O eterno vazio | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

O eterno vazio

e realidade na arquitetura Brasileira

Texto original de Roberto Segre
Edição 137 - Agosto/2005


Em um simpósio sobre a arquitetura na América Latina acontecido em Nova York, em 2002, Ruth Verde Zein manifestou que a produção moderna brasileira é um mito e que a contemporânea é um mistério. Considero que na comemoração dos 20 anos de AU cabe ratificar o mito e desvelar o mistério. Primeiro, porque continua a síndrome do modernismo nas elaborações teóricas recentes e, segundo, porque mesmo com centenas de boas obras publicadas, ainda persiste um complexo de inferioridade e de subvalorização da arquitetura produzida nas últimas décadas.

O mito tem três partes principais: 1) a significação do Movimento Moderno identificado com os exemplos excepcionais do prédio do Ministério da Educação e Saúde (1936) e da cidade de Brasília (1960), com a veneração dos seus fundadores, 2) a definição das escolas paulista e carioca e 3) o vazio produtivo no período da ditadura militar (1964-1984).

O interesse pelo período "heróico" da arquitetura brasileira se mantém vivo até hoje, como demonstram as recentes publicações nacionais e estrangeiras sobre o tema. Inclusive, até um crítico de renome internacional como Kenneth Frampton, quando escreve sobre a arquitetura na América Latina, se apaixona pelas obras daquela etapa. Por que esta obsessiva insistência? Pela primeira vez concordo com a afirmação feita por Charles Jencks sobre a procura - hoje maior do que nunca - dos conteúdos éticos e morais da arquitetura nesta época de dissipação, desorientação e de turbulência social e cultural.

Hotel Renaissance, em São Paulo, de Ruy Ohtake, publicado em AU 72. Ao lado de Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi e Joaquim Guedes, Ohtake representa a continuidade de uma linguagem arquitetônica brasileira

O que atrai naquele conjunto de obras é a liberdade interpretativa dos princípios canônicos do Movimento Moderno europeu, desenvolvidos por seus principais protagonistas, pessoas como Niemeyer, Costa, Reidy, os irmãos Roberto, Artigas, etc., com uma linguagem baseada nos atributos da cultura local, a interação entre um poder público em procura de soluções inovadoras e a disponibilidade de jovens arquitetos partícipes do Movimento Moderno e a seriedade funcional, construtiva e ecológica dos prédios realizados.

Princípios que perduraram até Brasília, fortalecidos pela longevidade dos atores - Costa, Niemeyer, Vital Brazil, Bologna - que nunca renunciaram aos seus ideais.

A figura de Oscar Niemeyer, dominante na arquitetura brasileira por quase um século, levou a identificar com a sua linguagem uma expressão da "identidade nacional", representada pela chamada "escola carioca". Com o desenvolvimento de variações sobre o tema, e o predomínio do concreto armado aparente, o eixo João Vilanova Artigas - Paulo Mendes da Rocha estabeleceu a dinâmica alternativa da "escola paulista".

Esse mito prescreveu na atualidade com a inserção de contaminações mútuas e de alguns poucos elementos formais dissímiles que poderiam até chegar à definição de um "estilo". Os princípios essenciais do Movimento Moderno foram mantidos rigorosamente, e as diferenças pertenceriam mais à linguagem pessoal do arquiteto e a uma resposta ao condicionamento rural ou urbano do sítio e ao seu ambiente "ecológico": as casas "tropicais" de Rino Levi não estão distantes das desenhadas por Sérgio Bernardes; o Museu de Arte Moderna de Affonso Reidy, no Rio de Janeiro, é tão "brutalista" quanto o Masp de Lina Bo Bardi, em São Paulo; os grandes vãos sem apoios internos foram utilizados igualmente por Niemeyer e Vilanova Artigas; a viga monumental do Memorial da América Latina, de Niemeyer, é conceitualmente parecida com a laje do Mube de Paulo Mendes da Rocha. Não é por acaso que Sérgio Ferro, oposto à noção de "estilo", criticasse intensamente o formalismo e o exibicionismo estrutural de um "brutalismo caboclo" assumido como brasileiro.

Terra Brasilis, em São Paulo, de Königsberger Vannucchi, matéria de capa de AU 33. Antológico, o edifício carrega referências à plasticidade barroca brasileira

Como demonstraram Bruno Padovano (em Arquitectura contemporánea en Brasil: Qué ha ocurrido después de Brasília), e Hugo Segawa (em Arquiteturas no Brasil, 1900-1990), no período da ditadura militar, regime que pretendia construir o "Brasil grande e moderno", não aconteceu o "silêncio arquitetônico". Ao contrário, foram produzidas obras significativas em todo o País. Como os arquitetos e os edifícios dependem mais da economia do que de ideologia, ocorreu em quase todos os países da América Latina que, das mais duras ditaduras - como a de Pinochet no Chile, e a de Videla na Argentina - surgiriam prédios de qualidade projetados por reconhecidos profissionais.

Além das grandes obras de infra-estrutura e dos edifícios faraônicos das instituições estatais, quase todos os arquitetos de renome produziram alguma obra de interesse. Ainda que perseguidos pela militância comunista, e sem diálogo como o governo, também João Vilanova Artigas e Oscar Niemeyer trabalharam nesse período: Artigas fez o conjunto habitacional CECAP (1967) e o Quartel da Guarda Territorial de Amapá (1971). Oscar desenhou a Estação Rodoferroviária (1970) e o Auditório do Quartel General do Exército (1977)- este, com uma forma de cobertura logo repetida no recente Pavilhão Serpentine, em Londres (2003). Niemeyer fez ainda o Memorial JK (1980) e o Memorial dos Povos Indígenas (1982), entre outros em Brasília. Por sua vez, Sérgio Bernardes, segundo Lauro Cavalcanti em Sérgio Bernardes - Herói de uma tragédia moderna, imaginou a possibilidade de colaborar com a ditadura, construindo o Centro de Convenções (1973), também na capital federal.

Se a prática não foi contaminada pela ideologia, a teoria sofreu os embates da ditadura. O debate nas instituições profissionais e nas escolas foi interrompido e os professores de esquerda expulsos das universidades.

Restrita a poucas publicações, a crise intelectual prolongou-se até o final da década de 70. Em 1977 iniciou-se a publicação de Projeto, a revista Módulo reapareceu e, com a volta da democracia, em 1985, surgiu AU. É interessante verificar como o vazio ideológico e cultural dos anos precedentes gerou a necessidade de um contato direto entre os arquitetos e os políticos, sociólogos e principais intelectuais progressistas. A revista AU canalizou essa demanda ao longo dos primeiros cinco anos de existência: entre 1985 e 1990, escreveram nas suas páginas Frei Betto, Roberto DaMatta, Darcy Ribeiro, Luís Carlos Prestes, Celso Furtado, Milton Santos, Fernando Henrique Cardoso, Hélio Jaguaribe e Carlos Nelson dos Santos. Foi a chama que reavivou o fogo do compromisso social da arquitetura.
Edifício Bandeirantes, em São Paulo, de Aflalo & Gasperini, capa de AU 59. A leveza da obra que acomoda agência bancária e escritórios a faz figurar entre os prédios empresariais de boa arquitetura

Cosmopolitismo nativo
Se os militares procuraram modernizar o País com uma posição nacionalista, os sucessivos governos democráticos aderiram-se ao processo do neoliberalismo e à globalização da economia dominantes no mundo.

Entre o governo Collor, no final da década de 80, e a longa duração do governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil foi submetido à influência dos modelos do Primeiro Mundo com a entrada das grandes empresas internacionais nos sistemas financeiro e produtivo local. Houve ainda as privatizações e a redução do papel do Estado e da sua função social, além da acelerada difusão do consumismo nas classes emergentes.

Em conseqüência, aprofundaram-se as contradições sociais: com a expansão urbana cresceram as favelas nas principais capitais, aumentou o desemprego e piorou o nível de vida de milhões de brasileiros. A especulação imobiliária se transformou no motor principal do desenvolvimento das cidades, gerando a banalidade e mediocridade arquitetônicas apontadas por alguns críticos, entre eles Edson Mahfuz e Carlos Eduardo Comas, verificadas em conjuntos residenciais, shoppings e prédios de escritórios anônimos. Foi a criação da cidade cenográfica e frívola, satirizada pela escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, em 1987, sob a denominação de Tupinicópolis.

Numa visão "extremista" do estado da arquitetura nas duas últimas décadas, as figuras representativas da vanguarda local ficaram reduzidas a poucos nomes: Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi, Joaquim Guedes e Ruy Ohtake. Sem dúvida, eles representam a continuidade de uma linguagem arquitetônica brasileira nas interpretações diferenciadas que conseguiram desenvolver em temas culturais ou públicos, sem se submeter às solicitações do sistema corporativo - o maior produtor de prédios na década final do século 20. De fato, a maioria desses edifícios, idealizados sem o compromisso com uma busca por caminhos alternativos ao que se produz no mundo desenvolvido, conforme se destaca nas publicações e prêmios patrocinados pela AsBEA, carece de uma significação cultural.

Dois momentos do traço criativo de Ruy Ohtake: no alto, o edifício do Instituto Tomie Ohtake e, acima, as formas provocadoras do Hotel Unique, ambos em São Paulo



Mas a realidade não é só em preto e branco. Alguns escritórios de diferentes cidades do Brasil tentaram encontrar um compromisso entre a demanda de clientes e empresários - sempre impondo modelos cenográficos ou restrições estabelecidas pela rentabilidade econômica -, e a criatividade do arquiteto, voltada para desafios estéticos e simbólicos que pudesse estabelecer uma contribuição à cultura social urbana e ao diálogo entre os edifícios e a cidade. Nesse sentido, AU colaborou na identificação da qualidade arquitetônica internacional e nacional, mas principalmente em encontrar identidades com a produção dos profissionais latino-americanos.

Até o momento, os parâmetros funcionais para prédios altos de escritórios têm sido rígidos. Mesmo assim, desde os primeiros erigidos em Chicago e Nova York, sempre se explorou uma iconicidade que os identificasse no contexto urbano, como se demonstrou na multiplicidade de projetos para o Ground Zero em Manhattan para substituir as torres gêmeas do WTC.

Em algumas cidades de menor porte, os projetistas transformaram as torres em objetos plásticos. Fernando Peixoto, por exemplo, utilizou as referências do Op-Art no Centro Empresarial Previnor (1993) em Salvador, e a turma dos jovens pós-modernos sob a direção de Éolo Maia estabeleceram, em Belo Horizonte, um diálogo de pináculos e geometrias, lembrando a percepção à distancia das torres medievais, caso do Centro Empresarial Raja Gabaglia, de Éolo e Jô Vasconcellos (1989); do Capri, de João Diniz (1992); e do Nashville, de Flávio Almada (1992).

Em São Paulo, cidade integrada ao sistema de megalópoles mundiais, reproduziram-se os modelos universais de business ou financial center, definidos por monumentais prédios de estrutura de aço e vidros espelhados como, por exemplo, o Centro Empresarial Nações Unidas (1990-99) de Botti & Rubin, ou o antagônico diálogo de formas arbitrárias estabelecido na avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini pelas múltiplas torres de Carlos Bratke. No Rio de Janeiro, Edison e Edmundo Musa, no Rio Branco I (1989), e Paulo Casé, no Rio Metropolitan (1995), ecoaram o formalismo superficial do pós-modernismo internacional.

Pousada na ilha de Silves, obras de Severiano Mário Porto, líder na busca pela adaptação da arquitetura ao sítio, ao clima e aos materiais regionais

Casa Valentim, em Blumenau, SC, de Marcos Acayaba com Fábio Valentim e Suely Mizobe. Acayaba conferiu expressão contemporânea à estrutura de madeira


Mas alguns desses edifícios são dignos de nota, considerando o estudo refinado dos detalhes, a originalidade plástica e compositiva e o relacionamento com o contexto urbano. É o caso do antológico Terra Brasilis (1991) de Gianfranco Vannucchi e Jorge Königsberger, que carrega referências à plasticidade barroca brasileira, e também da leveza do edifício Bandeirantes (1995), de Aflalo & Gasperini. A originalidade estrutural do edifício Parque Paulista (1995), de Botti Rubin, e as cores fortes do hotel Renaissance e do Instituto Tomie Ohtake (2004), além das provocadoras formas do hotel Unique (2003), três obras saídas da prancheta de Ruy Ohtake, são referências da produção paulistana recente, assim como o resgate do primeiro modernismo impresso na Sede do Conselho Regional de Contabilidade (1995), de Amá, Barbosa e Corbucci.

O Estado ausente
Nos últimos vinte anos, a população urbana do Brasil cresceu exponencialmente, superando a rural. Mas a expansão incontrolada das cidades não foi acompanhada pela criação das infra-estruturas indispensáveis para o seu funcionamento harmônico. Além da ausência de planos diretores para os novos municípios criados no País, os problemas criados nas metrópoles pela irracionalidade do transporte público e insuficiência de abastecimento dos sistemas de água, esgoto e energia multiplicam-se e agravam-se, demonstrando a ausência do Estado no desenvolvimento arquitetônico e urbanístico do País.

As privatizações de serviços e de empresas do Estado desencadearam o surgimento, nos anos 90, de movimentos comunitários que fortaleceram os governos municipais e incentivaram iniciativas voltadas para melhorar as condições de vida nas cidades e intervenções no espaço público. A "metamorfose" ¿ tema da 9a Mostra Internacional de Arquitetura de Veneza (2004) ¿ que ocorreu em diversos centros urbanos espalhados pelo País, foi o fato mais importante nessa transição de milênio. As iniciativas de Jaime Lerner em Curitiba a converteram em um "cartão postal" do controle possível numa cidade de porte médio, ainda com as contradições sociais e econômicas que nela persistem. A criação dos eixos viários para o transporte público, o anel verde contendo importantes funções culturais e a revitalização do Centro da cidade, que inclui a Rua 24 Horas de Abrão Assad (1990), serviram de exemplo para outras iniciativas semelhantes, no Brasil e no exterior.

Residência de Cláudio Bernardes em Itanhangá, no Rio de Janeiro.

No comando da maior megalópole do continente sul-americano, as sucessivas prefeituras de São Paulo desenvolveram importantes iniciativas. Com a celebração do seu 450o aniversário, foram chamados alguns dos melhores arquitetos paulistas para promover a transformação de velhos prédios acadêmicos em centros culturais, a reocupação de edifícios vazios para moradia de interesse social e a renovação de favelas, obras que visam resgatar uma dinâmica social perdida nas áreas centrais.

No Rio de Janeiro, os prefeitos César Maia e Luiz Paulo Conde elaboraram, ao longo dos anos noventa, os programas Rio-Cidade e Favela-Bairro, revitalizando os espaços públicos de regiões periféricas e inserindo funções sociais na densa malha urbana espontânea das favelas. Em Porto Alegre, prédios antigos foram refuncionalizados, como o Mercado Público (1990) e o hotel Majestic, transformado em Centro Cultural Mário Quintana por Flávio Kiefer e Joel Gorski (1987).

Em Belo Horizonte, as abandonadas áreas do lago da Pampulha e os prédios de Oscar Niemeyer ressurgiram com nova infra-estrutura e espaços verdes projetados por Gustavo Penna e Álvaro Hardy (2002). Em Recife, não prosperou a original iniciativa do Camelódromo de José Zecca Brandão e Ronaldo Lamour (1994), que reunia em uma estrutura urbana transparente os vendedores ambulantes. Finalmente, em Fortaleza, o centro cultural Dragão do Mar (1999) e, em Belém, a Estação das Docas e o Mercado Ver-o-Peso (2000-2002) permitiram o resgate de prédios históricos e do relacionamento entre a cidade e a paisagem natural.
Centro de Reabilitação do Hospital Sarah Lago Norte, em Brasília, de João Filgueiras Lima (AU 95). Lelé conseguiu sintetizar a dialética global-regional, em favor da inovação sem negar a tradição


A síndrome da coexistência
Na abertura da 26a Bienal de São Paulo, em 2004, o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, afirmava que a cultura brasileira é identificada pelo carnaval, o futebol-arte, a capoeira e o samba, que, segundo Ferreira Gullar, são as expressões populares reveladoras da mestiçagem racial e social que a caracteriza. Também Glauber Rocha identificava na brasilidade uma "força descolonizadora e revolucionária". Sérgio Ferro, ao falar da "estética da revolução", opôs os materiais sem história - o ferro e o concreto - à construção tradicional de tijolo, pedra e madeira, realizada manualmente, numa nova valorização do trabalho definido por Antonio Negri e Michael Hardt, baseado no seu conteúdo "altamente científico, afetivo e cooperativo", alheio à alienação da industrialização capitalista.

Essa dualidade cosmopolita-regionalista, entretanto, constitui uma força contida nas contradições da cultura do mundo globalizado, criando produtos culturais que são consumidos com a mesma intensidade. Um exemplo é a recente coincidência de duas opções contraditórias nas salas de cinema: Diários de Motocicleta, de Walter Salles, e Kill Bill, de Quentin Tarantino. Fenômeno que se reproduz também na arquitetura. Os prêmios mundiais da importância do Pritzker, do Mies van der Rohe, da AIA Gold Medal ou do Imperial do Japão são concedidos tanto aos criadores de imagens associadas com a alta tecnologia (Norman Foster, Rem Koolhaas, Zaha Hadid, Herzog & de Meuron), como aos defensores das expressões técnicas e plásticas locais, caso do australiano Glenn Murcutt, do americano Samuel Mockbee e do nosso Oscar Niemeyer.

Com a criação dos Seminários de Arquitetura Latino-americana (SAL) nos anos 80, surgiu uma tendência, nessa região, em defesa de uma arquitetura "regionalista", em coincidência com as teses de Alexandre Tzonis, Liane Lefaivre e Kenneth Frampton, que advogam o "regionalismo crítico" em oposição a um cosmopolitismo "genérico", em favor da inovação sem renunciar à tradição. Entre seus principais representantes citemos o fundador mexicano Luis Barragán, Rogelio Salmona na Colômbia, Fruto Vivas na Venezuela, Fernando Castillo no Chile, Cláudio Caveri na Argentina, Eladio Diste no Uruguai.

No Brasil, Severiano Mário Porto foi o líder nessa busca pela adaptação da arquitetura ao clima, ao sítio e à utilização dos materiais locais. A sua produção na Amazônia foi continuada pelos arquitetos Gerson Castello Branco e João Castro Filho, nas estruturas de madeira, nos telhados extensos de palha e telhas e na transparência do espaço interior.
Residência Du Plessis, em Paraty, de Marcio Kogan, publicada em AU 123. A moldura de pedra mineira confere identidade à obra, um dos exemplos da boa arquitetura praticada pela geração mais jovem

Casa de veraneio no litoral norte de São Paulo, de Nitsche Arquitetos Associados. A nova geração busca respostas ao modo de viver e à cultura local


Uma leitura da urbanidade da função administrativa apareceu no elaborado prédio de tijolos da Companhia Hidrelétrica do São Francisco, em Salvador (1979), de Francisco Assis Reis. A transcrição da "cabana primitiva", tanto numa chave vernácula como numa tecnológica foi desenvolvida nas casas dos cariocas Sérgio Bernardes (1919-2002) e de seu filho Cláudio Bernardes (1949-2001), de José Zanine Caldas (1918-2001) e do paulista Marcos Acayaba, que geometrizou numa expressão contemporânea a estrutura de madeira. Mas a síntese equilibrada entre a dialética global-local foi obtida por João Filgueiras Lima, o Lelé, no conjunto de prédios públicos e na série de hospitais da rede Sarah Kubitschek, nos quais a liberdade plástica e compositiva, o intenso cromatismo e a integração com a natureza se completaram com uma tecnologia avançada, "apropriada" às condições materiais e econômicas do Brasil.

A globalização criadora
Desde os inícios dos anos 90, as revistas especializadas vêm dedicando muitas páginas para a difusão das obras de arquitetos jovens. Também nas Bienais de São Paulo, nas premiações dos departamentos regionais do IAB e nos concursos organizados por empresas privadas, a geração dos 90 tem tido destaque. Mas, além do pequeno grupo de profissionais que aparecem nas revistas e nos livros, existirá algum futuro ou alguma esperança para aqueles que se iniciam na prática arquitetônica?

Estatisticamente, o futuro parece sombrio, considerando a existência de mais de 100 mil arquitetos e outros tantos estudantes espalhados nas 140 escolas existentes no País e a escassa demanda atual de projetos. Prevendo que o Brasil terá, em 2020, 209 milhões de habitantes, a necessidade de planejadores, urbanistas, paisagistas e arquitetos deveria acompanhar a criação de novas cidades, as milhões de unidades habitacionais a construir, a infra-estrutura e os serviços sociais necessários para a população.

Sede administrativa da Gul, empresa de confecção na zona leste de São Paulo, de Guilherme Margara e Alexandre Cafcalas. Emprego de novas tecnologias construtivas para refletir a linguagem da marca

Na realidade, porém, a presença do Estado nesses encargos é mínima em comparação com as empresas privadas que, em geral, são dominadas pelos interesses especulativos. Acresça-se a isso a visão cultural por parte dos clientes de alto poder aquisitivo, que não mais assumem a arquitetura como expressão de "brasilidade". Além do desrespeito aos projetistas, expresso nos baixos honorários, a arquitetura atualmente quase não comparece na grande imprensa. Em resumo: os principais encargos continuam nas mãos de um pequeno número de grandes escritórios que dominam o panorama nacional. Uma realidade que é oposta ao que acontece em um pequeno país como a Holanda, onde a alta qualidade da sua arquitetura e a participação de jovens profissionais é uma das preocupações do governo e das prefeituras, que promovem o alto nível dos conjuntos habitacionais e das intervenções no espaço público.

Sintetizando algumas características dos arquitetos jovens, cabe assinalar que essa geração se libertou da influência direta dos mestres consagrados, não acreditam mais na teoria das escolas regionais e não se ofuscam com as modas internacionais do "star system". Em uma produção essencialmente caracterizada por temas de pequeno porte inseridos no contexto urbano, a temática "regionalista" e a expressão formalista da "brasilidade" assumem uma importância menor.

Essa nova geração assume com seriedade a herança do Modernismo heróico dos anos 30 nos seus conteúdos éticos, construtivos e funcionais, na adaptação ao clima e uso livre de materiais tradicionais ou de alta tecnologia. Busca uma resposta aos modos de viver e à cultura local, esquecendo o discurso utópico sobre um futuro desconhecido e inacessível. Surge, assim, uma arquitetura "realista", quase neutra, composta de elementos formais e espaciais elementares, mas articulados nas novas geometrias e nos princípios dinâmicos e interativos que caracterizam a contemporaneidade.

Ao mesmo tempo, a produção desses jovens é baseada numa rejeição aos formalismos gratuitos, aos discursos grandiloqüentes, à superficialidade de uma linguagem assumida do exterior. Sem dúvida, as duras condições que definem os parâmetros da produção arquitetônica - não somente o escasso apoio cultural da comunidade, mas também o limitado conteúdo social das obras - a distanciam da maior originalidade do design que conta, por exemplo, com a obra de Fernando e Humberto Campana e da vanguarda artística e cinematográfica.
Casa em Petrópolis, RJ, de José Kos. A herança do Modernismo heróico dos anos 30 é assumida com seriedade pelos jovens arquitetos

Catedral do Campo Limpo, na periferia de São Paulo, de Projeto Paulista (AU 74). A nova arquitetura rejeita formalismos gratuitos e discursos grandiloqüentes


Daqui pra frente
Será possível, na insegurança do mundo atual, fazer boa arquitetura e resgatar a beleza perdida da vida urbana? Para que isso aconteça, além das necessárias mudanças sociais e econômicas, é fundamental estimular o reconhecimento social do valor do trabalho profissional, ou seja, não considerar o arquiteto um luxo, mas uma ajuda indispensável de que se necessita para melhorar e qualificar a dimensão espacial da vida quotidiana.

Para tanto é imprescindível desenvolver uma campanha de conscientização por intermédio das mídias e, ao mesmo tempo, uma maior integração dos arquitetos com a comunidade. Poderia ser desenvolvido o conceito de "arquiteto do bairro", semelhante ao do médico da família. Também é preciso assumir que, no futuro, mais que o desenho de prédios novos, o desenho mais comum será a adaptação dos prédios existentes, num constante processo de reciclagem urbana.

Com a quantidade de profissionais que existe no Brasil, tem que mudar a ansiedade por dispor cada um de um escritório privado e desejar projetar sofisticados prédios isolados. Se fosse possível reverter a excessiva centralização do País, as prefeituras e os governos locais poderiam ter maior liberdade de iniciativas no desenvolvimento das estruturas urbanas e estimular a contratação de arquitetos para trabalhar nos departamentos estatais e municipais, ou apoiar as ONGs e cooperativas de profissionais, projetando, não somente os espaços públicos necessários, mas os prédios sociais em cada comunidade.

A arquitetura e o urbanismo não podem ser privilégio das elites, que usufruem a qualidade dos espaços e prédios onde moram, trabalham e descansam. Os arquitetos devem rejeitar as imposições das imobiliárias e dos clientes ricos de "decorar" os prédios com temas clássicos e acadêmicos, alheios às imagens da cultura contemporânea. É antiético e imoral manter indefinidamente os subúrbios degradados, a feiúra associada à pobreza e à miséria. Se por um lado é necessário resolver os problemas essenciais da sociedade - o trabalho, a saúde, a fome -, a qualidade de vida e os valores estéticos do ambiente construído são também questões vitais para a comunidade, e é responsabilidade dos arquitetos e urbanistas oferecer seus conhecimentos e sua criatividade para que os homens e mulheres que habitam este mundo conturbado e contraditório tenham sua parcela cotidiana de harmonia e felicidade.

Escola Estadual F2, em Campinas, SP, de Andrade Morettin. Formação acadêmica séria e a referência direta à obra de Paulo Mendes da Rocha caracterizam a nova geração

Lussá Marcenaria, em São Paulo, de Juliana Lussá e José Alves. A produção mais jovem preza elementos formais e espaciais elementares, mas articulados em novas geometrias e princípios dinâmicos

Residência Schaeffer Novelli, em São Paulo, Nave Arquitetura. Inserida no contexto urbano e de pequeno porte, a produção jovem confere menor importância à temática "regionalista"

Mercado Público de Itaqui, RS, de Espaço Sideral. A arquitetura da "geração 90" é realista, quase neutra e livre do compromisso de expressar uma "brasilidade"

Sede regional do Banco do Brasil, em Porto Alegre, de Studio Paralelo. A arquitetura hoje enfrenta o escasso apoio cultural da comunidade, além do limitado conteúdo social das obras

Escola de ensino fundamental, em Campinas, SP, de UNA Arquitetos. Fidelidade aos conteúdos éticos, construtivos e funcionais do movimento moderno marca a produção jovem

 

Casa em Nova Lima, MG, de Carlos Teixeira (AU 96). Teixeira teme o colapso da profissão caso os arquitetos não se tornem mais críticos


Circo Voador, no Rio de Janeiro, de DDG Arquitetura (AU 130). Sistemas e materiais inovadores são tão bem aceitos pelos jovens arquitetos quanto os tradicionais


Projeto de mercado de abastecimento em planejamento territorial na periferia de Santo Domingo, República Dominicana, de Washington Fajardo. O discurso utópico sobre o futuro foi deixado de lado

Restaurante Z Contemporâneo, no Rio de Janeiro, de Miguel Pinto Guimarães. Livre de influências diretas dos grandes mestres e das teorias das escolas regionais, a arquitetura torna-se espontânea

Casa em Ibiúna, SP, de Núcleo de Arquitetura (AU 132). Com influências de Alvar Aalto e Joaquim Guedes, a obra funde a expressão de cada espaço à forma idealizada

Parque do Mindu, no Amazonas, de Roberto Moita. A inserção na natureza, pelo uso da madeira e outros materiais naturais não faz do trabalho de Moita uma manifestação regionalista

Casa Slice, em Porto Alegre, de Fernando Rihl, cujos projetos fortemente influenciados pela informática e artes aplicadas questionam a noção clássica dos planos horizontal e vertical do modernismo

Intervenção na cobertura de edifício residencial, no Rio de Janeiro, de J&F Hue. O trabalho demonstra total respeito pelos códigos modernistas


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AU 55 (1994) - Oscar Niemeyer
AU 38 (1991) - Documento Lucio Costa
AU 74 (1997) - 40 anos do Plano Piloto de Brasília, Lucio Costa


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