Aberto ao público | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Aberto ao público

Valentina Figuerola
Edição 103 - Setembro/2002
Após cinco meses de intensa reforma, o Itaú Cultural, em São Paulo, reabre para o grande público. Roberto Loeb, responsável pela intervenção, associou a transparência à racionalização de circulações e acessos para conferir ao edifício o caráter de espaço público, aberto à cidade. Com áreas expositivas ampliadas, a instituição traz novidades como o Ponto Digital, salão dedicado à arte cibernética
Conquistar o público. Esse era o objetivo do banco Itaú ao contratar o arquiteto Roberto Loeb para realizar o projeto de reforma do centro cultural mantido pela instituição. Projetado pelo engenheiro Ernest Mange, o edifício, construído em 1995, apresentava problemas funcionais que impediam a incorporação do novo programa imposto pela atual direção do Itaú Cultural. Além das artes visuais e do design, o local passou a abrigar atividades relacionadas a cinema, teatro, dança e literatura.

Uma das principais mudanças implantadas por Loeb foi o estabelecimento de um único acesso de visitantes para o edifício, feito agora pela avenida Paulista. "Antes, as pessoas não sabiam se a entrada era pela Paulista ou pela rua Leôncio de Carvalho", justifica o arquiteto, que privilegiou o vão livre em todo o térreo da construção. A reforma também se estendeu ao auditório, cuja visibilidade e capacidade foram melhoradas.

O acesso principal ganhou destaque especial com uma marquise metálica. Sob a marquise, uma área de transição entre o espaço público da calçada e a área expositiva oferece abrigo às pessoas que transitam na rua. O local também conta com duas entradas secundárias: uma para funcionários, pela avenida Paulista, e outra de serviços, pela rua Leôncio de Carvalho.

Recuado em relação à avenida Paulista, o edifício apresentava pouca visibilidade na paisagem urbana. Para solucionar o problema, foi previsto em projeto um logotipo escultórico branco, uma peça de fibra de vidro que registra o nome Itaú Cultural. Com 5 m de balanço, o elemento gira em dois sentidos e chama a atenção da multidão de pessoas que circula diariamente por uma das avenidas mais movimentadas do País.

A criação do logotipo também foi importante para estabelecer uma identidade para o edifício, que agora é um ponto de referência na paisagem urbana. Em branco, a estrutura metálica do prédio e as placas de alumínio composto da fachada conferiram cara nova à construção, que agora transmite leveza.

Distinguir os espaços antigos dos novos foi uma das metas de Loeb, que procurou evidenciar as novidades trazidas pela reforma, sobretudo as modificações na estrutura e instalações técnicas do edifício, deixadas aparentes no 1o andar e no piso Nacela. Aparente, a estrutura metálica foi deixada em sua forma natural, sem o chapeado que disfarçava os perfis do tipo I dispostos na fachada.


Soluções estruturais
Mais extenso do que o anterior, o programa arquitetônico exigiu profundas transformações da construção. Alguma delas radicais, como o deslocamento da circulação vertical para um dos cantos do prédio. "Localizada na parte central da planta, a antiga circulação atrapalhava as exposições", explica o arquiteto. Loeb criou uma escada metálica branca, localizada junto à caixa de elevadores, na fachada principal do edifício.

Segundo o engenheiro calculista Jorge Zaven, a parte mais complexa de toda a obra foi a construção da escada, que atravessa os cinco pavimentos do Itaú Cultural. "Para construí-la, foi aplicado um método construtivo especial, com corte das lajes protendidas", explica, "houve, ainda, corte da cablagem de aço e a criação de novos apoios para as lajes e novas fundações", acrescenta. Para Zaven, outro aspecto notável da reforma foi a cobertura em balanço do restaurante, construída por meio de um prolongamento da laje do prédio.

A escada foi fundamental para racionalizar os fluxos e integrar os espaços internos ao entorno do centro cultural. Painéis de vidro revelam o interior do edifício aos pedestres, além de presentear os freqüentadores do Itaú Cultural com uma vista privilegiada da avenida Paulista. No que se refere às soluções técnicas e construtivas, Loeb adotou uma iluminação flexível em todo o local, que agora apresenta novas instalações elétricas, sanitárias e de ar-condicionado. Com exceção da arena e da escada principal, todos os ambientes apresentam piso epóxi.

Em apenas cinco meses, 3 mil m² da instituição foram transformados. A rapidez da reforma fez com que o detalhamento do projeto ocorresse simultaneamente à obra. A antiga fachada de vidro fumê foi parcialmente substituída por placas brancas de alumínio, o que ampliou a área de parede para exposição em quatro pavimentos: Leôncio, Mezanino, Nacela e 1o andar. Aberturas no piso e nas paredes de concreto trouxeram iluminação natural para os pisos do subsolo.

A integração dos espaços norteou a intervenção, sobretudo no térreo, onde painéis de vidro fumê da fachada e dois apoios foram eliminados. Removidos, os pilares centrais foram substituídos por tirantes embutidos em painéis de alumínio composto localizados na altura do piso Mezanino. "Assim, as cargas atribuídas aos apoios foram transferidas às treliças metálicas da construção", explica Loeb.


Mais espaços
As mudanças possibilitaram a integração de espaços como o Ponto Digital, o foyer e o restaurante, situados no térreo do edifício. Removíveis, os painéis de vidro do restaurante, na varanda, permitiram a ampliação do foyer. Uma das vantagens do pavimento é que ele pode ser destinado a um único evento, posto que todos os ambientes estão conectados entre si, inclusive o auditório. O projeto também contemplou a ampliação da cozinha, que foi reformulada para atender às novas necessidades da instituição.

Apesar de todas as intervenções realizadas, a área para exposição ainda era insuficiente e precisava de ampliação. Por isso, como o número de vagas do edifício excedia o exigido pela legislação, o antigo estacionamento, no subsolo, foi transformado em espaço expositivo. As rampas existentes como acesso de cargas foram incorporadas ao espaço. O público tem acesso à área por meio dos elevadores e da nova escada metálica.

Com os apoios eliminados, houve um melhor aproveitamento da varanda voltada para a rua Leôncio de Carvalho. Um antigo pórtico foi retirado e substituído por tirantes que passaram a transferir a carga vertical para treliças metálicas. "No térreo, praticamente não temos pilares", explica Roberto Loeb, que também eliminou escadas e caixilhos inclinados do pavimento, que ocupavam uma área grande dos pisos Mezanino e Nacela.

Ao realizar o projeto do Itaú Cultural, Roberto Loeb explorou soluções até então novas para ele, como a criação de elementos móveis e mecânicos. A varanda, espaço externo ao prédio, costumava ser provisoriamente coberta com placas de madeira e materiais plásticos devido à grande demanda de espaço da instituição. "Além de feia, a solução era muito trabalhosa", critica o arquiteto, que concebeu um teto escamoteável para o ambiente, uma exigência da prefeitura para uma área onde não é permitida qualquer construção definitiva.

Automatizada, a cobertura é acionada por meio de pistões de pressão hidráulica. Placas de fibra de vidro curvas abrem-se completamente na vertical, permitindo que a varanda fique aberta. Uma marquise foi criada para ligar o teto à construção. Além deste espaço, um antigo terraço localizado no piso Nacela foi transformado em arena e coberto com um elemento retrátil. Voltado para espetáculos, aprendizagem, treinamento e aulas abertas e informais, o ambiente foi vedado com uma parede de vidro para proteção contra as intempéries.



Ficha técnica
Arquitetura e interiores: Roberto Loeb - Roberto Loeb e Associados
Colaboradores: Luis Capote, Nicola Pugliese, Francisco Cassimiro, Fernanda Pinha
Gerenciamento de obras: Banco Itaú S/A (Sérgio B. Mendes, Maria Lúcia Pereira, Manoel Teixeira, Marco Ronconi)
Execução de obras: Método Engenharia
Projeto acústico: Acústica Engenharia
Projeto de ar-condicionado: Thermoplan
Projeto audiovisual: Eav Eletrônica
Projeto de caixilhos e consultoria de vidros: Mário Newton Leme Consultoria
Projeto de cozinhas: Cocicov Consultoria e Objetos para Alimentação
Projetos de elétrica, hidráulica e combate a incêndio: Soeng
Projeto estrutural: Kurkdjian & Fuchtengarten
Projeto de iluminação: Radix Studio de Design
Projeto de estruturas e mecanismos hidráulicos e eletromecânicos: VMC

Fornecedores
Revestimento em ACM: Alubond; corian: Alpi; gesso acartonado e forro de gesso: Art Gesso e Perfil; carpete do auditório principal: Avanti; estrutura metálica: Brasil Aço; ar-condicionado: Climapress; mesas do café: Cia de Produtos; pisos das áreas de comércio e serviços: Conserpiso; divisórias removíveis: Dimoplac; porta automática e deslizante: Dorma; mobiliário: Dotto; acústica: Doulos; portas de madeira: Embramadem; guarda-corpo metálico: Esquadriall; equipamentos para cozinha: Étera; estrutura metálica: Exacta; instalação do forro metálico: FAC; mármore: Ferraz; cadeiras de auditório: Formaline; piso monolítico: Fosroc; esquadrias metálicas internas: Glafcon; tecido das cadeiras do auditório: Giroflex; porta corta-fogo: Hamifer; forro metálico: Hunter Douglas; estrutura metálica: Icopel; forro de gesso: Irmãos Santos; estrutura dos móveis: J.B. Produções Cinematográficas; impermeabilização: JCE Impermeabilizações; civil: KGLL; pintura: Mega Pinturas; carpete da sala vermelha: Montreal; balcão da recepção: O.P. Vilas Boas; escada metálica: Pacheco & Silva; instalações elétricas e hidráulicas: PJO; civil: RAB; proteção passiva: Refrasol; câmara frigorífica: São Rafael; piso elevado: Tate do Brasil; caixilhos das fachadas: Tecnofeal; pisos em madeira: Telefort; marcenaria: To-Ca; vidros: Vidraçaria Botafogo; mobiliário especial: Vila Rica; carpetes: Verona; monta-cargas: Zenit


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