?

SPADONI
A arquitetura em si não admite moda, pois a boa arquitetura tem que perdurar no tempo. A moda na ação de alguns arquitetos pode existir, mas com o tempo essas obras não vão ser chamadas de arquitetura...

aU PODEMOS INCLUIR NESSA QUESTÃO A PROFUSÃO DE EDIFÍCIOS NEOCLÁSSICOS ESPALHADOS PELA CIDADE DE SÃO PAULO?

SPADONI
Isso é uma tragédia e mostra uma questão que me incomoda muito. Por mais que a arquitetura moderna brasileira tenha formado um dos grandes projetos de autonomia cultural do País, sua força se diluiu no meio do caminho. A arquitetura moderna brasileira freqüentou mensalmente as publicações internacionais por mais de vinte anos e causou um grande impacto em todo o mundo. Então porque não se sedimentou como fato cultural a ponto de hoje o mercado permitir tantas distorções, como é o caso do neoclássico? Um filósofo francês em visita a São Paulo estranhou o fato de um shopping de luxo recém-inaugurado ter sido construído com um falso estilo, quando o verdadeiro luxo seria contratar um projeto inovador.

aU MAS DE ALGUMA MANEIRA, ENTRE O PROJETO MODERNO E OS DIAS DE HOJE A ARQUITETURA CAMINHOU E PRODUZIU EDIFÍCIOS E INTERVENÇÕES QUE MARCARAM A CIDADE...

SPADONI
O projeto moderno brasileiro vai até meados de 60, quando passa a sofrer uma crítica interna motivada pela exaustão resultante da repetição do projeto e pela onda de renovação trazida pelo debate pós-moderno que acontecia na Europa e nos Estados Unidos. Muitos arquitetos também saíram do País nesse período. Vivemos um maniqueísmo pueril entre os anos 80 e 90 entre o velho moderno e a novidade. O próprio pós-moderno foi muito mal-entendido, por sinal, e acabou transformando essa arquitetura em lojas de shopping, em produto mercadológico. Isso até meados da década de 90, quando o pós-moderno acabou como movimento também no plano internacional.

aU MAS MESMO ESSAS CONSTRUÇÕES DITAS PÓS-MODERNAS NÃO CONSTITUEM UMA EVOLUÇÃO DO PERÍODO MODERNO?

SPADONI
Sim. Mas não podemos generalizar. Sob esse rótulo coube um pouco de tudo. De bom e de ruim. Podemos dizer que Aldo Rossi ou Mario Botta vêm da herança moderna, mas não podemos dizer o mesmo dos irmãos Krier (Léon e Rob Krier) e sua reinvenção das cidades do século 19. O Brasil foi marcado mais pelo grande mercado, que viu no novo desenho uma possibilidade de negócio. Não podemos tomar o mercado como referência. Arquitetura é obra de repertório, que marca períodos. Somente quando esse repertório está sedimentado na cultura é que, ao se tornar um instrumento de mercado, não perde qualidade. É o caso da arquitetura residencial dos anos 50 e 60 em São Paulo e no Rio de Janeiro, de base moderna, que mostra uma cultura sedimentada. Não havia necessidade de se conhecer o arquiteto, existia um anonimato de autoria muito interessante. Quando a arquitetura de repertório tem uma aceitação cultural e social ela se transforma em um elemento de mercado. Essa deve ser a nossa busca, a busca pelo anonimato com qualidade.

aU PARECE DIFÍCIL QUE ALGUNS ARQUITETOS ATUAIS ACEITEM ESSE ANONIMATO...

SPADONI
Toda a sociedade está mais individualista do que foi há décadas. Os antigos ideais foram substituídos por ambições, mas a arquitetura só tem força quando enfrenta os desafios propostos por ideais. Quando a cultura vive um mesmo projeto amplo, independe o nome do arquiteto. Todos contribuem para um mesmo movimento que ganha força e se sedimenta. Infelizmente o excesso de individualismo que há atualmente impede a defesa de um grande projeto. Como artista, o arquiteto sempre estará vinculado ao seu projeto individual, mas ele pode e deve contribuir para o projeto coletivo. Se não existe a idéia de coletividade, o individual perde força e fica isolado. A luta pela idéia coletiva, que é a síntese da idéia moderna, é uma estratégia de vida e de sobrevivência.


aU EM SÃO PAULO VOCÊ LECIONA PROJETO EM DUAS DAS MELHORES ESCOLAS DO PAÍS, FAUUSP E MACKENZIE. COMO PROFESSOR, COMO ANALISA A FORMAÇÃO DO ARQUITETO?

SPADONI
Tem muita escola no Brasil, esse é o primeiro grande problema, mesmo que pelas nossas carências possa haver um mercado em potencial. Existem algumas instituições que carregam tradição, história e qualidade, com linhas de formação distinta e uma boa estrutura. A deficiência está na massificação do ensino sem critério, que aposta em uma seleção feita pelo mercado. Eu não acredito nisso. Temos de ter estruturas de formação muito rígidas, e não formar profissionais indistintamente. É uma idéia brasileira de caminhar mais ou menos. E não é só em arquitetura. Existem questionamentos até sobre a formação dos médicos! Há trinta anos tínhamos quatro ou cinco escolas e hoje temos cerca de 50. Como se formaram tantos professores para essas escolas? Como é a formação desses alunos?

aU SEU ESCRITÓRIO É RESPONSÁVEL PELO DESENHO DE UM NOVO CAMPUS PARA a universidade MACKENZIE. COMO É O PROJETO?

SPADONI
A instituição desenvolveu um plano de crescimento que implicava a implantação de um novo campus em um terreno de 750 mil m2 em Barueri, além da ampliação do campus de São Paulo. Em Barueri, a partir de um plano inicial de ocupação desenvolvemos uma série de propostas. A idéia era tentar preservar o máximo possível a topografia e transformar o campus em uma paisagem de excelência na região. Queríamos provar que mesmo uma grande ocupação como um campus poderia ter esse equilíbrio entre o construído e o natural. Então propusemos edifícios que "pousam" sobre o terreno, e criamos uma única rua de veículos que contorna todo o complexo. Esse projeto foi uma oportunidade interessante de pensar um problema nessa escala em uma área de acelerada urbanização.

aU E O CAMPUS DE SÃO PAULO, COMO FOI POSSÍVEL A AMPLIAÇÃO DE UM CONJUNTO de edifícios SITUADO EM MEIO A UMA ZONA DENSA E CENTRAL DA CIDADE?

SPADONI
As duas propostas são bem diferentes. O Mackenzie adquiriu alguns lotes periféricos para permitir um aumento de área no campus de São Paulo. E para evitar um adensamento interno optamos pela demolição de algumas construções - assim, criou-se uma grande praça central. Propusemos então uma verticalização periférica que acompanha o gabarito já existente na região. Dessa maneira liberamos o chão e reorganizamos os fluxos internos de circulação.

aU ALÉM DOS PROJETOS ENCOMENDADOS, O ESCRITÓRIO COLECIONA PREMIAÇÕES EM DIVERSOS CONCURSOS...

SPADONI
Essa coisa de propor e experimentar hipóteses nos leva a participar de muitos concursos até por uma política de sobrevivência do escritório. O concurso lhe dá o direito de arriscar mais. No fundo, eu gosto da idéia de arriscar porque é uma idéia moderna. A modernidade é exatamente a construção de uma nova atualidade.


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